Adolfo Lopes Varela
Ao lançar este artigo neste dia, primeiro de maio, podemos pensar que será um artigo de carisma meramente laboral, pelo contrário é um texto que procura abordar as eleições de 17 de maio de 2026, no primeiro ano do pós cinquentenário da independência nacional. Estas eleições são um teste à nossa capacidade coletiva de romper com desafios que se arrastam de governo em governo. Cabo Verde não pode continuar a adiar decisões estruturais. Tal como no “panu di terá”, o futuro exige fios firmes, escolhas conscientes e um rumo claro, sob pena de continuarmos a tecer um tecido frágil, incapaz de sustentar as aspirações do país.
1. Fiação fazer o fio: transformar problemas sociais em políticas sólidas
A fiação representa a transformação dos problemas sociais em políticas firmes, evitando que se tornem fardos para sucessivos governos, desde: a saúde, segurança, comércio, educação, turismo, transportes, regionalização, política externa, mudanças climáticas. Precisamos de transformar estas “fibras” que estão leves e soltas para que possam transformar-se em fios firmes e utilizáveis para a tecelagem de um bom “panu di terá”, de qualidade e muita durabilidade, “bodona”. Coisa que infelizmente não tem acontecido. A análise destas temáticas tem como principal propósito incentivar uma reflexão conjunta numa conjuntura de “precariedade investigativa” nos tempos que correrem, no qual queremos ser “ditadores das nossas leis” dentro das nossas verdades absolutas.
2. Tingimento: dar identidade às soluções nacionais
Da mesma forma que o “panu di terá” precisa dos corantes naturais, plantas autóctones do nosso arquipélago, muitos de nós, pelo contrário, estamos constantemente contrariando a máxima cabralista, “pensar pelas nossas próprias cabeças”. Na área da saúde, por exemplo, podemos perguntar se existe uma necessidade real de contratarmos 70 médicos vindos do estrangeiro,[1] enquanto temos jovens recém-formados que encontram diversos constrangimentos para encontrar o seu primeiro emprego,[2] depois de uma longa travessia na sua formação. Outro ponto essencial – temos ainda a necessidade imediata e inequívoca de um novo hospital de referência para que possamos reduzir as evacuações ao exterior, melhorando os serviços de especialidade através de um investimento avultado na aquisição de equipamentos hospitalares mais modernos, construção de uma nova delegacia de saúde na ilha Brava, uma das delegacias mais antigas e com menos condições de trabalho do país.
Na questão da segurança, uma de muitas inquietações diz respeito à segurança coletiva. O sentimento de insegurança torna-se cada vez mais comum em ilhas, municípios ou localidades em que este fenómeno era uma realidade distante, caso da ilha do Maio ou até mesmo Juncalinho, em São Nicolau, só a diminuição do número de ocorrências criminais não resolve o problema da insegurança. O país apresenta uma taxa de delinquência juvenil bastante preocupante, o que por si traz à tona a necessidade de se fazer um trabalho mais integrado entre os diversos ministérios, educação, cultura, desporto e juventude, sem esquecer as confissões religiosas e a sociedade civil no geral, sendo que, de acordo com os últimos dados, a maioria dos perpetuadores são indivíduos nas faixas etárias de até 21 anos, um aumento de 18,8% em comparação com o ano de 2022.[3]
No comércio, a união de forças das empresas nacionais é essencial para enfrentarmos a pequenez do mercado nacional, bem como catapultar as empresas nacionais para outros mercados, mais concretamente mercados vizinhos como os da CEDEAO, com mais de 300 milhões de consumidores, sem esquecer a adoção de uma agenda de industrialização do país, através de um programa de incentivos fiscais às empresas nacionais bem como os pequenos produtores das nossas ilhas.[4]
Com a reforma do sistema educativo, cabe-nos avaliar o seu impacto, mas não fazê-lo somente numa questão de estatísticas, mais concretamente relacionada com a taxa de aprovação dos alunos, mas sim priorizar a formação do indivíduo, avaliar a sua capacidade de se inserir na arena internacional através do domínio da língua nacional, bem como as línguas estrangeiras que dependem de uma educação completa e absoluta do ensino bilingue,[5] e consequentemente oficializar de uma vez por todas a língua cabo verdiana, tendo em conta a sua riqueza e as especificidades de cada ilha, já tivemos experiências bem sucedidas um caso concreto do projeto de Educação Bilingue, conduzido pela professora Ana Josefa Cardoso entre 2013 e 2019, foi implementado nas escolas de Ponta d’Água, na cidade da Praia, e de Flamengos, no Concelho de São Miguel. Durante esse período, outras instituições dos concelhos de Tarrafal e São Domingos, em Santiago, bem como duas escolas em São Vicente, também tiveram a oportunidade de participar na experiência de ensino bilingue, no plano internacional temos as ilhas Seychelles. Devemos sair do espectro onde a nossa língua materna ainda sofre de algumas “sequelas do colonialismo.”
No turismo devemos fazer uma análise mais aprofundada das suas implicações ao nível económico e social, usando o exemplo de outras ilhas, como as Seychelles. De acordo com o Banco de Cabo Verde, cada grupo de 10 turistas em gera cerca de 639.000 escudos,[6] enquanto nas Seychelles o mesmo grupo aporta aproximadamente 2.750.000 escudos,[7]quatro vezes mais, evidenciando o potencial ainda inexplorado do turismo em Cabo Verde. Não devemos também esquecer que o turismo pode ser um fator de risco real de uma inflação imobiliária, realidades nuas e cruas que podemos verificar nas cidades como Palma de Maiorca, Barcelona ou Lisboa, sendo importante agir na prevenção desse fenómeno, “oi vive na melon.”
3. Montagem do tear
A montagem do tear simboliza a necessidade de estruturar e alinhar todas as componentes do desenvolvimento nacional. Um dos desafios absolutamente imprescindíveis é montarmos um sistema de transporte eficiente, mais concretamente marítimos e aéreos, quer a nível nacional e internacional que dão vasão às necessidades da população.
Um sistema de transportes que liga pessoas, territórios e oportunidades de forma segura, acessível, eficiente e sustentável, há que introduzir um novo paradigma a nível económico nos transportes nacionais, mesmo que algumas rotas não sejam rentáveis, deve ser uma obrigação do Estado, subsidiar as linhas de transporte independentemente do seu mercado reduzido.[8]
A temática da regionalização político-administrativa pode ser resumida nesta frase: “Somos um arquipélago, mas tecemos o nosso destino como um país continental, sob uma centralização que ignora as ilhas e as regiões, mantendo as mesmas, para segundo plano.”
Outro ponto essencial, diz respeito a uma definição clara da nossa política externa, sendo inevitável a aproximação ao continente africano, bem como a procura de outros parceiros para o desenvolvimento, privilegiado a cooperação sul-sul, mais concretamente os países emergentes como: Indonésia, Índia, Austrália, Singapura, África do Sul e México. Com a exceção do México, todos esses países pertencem à Commonwealth, organização dos Estados de países de língua inglesa. Cabo Verde neste caso poderá seguir o modelo adotado por Moçambique,[9] que pertence à CPLP, mas também é membro da Commonwealth.
A adesão de Cabo Verde à Commonwealth poderá trazer diversos benefícios para o nosso país, desde educação, tecnologia, fundos para o desenvolvimento, saúde, entre outros setores sociais. Sendo uma país arquipelágico, devemos consciencializar o nosso povo e os nossos dirigentes para os desafios das mudanças climáticas, trabalhando numa ótica preventiva, para deste modo minimizarmos acontecimentos como 11 de Agosto nas ilhas do norte com especial foco em São Vicente, ou o 13 de Novembro do mesmo ano 2025, em Santiago Norte com principal destaque para o Tarrafal, devemos assumir uma agenda séria neste quesito, ser um “player omnipresente” na arena internacional sobre esta temática.
4. Tecelagem e união de tintas
A tecelagem e a união de tintas é o momento em que os fios se entrelaçam formando o “panu di terá” de Cabo Verde. Desse modo, é essencial que saúde, segurança e transportes funcionem como cores que dão consistência ao tecido nacional, garantindo atendimento de qualidade, proteção ao cidadão e a tão almejada conectividade entre ilhas, tornando o tecido sólido, harmonioso e pronto para sustentar o futuro do país.
Se cada fio for cuidado com atenção, Cabo Verde poderá finalmente tecer um futuro sólido. As eleições de 17 de maio não devem ser mais um adiamento, mas o início de um tecido nacional duradouro.
[1] A NAÇÃO. (2025, 10 de abril). Cabo Verde vai contratar 70 médicos cubanos para reforçar o sistema de saúde. A Nação – Jornal Independente. https://www.anacao.cv/noticia/2025/04/10/cabo-verde-vai-contratar-70-medicos-cubanos-para-reforcar-o-sistema-de-saude/ (consultado em 26/03/2026).
[2] BALAI. (2025). Praia: recém-formados relatam dificuldades no acesso ao primeiro emprego. Balai. https://www.balai.cv/noticias/praia-recem-formados-relatam-dificuldades-no-acesso-ao-primeiro-emprego/ (consultado em 24/03/2026).
[3] A Nação. (2024, 12 de abril). Crimes envolvendo menores e jovens aumentaram em 2023 em Cabo Verde.
https://www.anacao.cv/noticia/2024/04/12/crimes-envolvendo-menores-e-jovens-aumentaram-em-2023-em-cabo-verde/ (consultado em 26/03/2026).
[4] Expresso das Ilhas. (2026, 4 de março). Tecnicil Indústria e Cavibel unem forças para produção nacional dos sumos Ceris. Expresso das Ilhas. https://expressodasilhas.cv/empresas-negocios/2026/03/04/tecnicil-industria-e-cavibel-unem-forcas-para-producao-nacional-dos-sumos-ceris/101706
(consultado em 27/03/2026).
[5] ONU News. (2026, fevereiro). Dia Internacional da Língua Materna destaca papel dos jovens na educação. em https://news.un.org/pt/story/2026/02/1852448a (consultado em 27/03/2026).
[6] Banco de Cabo Verde. (2025). Relatório do Estado da Economia 2024. Banco de Cabo Verde. https://www.bcv.cv/SiteCollectionDocuments/2025/REE%202024-pub%202.pdf consultado em 29/01/2026.
[7] African Travel & Tourism Association. (2025, 24 outubro). Seychelles on track to beat 2019 arrivals as year-to-date visitors rise 12%. ATTA. https://atta.travel/resource/seychelles-on-track-to-beat-2019-arrivals-as-year-to-date-visitors-rise-12.html?utm_ (consultado em 27/03/2026).
[8] Voz da América. (2023, 11 de abril). Cabo-verdianos desesperam-se ante o arrastar-se da crise de transportes terrestres, em https://www.voaportugues.com/a/cabo-verdianos-desesperam-se-ante-o-arrastar-se-crise-de-transportes-terrestres-/7046016.html (consultado em 29/03/2026).
[9] Commonwealth Portal. (2026). Mozambique, em https://www.commonwealthportal.org/country/mozambique/ (consultado em 29/03/2026).









