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Médicos cabo-verdianos radicados nos EUA realizam cirurgias inéditas em laparoscopia no HBS

A equipa de médicos cabo-verdianos radicados nos Estados Unidos, que se encontra em missão no país, realizou em três dias cerca de 25 cirurgias em diferentes áreas no Hospital Baptista de Sousa, inclusive as primeiras em laparoscopia. Esta informação foi avançada pelo chefe da equipa, o médico Júlio Teixeira, cujo sonho é  criar uma escola de pós-pós-graduação em medicina Cabo Verde por a acabar em definitivo com a dependência dos médicos da cooperação, 47 anos depois da independência do país.

De acordo com Júlio Teixeira, esta missão da associação de médicos cabo-verdianos, denominada “Cabo Verdean American Medical Society”, dá continuidade a um projecto iniciado há três anos, durante o primeiro episódio da Covid-19, em 2020. “Sentimos necessidade de dar o nosso contributo para uma melhor saúde em Cabo Verde. Este foi o estímulo que nos levou a organizar esta sociedade de médicos. Nascia a Associação dos Médicos, a Cabo Verde American Medical Society, radicado nos EUA. Começamos por educar a nossa comunidade por forma a aumentar a literacia da saúde em Cabo Verde, como também na diáspora. Fazíamos conferências mensais e convidávamos médicos cabo-verdianos a participar, como forma de também termos um melhor conhecimento da realidade do país. Paralelamente, íamos identificando as necessidades e oportunidades de colaboração”, explica.  

Este especialista em laparoscopia e robótica revela que, nos últimos 20 anos, esteve por diversas vezes em Cabo Verde para dar formação, mas também em países como Mongólia, Nicaragua, Guatemala, Chile, Peru, Argentina, entre outros. Mas foi em 2022 que trouxe para o país a primeira missão desta associação. “Éramos uma grande equipa e fizemos muitas actividades durante a nossa estada nas ilhas, nas áreas de clinica, psicologia, administramos cursos em ginecologia, laparoscopia e cirurgia oncológica. Também trouxemos uma equipa de saúde mental. Foi uma experiência muito interessante.”

Com o conhecimento adquirido, diz, este ano a equipa veio reforçada com cerca de 40 profissionais, que neste momento estão espalhados pelas ilhas de Santiago, Fogo, São Vicente, Santo Antão e Sal. “A ideia deste intercâmbio é trabalhar ao lados dos colegas locais para termos uma troca de experiência e para aumentar a cultura da pratica da medicina aqui no país. Neste sentido, organizamos um simpósio sobre Empatia na Saúde na Universidade do Mindelo, cujo propósito foi estimular os nossos colegas a terem mais sensibilidade e empatia nos cuidados de saúde. Também trouxemos uma equipa de cardiologia da Harvard, liderada pela directora de formação desta universidade. A equipa veio fazer consultas, mas também vamos aproveitar para fazer uma reciclagem para os médicos locais,” detalha. 

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Júlio Teixeira, chefe da Cabo Verde American Medical Society

Equipamento de laparoscopia

A par das consultas e formações, a missão doou um equipamento de laparoscopia ao Hospital Baptista de Sousa. Trata-se, segundo Julio Teixeira, do primeiro do género instalado neste hospital. “Trouxemos ainda especialistas em cirurgia ortopédica, cirurgia plástica reconstrutiva, cirurgia geral, oftalmologia e cirurgia de catarata, e ainda uma enfermeira especialistas em cuidados perioperatórios no bloco. São muitas especialidades. E durante estes três dias no HBS realizamos cerca de 25 cirurgias.” 

Para este especialista, a missão em Cabo Verde é estimulante e gratificante porque estão a contribuir para a melhoria do serviço de saúde. Por isso mesmo, afirma, é para continuar e, se possível, expandir para outras áreas. “Temos muitos médicos cabo-verdianos lá fora. Só nos EUA são mais de 150, mas varias especialidades, desde medicina aeroespacial, microcirurgia vascular, medicina de emergência. Em Cabo Verde há uma grande necessidade de medicina de emergência, uma especialidade que sequer existe m Portugal. Temos experts que podem vir aqui para dar formação”, anuncia. 

Relativamente ao seu desejo de abrir uma escola de pós-graduação em medicina aqui no país, Júlio Teixeira afirma que neste momento está em discussão com os ministério da Educação e da Saúde. Mas, enquanto não se concretizar, vai continuar a trazer profissionais e a dar formação por forma a ajudar Cabo Verde a conseguir a sua independência também na área da saúde. 

Quanto ao aparelho de laparoscopia doado e testado durante a permanência da missão no HBS, através da realização de cirurgias, diz que se trata de um equipamento que custa em torno de 250 mil dólares, mas que conseguiram através de doação. Acredita que vai trazer muitos benefícios ao hospital, tendo em conta que as cirurgias em laparoscopia são pouco invasivas, o que permite uma rápida recuperação e, consequentemente alta do paciente. Por conta disso, impacta também o staff do hospital. 

Durante a estada da equipa médica no HBS, Julio Teixeira revela ainda que foi notável uma outra oportunidade de colaboração, em especifico na área dos processos sistemáticos de cuidados dos pacientes, mais precisamente dos protocolos. “São formas e procedimentos que permitem avançar rapidamente nos cuidados de saúde e que permitem aos pacientes regressar em pouco tempo para casa. O nosso objectivo aqui é aumentar a confiança dos utentes no HBS por forma a que passe a ser a primeira opção de tratamento para o público, com formação, organização e tecnologia.”

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Constanca Pina

Formada em jornalismo pela Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ). Trabalhou como jornalista no semanário A Semana de 1997 a 2016. Sócia-fundadora do Mindel Insite, desempenha as funções de Chefe de Redação e jornalista/repórter. Paralelamente, leccionou na Universidade Lusófona de Cabo Verde de 2013 a 2020, disciplinas de Jornalismo Económico, Jornalismo Investigativo e Redação Jornalística.

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