Nelson Faria
Vivemos num tempo de complexidade inaudita, uma era em que a interconexão global, impulsionada pela internet e pelas redes sociais, tece uma teia paradoxal de proximidade e de ruído. Para qualquer indivíduo, navegar esta realidade é um desafio, mas, para aqueles que se encontram na vida pública e política, a exposição é total e a exigência de um “saber estar” autêntico e resiliente nunca foi tão premente.
Este não é apenas um tempo de comunicação instantânea, mas um tempo de consciência exposta, onde a aparência já não consegue, por muito tempo, ocultar a essência. O primeiro desafio deste novo paradigma é a gestão da ignorância, não no sentido pejorativo, mas no seu significado literal de desconhecimento. A velocidade com que a informação, e a desinformação, se propaga cria um ambiente fértil para rótulos fáceis e generalizações redutoras.
Numa rede amplificada que opera sem filtros, a calúnia e o julgamento sumário tornam-se armas de arremesso. A tentação de responder a cada ataque, de corrigir cada imprecisão, é imensa, mas fútil. A verdadeira fortaleza, neste contexto, não se constrói com respostas reativas, mas com a solidez de uma consciência tranquila. A melhor forma de lidar com a difamação não reside nos tribunais ou nos registos judiciais, mas na certeza íntima dos atos praticados. Existe uma instância de julgamento que ultrapassa a justiça dos homens, a do próprio ser, da sua integridade e do peso das suas ações na sua consciência.
Este é, simultaneamente, o tempo em que a máscara dos “bons rapazes” caiu por terra. A ausência de um registo criminal ou a manutenção de uma fachada imaculada já não são suficientes para garantir a confiança pública. A transparência tornou-se uma exigência inegociável, não apenas nos atos, mas nas intenções. A sociedade, mais desperta e atenta, percebeu que a verdadeira índole de uma pessoa não se esconde por detrás de aparências polidas. A essência, cedo ou tarde, predomina. O que antes se sussurrava em corredores privados, hoje ecoa em praça pública digital, forçando a que a autenticidade seja a única política sustentável a longo prazo.
Neste cenário, para além da massa ruidosa e desinformada, emergem os “cobradores” despertos. Estes não são meros críticos, mas cidadãos atentos que exigem mais do que promessas vagas e posturas calculadas. Exigem assertividade na ação política e, crucialmente, uma “musculatura emocional” robusta para lidar com os desafios da exposição pública. Querem líderes que não se verguem perante a crítica infundada, mas que também não se isolem numa torre de marfim de arrogância. Este novo tempo clama por uma humanidade partilhada, por um reconhecimento de que todos os seres humanos são iguais, independentemente da ilusão de superioridade que posições e cargos possam conferir. O verdadeiro “saber estar” passa por descer do pedestal e dialogar de igual para igual, com a humildade de quem sabe que o poder é transitório, mas o carácter é permanente.
A lição fundamental da nossa era é a da inevitabilidade da verdade. Por mais filtros que se apliquem, por mais camadas de aparência que se construam, a essência e o peso na consciência acabam sempre por se revelar. A verdade pode tardar, mas não se esconde para sempre. Por isso, este é um tempo que demanda uma preparação profunda. Não uma preparação para gerir crises de imagem, mas para lidar com a complexidade de perspetivas, informadas ou não, verdadeiras ou falsas.
Acima de tudo, é um tempo que exige a plenitude da consciência no que se fez, no que se faz e no que se pretende fazer. Porque, no final, as consequências, boas ou más, serão cobradas. O tempo, seja ele curto ou longo, é o juiz implacável da nossa verdadeira essência.







