Cultura
Tendência

Apresentado livro sobre Loff de Vasconcelos, a voz que, no tempo colonial, criticava a centralização na Praia e defendia a “regionalização”

Há cem anos, Luis Loff de Vasconcelos, avô do conhecido empresário bravense Augusto Vasconcelos, mostrava a sua oposição a um fenómeno político que ainda hoje incomoda os cabo-verdianos, em particular aos mindelenses: a centralização dos investimentos e da administração na cidade da Praia. Esta particularidade chamou atenção especial da assistência na apresentação do primeiro volume do livro “Luís Loff de Vasconcelos – Obra quase completa”, quando, a dada altura, a apresentadora Ana Cordeiro faz referência ao texto “Memorial dos habitantes da ilha de S. Vicente”, escrito por esse autor em 1900.

Dirigido ao Ministro da Marinha e Ultramar, o memorial foi suscitado pela indignação que se apoderou de um grupo de comerciantes e proprietários mindelenses e seria apresentado numa altura em que a decadência do Porto Grande era óbvia, mas ainda reversível, “caso fossem feitos os investimentos necessários”.

“É uma análise clara e precisa dos erros mais graves cometidos pela administração portuguesa e que, a julgar pelas vozes que ainda hoje se fazem ouvir, mais parecem um fardo que esta ilha (S. Vicente) tem de carregar”, enfatiza a apresentadora. Segundo Ana Cordeiro, os erros que Loff de Vasconcelos aponta são os seguintes: “uma administração excessivamente centralizada na Praia; uma deficiente organização da justiça, um regime aduaneiro pouco adequado à economia local, demasiado complexo e até incoerente; falta de competitividade das actividades económicas; falta de investimento no ensino público; falta de infraestruturas necessárias ao incremento da navegação.”

Por tudo isso, os signatários do documento solicitaram na altura a construção de uma ponte-cais, armazéns e edifícios públicos adequados, um liceu e uma escola de línguas, a descentralização da administração e maior celeridade na justiça.

A referência a esse quadro despertou risos silenciosos na assistência, composta pelo próprio Presidente da República José Maria Neves, o ministro do Mar e da Cultura, Abraão Vicente, e o edil Augusto Neves, deixando no ar a irrequieta conclusão de que, afinal, o grito dos cabo-verdianos contra a centralização tem raízes mais profundas.

Segundo Cordeiro, no volume 1, Opúsculos, de Luis Loff de Vasconcelos, obra que era até agora conhecida apenas dos investigadores, é possível encontrar elementos essenciais para se compreender como é que a ideia de nação tomou corpo nas ilhas, moldada por uma construção identitária, pela rejeição do domínio colonial e por uma ideologia republicana. “E, ao contrário da imagem que muitas vezes é transmitida de uma sociedade que vivia sufocada e paralisada pela opressão colonial, revelam uma imagem do colonizado em permanente luta politica contra o regime, pelo menos que respeita à fase da monarquia portuguesa e implantação da república”, diz Cordeiro, enfatizando que no tempo da ditadura do Estado Novo e da censura as coisas mudaram, mas Loff de Vasconcelos já não viveu esses anos sombrios. Nascido na ilha do Maio em janeiro de 1861, faleceu em S. Vicente no dia 19 de março de 1932.

Mas, enquanto viveu, esse jornalista foi o defensor dos direitos dos oprimidos em Cabo Verde e na Guiné Bissau, factos presentes nas obras A Perdição da Pátria, O Extermínio de Cabo Verde, Como nós colonizamos … Textos que revelam a posição frontal do escritor contra a dor dos milhares de cabo-verdianos que, por exemplo, morreram de fome em 1903 na ilha de Santiago, ou a criticar a ideia do deputado Ferreira de Almeida, que em 1891 propôs a venda das colónias, com excepção de Angola e S. Tomé e Príncipe, para salvar as desequilibradas finanças da Metrópole portuguesa.  

Loff de Vasconcelos usou a sua pena sem receio em A Perdição da Pátria para dizer claramente aos “dominadores” que os cabo-verdianos estão fartos da “descuidada tutela e desleixada administração colonial” e que, por isso, não aceitam ser vendidos como se fossem um estabelecimento comercial. “A escrita de Vasconcelos é assim mesmo – irónica, directa e desassombrada”, enfatiza Ana Cordeiro.

Humanista, visionário e defensor da Regionalização

A análise à obra poética de Loff de Vasconcelos por Ana Cordeiro foi reforçada pelo Bispo Dom Ildo Fortes na sessão de lançamento público do livro pela editora Artiletra, enquadrado nos 30 anos da Ímpar Seguros. O leitor atento dos escritos de Loff Vasconcelos, segundo Dom Ildo, dá-se de caras com um homem de forte personalidade, vislumbra facilmente uma pessoa íntegra no verdadeiro sentido da palavra, um humanista comprometido com as causas sociais do seu tempo. “Eu atrevia-me a dizer que estamos na presença de um grande visionário do desenvolvimento de Cabo Verde. Mundo era ôte cosa, no dizer de Manuel d’Novas em Bibliografia dum Criolo, se ele tivesse sido escutado e não fosse relegado para o esquecimento”, salientou o clérigo.

Nota-se, salienta Ildo Fortes, que Loff tinha uma consideração peculiar por S. Vicente. Ilha que nessa altura, continua, era chamada a ser uma região autónoma, para não dizer mesmo o centro ou a Capital de Cabo Verde. “S. Vicente ocupava uma posição estratégica muito importante para o país e a nível global, mas infelizmente as apostas e as deficiências eram de tal ordem que o seu prestígio e desenvolvimento caiam em benefício das ilhas Canárias.”

Advogado e comerciante, Loff, assegura Ildo Fortes, era um acérrimo defensor daquilo que hoje é denominado Regionalização. O apresentador recorre a uma passagem escrita de Loff para apoiar a sua interpretação. “A divisão da província em dois distritos administrativos autónomos é uma medida imposta de há muito pelas necessidades imperiosas do desenvolvimento, do progresso e da prosperidade da província de Cabo Verde. A centralização da administração pública na cidade da Praia está condenada por todos os princípios de ordem moral, material, económica e política”, escreveu Loff de Vasconcelos.

Este jornalista, prossegue Ildo Fortes, acrescentou nos seus textos que o grupo de ilhas de Barlavento e especialmente S. Vicente não pode e nem deve continuar na dependência e na subalternidade da Capital na cidade da Praia, sem grave prejuízo para o desenvolvimento.

A lucidez, a análise sincera e criteriosa da realidade gritante e dura que Loff de Vasconcelos viveu e testemunhou, a pobreza do povo, a situação estagnada das políticas económicas e danosas da Metrópole em relação às colónias da África, segundo Don Ildo Fortes, fez despertar no peito do escritor um grito de dor. Acresce o apresentador que, onde Loff vê sofrimento e se enche de compaixão e indignação, os decisores da Capital não viam senão um fardo a descartar na primeira oportunidade.

Dom Ildo descreve Loff como um homem que sente um grande orgulho de ser cabo-verdiano e africano. Uma raça criola que, nas palavras do escritor, tem hábitos e um feitio moral incompatíveis com a servitude. Gente cujo carácter é formado de um misto de orgulho e independência, paciente, bondoso, mas que encerra o instinto da liberdade elevado ao último grau.

Mostrar mais

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo