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Cabo Verde aposta na mudança de regime

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António Santos


“Os debates pós-eleitorais e as reações da sociedade civil mostram que o novo executivo vai enfrentar uma forte pressão pública para avançar com reformas ligadas à regionalização e à descentralização administrativa do arquipélago.”

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O Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV) venceu as eleições legislativas de maio de 2026, regressando ao poder após uma década na oposição. De acordo com os resultados divulgados, o PAICV conquistou a maioria absoluta e o seu líder, Francisco Carvalho, assumirá o cargo de novo Primeiro-Ministro.

Depois de 10 anos de governos de Ulisses Correia, marcados por um “desgoverno  total” do país, o povo cabo-verdiano decidiu que era a “hora de mudar” e, por isso, nas eleições legislativas apostou numa viragem política histórica, dando uma vitória expressiva ao PAICV. O partido conseguiu regressar ao poder ao garantir uma maioria absoluta. Os debates pós-eleitorais e as reações da sociedade civil mostram que o novo executivo vai enfrentar uma forte pressão pública para avançar com reformas ligadas à regionalização e à descentralização administrativa do arquipélago.

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Durante as celebrações da vitória, o líder do PAICV assumiu compromissos claros para a nova legislatura, garantindo a implementação do acesso gratuito ao ensino universitário; o reforço e melhoria dos cuidados e serviços de saúde pública em todas as ilhas; e a manutenção e aprofundamento das sólidas relações bilaterais históricas com Portugal.

Para Francisco Carvalho, o povo passou uma mensagem clara de mudança e, por isso, “pode esperar de nós tudo o que prometemos, com excepção do que depender de alterações constitucionais, porque o Movimento para a Democracia (MpD) não vai colaborar quanto a isso”. O ainda Primeiro-ministro, Ulisses Correia e Silva, reconheceu a derrota e anunciou a demissão da liderança do MpD.

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O PAICV entrou nestas eleições apostado no desgaste do Governo e no descontentamento popular relacionado com o aumento do custo de vida, desemprego jovem, dificuldades no acesso à habitação e desigualdades sociais.

A campanha eleitoral ficou igualmente marcada por acusações mútuas entre os dois maiores partidos. O PAICV acusou o Governo de utilizar inaugurações de obras públicas e iniciativas institucionais para favorecer eleitoralmente o MpD, enquanto o executivo rejeitou as críticas e acusou a oposição de promover um discurso de confrontação política e instabilidade.

Também a União Cabo-verdiana Independente e Democrática (UCID) procurou afirmar-se como alternativa ao tradicional bipolarismo político do arquipélago, defendendo reformas económicas e maior descentralização.

As eleições decorreram num contexto de forte atenção pública e elevada expectativa, num país frequentemente apontado como uma das democracias mais estáveis do continente africano. Observadores nacionais e internacionais acompanharam o processo eleitoral, marcado por um ambiente geralmente pacífico durante o dia de votação.

A transição de poder marca um momento de redefinição para Cabo Verde, após 10 anos de liderança de Ulisses Correia. O eleitorado sinalizou a urgência de mudar a gestão pública e as perspetivas de futuro económico e social do arquipélago. Francisco Carvalho assume agora o compromisso de liderar a formação do novo executivo com total estabilidade parlamentar.

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Kimze Brito

Jornalista com 30 anos de carreira profissional, fez a sua formação básica na Agência Cabopress (antecessora da Inforpress) e começou efectivamente a trabalhar em Jornalismo no quinzenário Notícias. Foi assessor de imprensa da ex-CTT e da Enapor, integrou a redação do semanário A Semana e concluiu o Curso Superior de Jornalismo na UniCV. Sócio fundador do Mindel Insite, desempenha o cargo de director deste jornal digital desde o seu lançamento. Membro da Associação dos Fotógrafos Cabo-verdianos, leciona cursos de iniciação à fotografia digital e foi professor na UniCV em Laboratório de Fotografia e Fotojornalismo.

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