Silvino Rodrigues
Num momento em que a economia mundial já enfrenta múltiplas incertezas, o conflito militar entre os Estados Unidos e o Irã levanta preocupações que ultrapassam
largamente as fronteiras do Médio Oriente. Para economias pequenas, abertas e altamente dependentes do exterior, como a de Cabo Verde, uma escalada desta natureza pode traduzir-
se rapidamente em impactos económicos significativos.
Uma das principais fontes de preocupação prende-se com o possível impacto nos mercados energéticos. Grande parte do petróleo mundial transita pelo estratégico Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais importantes para o comércio global de energia. Qualquer instabilidade militar nesta região pode provocar perturbações no abastecimento e, consequentemente, um aumento expressivo do preço internacional do petróleo.
Para um país como Cabo Verde, fortemente dependente da importação de combustíveis, este cenário pode ter efeitos quase imediatos. O aumento do preço do petróleo traduz-se rapidamente em custos mais elevados para a produção de eletricidade, para os transportes e para o funcionamento geral da economia. Em última instância, estes aumentos acabam por refletir-se no preço dos bens e serviços, pressionando o custo de vida das famílias.
Mas os efeitos de uma escalada militar não se limitariam ao setor energético. Conflitos internacionais desta magnitude tendem a gerar volatilidade nos mercados financeiros, perturbar cadeias globais de abastecimento e desacelerar o crescimento da economia mundial. Estes fatores afetam diretamente setores estratégicos da economia cabo-verdiana, em particular o turismo, o investimento externo e até as remessas enviadas pela nossa Diáspora.
A experiência recente demonstra que choques externos podem ter consequências rápidas em economias com forte integração internacional. Quando os preços internacionais dos alimentos, da energia ou de transporte marítimo sobem, países com elevada dependência das importações sentem esses impactos de forma mais intensa. Cabo Verde não é exceção.
Perante este contexto, a principal questão não é apenas como reagir a crises externas, mas como reduzir a vulnerabilidade estrutural da economia nacional. O modelo económico do país continua muito dependente do turismo e da evolução da conjuntura internacional, o que o torna particularmente sensível a choques que escapam ao controlo das autoridades nacionais. Neste sentido, torna-se cada vez mais evidente a necessidade de reforçar a resiliência económica do país.
A diversificação das atividades económicas, o investimento mais consistente em energias renováveis e o reforço da produção local podem contribuir para reduzir a exposição a crises externas. Paralelamente, políticas públicas previsíveis e instituições económicas fortes são essenciais para criar um ambiente favorável ao investimento produtivo.
Num mundo cada vez mais marcado por tensões geopolíticas e incerteza económica, pequenas economias como a de Cabo Verde precisam de pensar estrategicamente o seu futuro. A capacidade de enfrentar choques externos dependerá, em grande medida, das escolhas feitas internamente hoje. Transformar vulnerabilidades em oportunidades será, provavelmente, um dos maiores desafios económicos do país nos próximos anos.







