Familiares e amigos prestaram esta semana homenagem ao ex-futebolista dos Falcões do Norte e do SC Mindelense Alberto Ferreira da Cruz, mais conhecido por Gil d’Damacena, com uma missa e caminhada silenciosa para o cemitério de São Vicente, onde foi sepultado após ser encontrado sem vida no seu apartamento, sito em Chã de Alecrim. Para Eliseu Manuel Monteiro, visitar a sepultura do irmão mais velho foi um momento duro, mas libertador. “Seria mais difícil para mim aceitar a sua partida se não tivesse vindo. Estar ali deu-me força para continuar este processo de luto. E pude, mais uma vez, reconhecer o quanto importante ele foi na minha vida”, revela Gagau, como é tratado pelos amigos, que reside em Portugal, onde recebeu a notícia do passamento de Gil. Conta que estava a participar num campeonato de snooker quando foi informado do sucedido por um sobrinho.
“Foi uma notícia terrível porque ninguém esperava que isso pudesse acontecer. Nunca pensei que ele pudesse estar doente. Costumava falar comigo sempre com aquela positividade e alegria”, confessa Gagau, que teve depois a missão de repassar a informação para os irmãos José, Conceição e Madalena Monteiro, igualmente residentes na Europa. Arrumaram logo as malas e rumaram São Vicente, mas não chegaram a tempo de participar no funeral. Dado ao estado do cadáver, as autoridades autorizaram o sepultamento imediato.

Gagau afirma que tinha uma relação de cumplicidade e de pura amizade com o irmão. Esse relacionamento teve também as suas bases no campo desportivo. Ambos foram jogadores de futebol federados pelo Falcões do Norte, mas Gil, segundo Gagau, era um futebolista fora de série em S. Vicente. “Ele não era possante fisicamente, mas possuía outras qualidades ímpares: velocidade, drible, técnica e visão de jogo. Ele jogava atrás do ponta-de-lança, tinha a capacidade de provocar desequilíbrio no sector defensivo e ainda marcava golos”, descreve.
Gil, conta Gagau, mostrou desde criança o seu dom para o futebol. “Algo nato”, enfatiza. Tanto assim que começou a participar nos chamados “jogos de fralda” na localidade de Chã de Alecrim quando ainda era adolescente. Revela que fez parte da equipa Cotia, treinada por Djodji “Belga”, e aos 17 anos entrou para o futebol federado pelos Falcões do Norte.

“Logo nessa época ele deu nas vistas. Ele era considerado um dos melhores jogadores dos Falcões, a par do colega e amigo Nando Eliseu”, comenta Gagau. Acrescenta que Gil acabou por chamar atenção do CS Mindelense e não tardou muito para ser contratado pelo técnico Tchida. “Mas ele jogou apenas uma época pelo Mindelense. Por coincidência foi no ano em que Tchauca, também de Chã de Alecrim, era guarda-redes do clube encarnado. Mas ele decidiu regressar no ano seguinte para o clube do seu coração – Falcões”, conta o irmão.
Gil, segundo Gagau, lembrava-lhe a postura do famoso jogador brasileiro Ronaldinho Gaúcho, um atleta que se divertia a jogar. “Ele não levava as coisas à sério. Ele jogava sem stress”, ilustra. Para demonstrar como o irmão ligava pouco ao sucesso no desporto, conta que ele foi o único jogador do Falcões do Norte a ser selecionado para o Misto de São Vicente, para integrar uma equipa composta por nomes como Zé d’Angola, Gut, Gabs, etc. “Outro jogador teria ficado orgulhoso e até bazofo. Gil não deu nenhuma importância a isso e sequer compareceu aos treinos.”
Antes de completar os 30 anos, Gil, segundo Gagau, “pendurou” as botas. “Assim, do nada. Não foi por lesão nem por falta de oportunidade, apenas a sua vibe!”
Se Gil nascesse agora, segundo Gagau, teria certamente oportunidade para seguir a carreira profissional. Lembra, no entanto, que talento não é o bastante. É preciso disciplina, compromisso e muita entrega aos treinos, aspectos que não estavam muito presentes no atleta. A seu ver, se Gil fosse um atleta aplicado, ele seria certamente um titular da seleção de Cabo Verde.







