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Família desalojada por enxurrada acusa CMSV de “abandono”: “Mandaram-nos dormir nos vizinhos ou procurar uma casa para alugar”

A família que teve a sua residência invadida e derrubada por enxurradas acusa da Câmara de São Vicente de abandono. Apenas com a roupa do corpo, ontem os dois filhos dormiram em casa de conhecidos, enquanto que Joceline Sequeira e o seu companheiro foram acomodados no Quartel dos Bombeiros Municipais, na esperança de uma resposta da autarquia hoje. Infelizmente, foram agora aconselhados pelo Serviço Social da CMSV a procurar abrigo junto de familiares ou vizinho. “Mandaram-me dormir nos vizinhos ou procurar uma casa para alugar”, denuncia.

Em declarações ao Mindelinsite, Joceline Sequeira conta que a família perdeu tudo o que conseguiu acumular com esforço. “A nossa casa foi invadida por uma enxurrada passava das 10 horas da manhã. Entrou nas traseiras e saiu na frente, arrastando tudo o que encontrou pelo caminho. Perdemos tudo. Ficamos na rua. Entrei então em contacto com o Serviço Social da CMSV, mas não apareceram. Contactei os Bombeiros Municipais, que estiveram por duas vezes no local. De noite, o responsável local de Proteção Civil telefonou-me para perguntar se tinha um lugar para dormir e neguei”, conta. 

Nesta altura, diz, o responsável local de Proteção Civil decidiu ir buscar a família para pernoitar no quartel dos Bombeiros Municipais. “Fui eu e meu companheiro, os meus dois filhos dormiram em casa de conhecidos. Jantamos e nos disponibilizaram uma cama para dormir. De manhã, após o café, fomos aconselhados a procurar o Serviço Social da CMSV. Lá fui impedida de entrar porque estava de short, mas era a minha única roupa”, enfatiza a entrevistada, que diz ter conhecimento que não se pode entrar numa instituição de short, mas afirmou tratar-se de uma situação de emergência.  

Este foi conferenciar com um outro colega, que confirmou a proibição de entrada no departamento com short. Mesmo assim, decidi entrar porque estava desesperada, lembrando-lhe que a minha casa e todos os meus bens tinham sido levados pela enxurrada. Foi então que perguntei-lhe o que queria que eu fizesse. Este alegou que se fosse por ele, eu poderia entrar na instituição da forma que me apetecesse. Foi só então que decidiu me ouvir”, desabafa Joceline Sequeira. 

Pediram os meus contactos e mandaram-me aguardar”

Após ouvir a sua história, diz, o funcionário da CMSV pediu-lhe a sua identificação e contacto, e mandou-lhe aguardar um contacto no período de tarde, no dia seguinte ou depois. “Fiquei alarmada e disse-lhe que não tinha para onde ir. Ele mandou-me ir aguardar na minha casa. Respondi-lhe que não tinha casa, então ele me mandou aguardar na rua”, pontua, realçando que saiu da sala e tentou os seus contactos até conseguir o telefone da coordenador do Serviço Social. “Esta pediu-me então para voltar ao serviço. Relatei a situação da minha família e ela respondeu de cara que não tinham formas de me ajudar porque não têm qualquer habitação disponível.”

Segundo Joceline, a alternativa apresentada foi o alojamento temporário numa escola. Entretanto, a própria responsável do Serviço Social da Câmara Municipal de São Vicente descartou esta opção, alegando que as aulas vão iniciar em breve. “Perguntei-lhe pelo Plano de Ação Social, sabendo da previsão de chuvas e a Câmara não nos poderia deixar desamparados. Ela aconselhou-me então a procurar um familiar ou vizinho para nos alojar. Disse-lhe que já estão a hospedar os meus dois filhos e que os vizinhos não são obrigados a assumir este encargo. Não posso ficar em casa de um vizinho, sendo que não temos nada, excepto a roupa do corpo. Não cabe a eles nos apoiar psicológica e materialmente, sabendo que não temos prazo para recuperar. Somos quatro pessoas da mesma família, não posso ficar em uma casa, os meus filhos em outro, e o meu companheiro num terceiro.” 

Foi então que, afirma, a responsável do Serviço Social a aconselhou a procurar uma casa para arrendar, sob responsabilidade da CMSV. “Disse-lhe logo que ninguém vai alugar uma casa para a Câmara porque demoram para pagar e, quando decidem liquidar a factura, é parcelado”, desabafa esta mulher-chefe de família, lembrando a esta que deste ontem está de pé, sem descansar, em vestir uma roupa limpa. “Disse-lhe que fizemos a nossa higiene no dia anterior nos bombeiros, mas vestimos as mesmas roupas porque não tínhamos outras para trocar. Preciso descansar a minha cabeça e o coração. Ela pediu-me então para sentar e esperar até ser chamada.”

Entrada da enxurrada

Horas mais tarde, prossegue, a responsável do Serviço Social da CMSV telefonou a convidar a família a procurar os bombeiros para almoçar. “Neguei, dizendo-lhe que preferia aguardar até uma decisão sobre o nosso alojamento. Mais tarde ela veio novamente falar comigo, insistindo novamente para procurar uma solução sozinha porque não tinham como resolver o problema da minha família. Sem opção, decidimos então ir ficar no local onde antes existia a minha casa”, informa, que neste momento não tem para onde ir. “Vamos dormir na rua ou então terei de ir, junto com o meu companheiro, aos Bombeiros Municipais”, assegura esta mulher, acrescentando que se sente abandonada pela CMSV. 

O mais caricato, diz, é que sempre fez ação social. Fez voluntariado no Centro de Acolhimento de Doentes Mentais e no Lar de Idoso, promoveu atividades de recolhe de alimentos para entregar nestes serviços da CMSV, inclusive foi nestas ações que passou a conhecer a responsável do Serviço Social da Câmara. Mantém, por outro lado, um canal na internet para ajudar as pessoas a construir as suas casas, a ir para o estrangeiro para tratamento, etc. “O triste é que agora que preciso de ajuda, ninguém me estende a mão. Somos a única família desalojada. As outras tiveram problemas – queda de parte de tetos ou de paredes de proteção -, mas continuam nas suas casas. Não estão na rua, como no nosso caso. Estamos sem casa e com a roupa do corpo.”

Devido ao avançado da hora – 16h15 mn -, não foi possível ouvir a versão da CMSV, mais precisamente do Serviço Social, pelo que prometemos retomar o assunto.

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