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Feridas na alma: Comunidade de Salamansa abalada com casos de pedofilia

Ferida, triste, constrangida e recolhida. Estes são os sentimentos das famílias na pequena comunidade da Salamansa desde que se tornou público o caso de abuso sexual a cinco crianças supostamente praticados, inclusive dentro da igreja, pelo responsável pela chave da capela. São poucos os que aceitam falar do assunto, mas sem entrar em detalhes. A maioria remete-se ao silêncio, talvez como forma de esquecer/ignorar os factos. O Bispo da Diocese do Mindelo, Dom Ildo Fortes, mostra-se magoado pelo facto de as crianças não terem sido protegidas, mas também porque o presumível agressor ser próximo da igreja e das vítimas. O pároco da Igreja de N. Sra da Luz, que foi quem ouviu o desabafo da primeira criança a revelar este drama, não obstante as ameaças do alegado pedófilo, está triste e consternado. Já o Instituto Cabo-verdiano de Crianças e Adolescentes (ICCA) promete colocar no terreno uma equipa de psicólogos para acompanhar as crianças, as famílias e a comunidade.

– Por Constânça de Pina –

Esta notícia foi despoletada por uma das vítimas de 12 anos, há cerca de quatro semanas. Procurou o pároco da Igreja de Nossa Senhora da Luz para desabafar. Surpreendido com a revelação, este prelado conta que conversou uma segunda vez com a criança para confirmar as afirmações. De seguida procurou a mãe da menor, que se mostrava reticente em partilhar o ocorrido com a família. “Penso que a criança estava sufocada e decidiu partilhar o seu sofrimento com o pároco. Falamos de seguida com a mãe, que ficou em choque e manifestou alguma preocupação com a reacção do marido. Foi então que accionamos o ICCA, que nos ajudou no processo de comunicação com o pai da criança”, revela o padre, que se mostra consternado, sobretudo com a situação das crianças e das suas famílias.

Mas a família do suspeito, de 53 anos, pai de quatro filhos e já avô, também preocupa o pároco porquanto, diz, faz parte da comunidade católica da Salamansa. “São uma família cristã. O suspeito tem esposa, filhos e netos, mas também irmãos e outros familiares. Todos são membros activos da comunidade, com laços de muitos anos. Estamos a falar de uma pessoa próxima, amiga e a serviço da paróquia. Ao mesmo tempo, como sacerdote, vejo como é terrível o mistério do mal e até que ponto pode cair uma pessoa na sua fragilidade humana, violando os valores sagrados da sua própria fé.”

Infelizmente, afirma, o abuso sexual de crianças é uma realidade geral e também muito familiar. “Hoje, segundo aquilo que sabemos, a família é o ambiente mais propenso a este tipo de crimes. Onde supostamente uma criança deveria sentir segura, acaba por representar mais risco. E neste caso aconteceu também nos ambientes da igreja, o que a todos nos entristece ainda mais. Por isso assumimos as nossas responsabilidades. Não podíamos deixar de estar próximo das famílias, denunciar e combater a grave situação, mas também de assistir espiritual e humanamente a comunidade, até porque sabemos que ela está muito triste e consternada com a situação.

O pároco mostra-se confiante na protecção de Deus, em diálogo e abertura com o Bispo da Diocese do Mindelo e com as autoridades indicadas e experientes a lidar com este drama. Para o efeito, desde que tomou conhecimento do caso, decidiu acompanhar e assistir todas as partes envolvidas – crianças, famílias, mas também o alegado agressor e sua família, como sacerdote e pároco da Igreja de N. Sra da Luz.

Silêncio em Salamansa

Na localidade de Salamansa são poucas as pessoas que falam sobre o assunto. Ninguém proibiu, mas as pessoas estão recolhidas. Apenas duas pessoas aceitaram falar com a nossa reportagem, sendo uma delas familiar de pelo menos duas das vítimas, mas sob anonimato. Ao Mindelinsite, uma destas fontes garante que o sofrimento das famílias é ainda maior porque os abusos não começaram agora. “Há mais de um ano que as crianças vinham sendo sistematicamente abusadas por esta pessoa, que era de confiança. Estamos a falar de alguém que era conhecido e respeitado. Guardava as chaves da igreja e ía buscar as crianças em casa para irem para a catequese e missa. São crianças entre os 8 e os 12 anos que foram abusadas e intimidadas com ameaças de morte contra si e seus familiares”, desabafa.

Foi este medo que silenciou as vítimas por tanto tempo. Aliás, prossegue a nossa fonte que mostra uma enorme mágoa, a criança que revelou este crime só se atreveu a falar com o pároco da comunidade. “Esta criança já não aguentava mais os abusos. Contou ao padre o seu sofrimento com base na confiança porque sabia que este não iria revelar o que lhe tinha sido dito. Mas este voltou para falar com a criança, que acabou por confirmar o seu calvário. Foi a mesma que apontou pelo menos mais uma vítima”, realça.

Já o sentimento da outra fonte ouvida por Mindel Insite é de revolta porquanto, diz, conviveu muitos anos com o suspeito e nunca viu nele nenhum sinal que pudesse ter despertado sua desconfiança. “Convivemos na igreja, mas também fora dela. Por exemplo, jogamos cartas juntos. Somos amigos de há muitos anos. Como é que nunca percebi nada de errado? Basta olhar para as crianças agora para perceber que tiraram uma carga pesada dos ombros. Mesmo assim estão com medo e os familiares também”, lamenta esta nossa fonte, que acredita que mais vítimas vão aparecer, agora que a cortina de silêncio foi quebrada e que o suposto agressor já está em prisão preventiva na Cadeia da Ribeirinha. Lamentam, no entanto, que o julgamento vá demorar pelo menos um ano e quatro meses para acontecer.

Estatística aquém da realidade

É aqui que entra o Instituto Cabo-verdiano da Criança e do Adolescente e a Polícia Judiciária, a primeira para cuidar dessas crianças e a segunda para investigar estes crimes de natureza sexual, que acontecem e perpetuam no seio das famílias e que são praticados, na maioria das vezes, por pessoas de confiança e parentes próximos. É por isso, aliás, que, de acordo com alguns estudos, só 10 a 20% destes crimes chega ao conhecimento das autoridades.

Para o delegado do ICCA , este caso de abuso sexual é em tudo idêntico aos outros tornados públicos em São Vicente. Só em 2018, o Instituto atendeu 15 casos e, nos primeiros quatro meses deste ano, já são 10 ocorrências. Números que não refletem a realidade no terreno, até porque este é um crime de vergonha e de medo e a maioria não chega ao conhecimento das autoridades, como refere Jandir Oliveira. Para ele, as crianças são vítimas independentemente das circunstâncias em que o crime ocorre.

Jandir Oliveira admite, no entanto, que este caso tem particularidades, desde logo pelo facto de ter acontecido num lugar que é considerado sagrado pelos católicos, a Igreja, e por ter sido cometido por uma pessoa que inspirava confiança. “O peso da confiança que era depositado no suspeito acabou por aumentar a sua carga. Por outro lado, estamos a falar de uma comunidade onde boa parte dos seus integrantes possui laços de parentesco. Por isso, tivemos um cuidado particular na forma como este caso devia ser abordado, para proteger as vítimas e o próprio agressor.”

Equipa de psicólogos no terreno

Para o efeito, prossegue, o ICCA e a igreja desenharam uma estratégia que lhes permitiu chegar às crianças e, ao mesmo tempo, proteger todas as partes envolvidas. Depois foi só seguir os trâmites legais. Entretanto, em paralelo constituíram uma equipa de psicólogos – do ICCA, do Ministério da Educação e da própria Delegacia de Saúde -, que está a preparar um trabalho articulado, que vai envolver também os colegas das crianças que frequentam o polo educativo da Salamansa. “Pretendemos com esta acção evitar o estigma destas crianças. Também vamos trabalhar com os pais das vítimas e com uma boa parcela desta comunidade”, pontua.

Questionado sobre os motivos que levam a comunidade a recusar falar sobre esta questão, Oliveira explica que esta é uma reação normal. “A comunidade precisar absorver esta notícia. Ainda estão em choque, até porque em causa está uma pessoa que era muito conhecida. Estamos a falar de um amigo, de um companheiro de conversas, de jogos e de oração. Ainda estão a tentar entender onde falharam. Outros há que vão se culpar. É preciso deixar a ficha cair, só depois é que vão conseguir falar sobre os abusos. Importa lembrar que a denúncia partiu de uma criança, que apontou uma colega. E depois apareceram mais três. Sempre que alguém ganha a coragem para falar, aparecem outros. As pessoas sentem-se mais á-vontade.”

Por causa desta sentimento de “traição”, a Neuropsicóloga Carla Jesus recomenda um trabalho envolvendo todas as partes, inclusive os membros da comunidade de Salamansa, mesmo que não tenham sido directamente afectada. Isto porque, afirma, todos se conhecem. “Toda a comunidade está a sentir-se enganada por alguém da sua confiança. O alegado agressor era um amigo, um familiar e sobretudo, um religioso, que é tido como uma pessoa acima de todas as suspeitas dentro de uma localidade pequena que, muita vezes, vê a Igreja como uma consolo para as suas dificuldades. Por isso entendo que todos deviam receber algum acompanhamento e/ou orientação.”

Do lado da PJ, segundo os inspectores envolvidos neste caso, a instituição foi accionada pelo ICCA na quinta-feira da semana passada. Ouviram de imediato a criança de 12 anos, que apontou uma outra vítima. Esta deveria prestar depoimento na sexta-feira, mas não compareceu. No entanto, na segunda-feira, quando se preparavam para deslocar à Salamansa, foram contactados pelo ICCA, que lhes informou que tinham sido procurados por mais três crianças. “Ouvimos estas crianças e fizemos outras diligências, que culminaram com a prisão e apresentação do suspeito ao juiz para primeiro interrogatório. Este aplicou-lhe, como medida de coação, a prisão preventiva. Vamos continuar com as investigações para saber se há ou não mais vítimas. Até agora fizemos apenas um trabalho preliminar”, relatam.

Instados a precisar se este é um caso de abuso continuado, até porque o suspeito foi acusado de agressão sexual com penetração e os familiares garantem que há mais de um ano as crianças vinham sofrendo abusos, estes alegam que só a investigação poderá confirmar ou negar essa versão.

Igreja triste e envergonhada

Para o Bispo da Diocese do Mindelo este é um crime grave, que ganhou uma dimensão maior por se relacionar com a igreja católica e envolver um indivíduo da comunidade que desempenhava uma função, no caso, guardava a chave da capela. Dom Ildo afirma, no entanto, que este é um assunto de família. “Este é um caso da nossa sociedade, que tocou a igreja. Porque se tem falado muito desta questão da igreja a nível mundial, penso que ganhou outra dimensão. A igreja tem de condenar estes crimes de forma veemente. Mas acontecem em todas as áreas: nas escolas, nos ginásios, no desporto, em outras religiões. Ficamos magoados. É grave que alguém da nossa igreja faça isso, sobretudo tendo em conta os nossos ensinamentos e a nossa fé. Infelizmente não pedimos a ficha criminal dos nossos fieis.”

A gravidade do crime e a determinação da Santa Sé, particularmente do Papa Francisco, diz o Bispo, levou a igreja a procurar as autoridades de imediato. Mas Dom Ildo garante que o abuso sexual de menores é um assunto que está a mobilizar a igreja católica a nível local e regional. Neste momento, diz, há indicações claras para se proteger as crianças . “Tivemos conhecimento dos factos, procuramos os pais da menor, até para os acolher porque a igreja tem humanidade. Mas nunca nos passou pela cabeça esconder ou camuflar o caso. Em paralelo, demos todo apoio à família, inclusive passamos o domingo de Páscoa na Salamansa, para mostrar a nossa solidariedade e semear de novo a confiança na comunidade.”

Mensagem para dentro da igreja

O Bispo reconhece que a postura da igreja neste caso também passou uma mensagem para dentro, de que não vai haver tolerância para nenhum tipo de crime. De que o mal deve ser combatido, seja de natureza sexual, corrupção ou outro, sem perder a serenidade e a responsabilidade, até porque é preciso proteger a dignidade das pessoas. Sobre este caso em particular, admite que ficou magoado, mas nada que o faça perder a confiança na humanidade.

“Senti-me magoado. Mas tenho de dizer que há alguns anos que, a nível da igreja, temos vindo a partilhar entre nós a preocupação com os abusos, tanto que em 2018 mobilizamos a comunidade para que a Renúncia Quaresmal fosse canalizada para uma rede que se criou em Santo Antão para a protecção de menores. Temos conhecimentos de muitos casos que acontecem naquelas ribeiras. Estamos, juntamente com pessoas conhecedores do Direito e outras, para ver como podemos ajudar. É uma questão delicada porque a maior parte desses casos acontece no seio da família e são abafados.”

O alegado violador, recorda-se, já está em prisão preventiva na Cadeia da Ribeirinha, depois de ter sido detido, fora de flagrante delito, na semana passada. O indivíduo, de 53 anos, é suspeito da prática de cinco crimes de agressão sexual de menor com penetração. Alguns actos terão sido cometidos dentro da capela da Salamansa e também na casa do suspeito.

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