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Estudantes saem, de novo, à rua em S. Vicente: “Alunos na rua, Governo é culpa sua!”

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Quatro dias após uma manifestação promovida por estudantes dos Salesianos, um grupo maior de alunos de quatro estabelecimentos de ensino voltou hoje às ruas da Cidade do Mindelo para criticar o sistema de ensino em Cabo Verde.

“Alunos na rua, Governo a culpa é sua!”, gritou esta manhã a plenos pulmões um grupo expressivo de alunos do ensino secundário pelas artérias da Cidade do Mindelo e em frente à sede da Delegação Escolar, na ilha de S. Vicente. Trajados de preto em sinal de luto, centenas de estudantes do Liceu Ludjero Lima, Escola Industrial e Comercial do Mindelo, Escola Jorge Barbosa e dos Salesianos uniram forças para aumentarem a contestação ao sistema de avaliação e outras práticas que, na opinião dos mesmos, estão a afectar a qualidade do ensino em Cabo Verde. Com a energia típica da juventude, o grupo partiu da Escola Salesiana munido de dísticos e palavras de ordem em direção à Delegação Escolar, onde aumentaram o tom da manifestação.

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Este protesto segue outro realizado há 4 dias por estudantes do oitavo ano da Escola Salesiana de Artes e Ofícios, que exigiram na altura a disponibilização das notas do segundo trimestre nas disciplinas de matemática e física. Desta vez, os manifestantes decidiram exigir esclarecimentos sobre as matérias essenciais das provas de avaliação nacional, apontar os problemas relacionados com algumas disciplinas e, por arrastamento, clamar por medidas de melhoria na qualidade do ensino em Cabo Verde.

Como explica Alexandro Delgado, aluno do Liceu Ludjero Lima, a classe estudantil decidiu sair à rua para contestar o novo currículo introduzido pelo Ministério da Educação e que acaba por penalizar os estudantes. Como ilustra, foram apresentadas novas disciplinas há dois anos, como são os casos da língua espanhola e do mandarim, entretanto nunca tiveram os respectivos docentes. Além do mais, há disciplinas em que os alunos ainda não tiveram nenhum apontamento, quando já vão no terceiro trimestre, como é o caso de Literatura.

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“Entretanto, temos prova nacional em Literatura e que vale 30 por cento da avaliação. Ou seja, passamos dois anos a estudar e no final podemos ser reprovados por um teste, situação que pode definir o nosso futuro”, protesta o porta-voz dos estudantes. Aliás, Alex, como é tratado, perspectiva uma onda de reprovação se as coisas continuarem como estão. Na conversa com o Mindelinsite revelou, por exemplo, que os testes da disciplina de matemática do 9. ano, realizados nos últimos dois anos, tiveram como resultado 100% de reprovação.

Aproveitando a embalagem, Alex revela outros pontos críticos que andam a afectar a qualidade do ensino. Neste rol, enfatiza a pressão a que os alunos ficam submetidos – com seis avaliações num único trimestre por disciplina -, o estado “deplorável” dos materiais didácticos e desportivos, salas de informática com computadores com mais tempo de uso do que a idade dos estudantes, quando se está na era das novas tecnologias de informação e comunicação…

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“Há ainda outro aspecto preocupante que tem a ver com o facto de o sistema obrigar alunos do 11. e 12 ano que trabalham a estudar no período da tarde. Ficam encurralados e a única saída que encontram é o abandono escolar”, relata o jovem, lembrando que está em causa estudantes/trabalhadores que labutam para ajudar as suas famílias.

Os alunos, segundo Queila Veríssimo, não estão a negar fazer as provas.  O que estão a exigir, conforme esta estudante do Liceu Ludjero Lima, é tão-somente saber quais as matérias que devem estudar para os testes, isto tendo em conta mudanças feitas nos últimos tempos ao nível de conteúdos e de disciplinas. “Queremos apenas que nos forneçam os conteúdos essenciais porque não podemos ficar aqui a tentar adivinhar as matérias que vão sair nas provas. Corremos o risco de desperdiçar tempo e energia a estudar coisas desnecessárias”, esclarece a jovem de 18 anos. “No meu caso, por exemplo, estudei o nono ano em 2019, entretanto, a disciplina sofreu mudanças. O sistema de agora é muito diferente. Como fazer?”

Na perspectiva de Queila Veríssimo, o que os estudantes estão pedindo não é nada de outro mundo. Acrescenta que faz algum tempo que vêm solicitando esses esclarecimentos nas aulas. Informa que fizeram um encontro com a directora pedagógica e enviaram carta para a Delegação Escolar, mas que não tiveram resultados práticos. Daí decidirem promover a manifestação.

Em princípio, as provas nacionais começam em finais de junho e terminam no início de julho. O tempo, na perspectiva dos estudantes, começa a ficar escasso. Para Queila Veríssimo, os estudantes devem manter a onda de protesto porque, diz, estão a discutir os seus direitos. “Se não fizermos isto, quem irá faze-lo por nós?”

A manifestação foi preparada num grupo criado no Messenger e, segundo Alexandro Delgado, participaram fundamentalmente alunos que não tinham aulas nesse instante.

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Kimze Brito

Jornalista com 30 anos de carreira profissional, fez a sua formação básica na Agência Cabopress (antecessora da Inforpress) e começou efectivamente a trabalhar em Jornalismo no quinzenário Notícias. Foi assessor de imprensa da ex-CTT e da Enapor, integrou a redação do semanário A Semana e concluiu o Curso Superior de Jornalismo na UniCV. Sócio fundador do Mindel Insite, desempenha o cargo de director deste jornal digital desde o seu lançamento. Membro da Associação dos Fotógrafos Cabo-verdianos, leciona cursos de iniciação à fotografia digital e foi professor na UniCV em Laboratório de Fotografia e Fotojornalismo.

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