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Sandro Sousa, doente evacuado: “Procurei impedir que a doença afectasse o meu percurso vivencial”:

O jovem cabo-verdiano Elissandro Sousa, que reside em Portugal desde 2011 devido a uma insuficiência renal crónica, disse que desde que chegou de Cabo Verde procurou que a doença não impedisse o seu “percurso vivencial, mas que fosse o alicerce para reforçar e consolidar interiormente, preparando-se para melhor enfrentar dificuldades e desafios”. Em entrevista ao Mindelinsite para falar sobre como os jovens cabo-verdianos devem encarar a situação da evacuação para Portugal, destacou a tristeza, a saudade, desespero, para além de dificuldades financeiras como os maiores constrangimentos que os evacuados enfrentam, levando a que muitos venham a precisar de apoios a nível alimentar, habitacional e psicológico. 

Por: João A. do Rosário 

Sandro Sousa, como é conhecido, considerou ser um “fragmento enorme de tristeza” o momento quando se recebe a notícia de partir das suas origens, como no seu caso, sem ter hora ou data marcada para o regresso. Isso porque, diz, os doentes renais em tratamento, até bem pouco tempo, ficavam dependente da “lotaria” de se conseguir um transplante.

É ainda “frustrante e desesperador”, refere, por se estar sozinho e ter de enfrentar dificuldades e desafios, que não são poucas. Mas Sandro rejeita ser considerado “o coitadinho do doente evacuado”, que vive em situação difícil e que é visto com pena e compaixão pelas pessoas. Fez notar ainda que, no momento, procura sempre viver a dádiva que é o presente, um dia de cada vez, com fé e esperança de que tudo se alcança.

“Para todos nós que temos de largar tudo para trás, para viver e refazer a vida em outro país, receber essa notícia, sem dúvida é o momento mais marcante nas nossas vidas ao descobrirmos que temos de deixar familiares, amigo, outros deixam filhos”, realçou Sandro Sousa.

Apesar disso, é com uma enorme motivação que traça objetivos e supera os desafios a que se propõe. Entende que, como ele, todos os jovens, na sua situação devem enveredar pelo mesmo caminho. Hoje com 32 anos, conta que, desde que chegou a Portugal para se tratar, enalteceu “o espírito de iniciativa” que foi conquistando o coração de muitas pessoas.

Foi assim que conseguiu o apoio da Girassol Solidário, uma das muitas associações que orienta os doentes evacuados em Portugal e que o matriculou na Casa Pia de Lisboa. Nesse centro de referência concluiu o 9º ano de escolaridade e começou o seu percurso, enveredando por uma formação de Técnico Ocular na Casa Pia, entre 2012 a 2015.

Após terminar o curso conseguiu um emprego e, na sequência, fez um transplante renal que melhorou a sua qualidade de vida. Desde então tudo tornou-se diferente para melhor, a começar pela saúde, a principal prioridade como admitiu, mas que para ele, simplificou a “harmonização” do trabalho com a universidade. Lembra que antes tinha que fazer hemodiálise, estudar e trabalhar, o que fazia com que as coisas ficassem bem mais complicadas, na medida em que continuava  a sua vida académica, frequentando um curso de licenciatura em Óptica e Optimetria.

Muitos doentes, entre os quais alguns jovens que chegam a Portugal em tratamentos de longa duração e/ou em regime ambulatório, como é o caso de hemodiálise, Sandro Sousa aconselha-os, em primeiro lugar, a não se resignarem e aceitarem a sua nova condição, tornando-se mais fortes psicologicamente ao tomarem a consciência das suas limitações. De acordo com este jovem, isto lhes permitirão ter auto-estima e sentirem-se motivados para olhar para frente, traçar objectivos e nunca desistir dela.

No seu entendimento, a adaptação e convivência com a nova realidade, não é fácil para ninguém que tem problema crónicos de saúde, sobretudo em país desconhecido. E mesmo que as pessoas vêm por tempo limitado não se torna nada fácil, quanto mais para os que não têm essa perspetiva de regresso as suas origens.

Elissandro Sousa vive em Portugal desde fevereiro de 2011 e tem 32 anos. Define-se como uma pessoa alegre, apesar das vicissitudes da vida que passa a maioria do tempo a rir, gosta de fazer amizades, simpático, extrovertido, humilde e sincero. “Defino-me como uma pessoa que vive com o coração, respeito e dedicação, mantendo a minha dignidade e honestidade, deixando que as minhas ações falem por mim”, concluiu.

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