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Djê d’ Moave: Carrega o nome da empresa há 47 anos e o orgulho de um recorde difícil de quebrar

José Silva Santos, mais conhecido por Djé d’ Moave, 65 anos, trabalha há 47 na Moagem de Cabo Verde, ou seja, desde a sua construção na década de 1970. Oficialmente, já está na reforma, mas garante que só vai para casa no final deste mês de maio porque, antes, quer passar todos os seus conhecimentos acumulados nos muitos anos de serviço ao seu substituto. “Vou para casa com saudade porque a Moave é a minha família também. Sou dos primeiros trabalhadores e acredito que ninguém vai consegui o meu recorde na empresa. Mas chegou a minha hora de ir descansar e concretizar o sonho de gravar um CD”, diz.

Começou a trabalhar com 12 anos, como ajudante de pedreiro na construção da Electra. Carregava concreto das 8 às 20 horas, ora na estância, ora na padiola. “Era no tempo colonial e a vida difícil. Estudei até a terceira classe, mas gostaria de ter feito mecânica. Infelizmente, meu pai era pescador e não tinha condições e tive de trabalhar para ajudar em casa. Recebia 15 escudos por dia. Mas, como era muito dedicado, o capataz aumentou para 16, com a condição de não contar para os meus colegas, rapazes de Chã de Alecrim e Ribeira Bote. É claro que não disse para ninguém o salário semanal de 90 escudos era entregue na totalidade em casa, mas ficava com os seis escudos extras para mim”, relata. 

Era um trabalho pesado e Djê admite que era franzino. Fez bolhas nas mãos ao transportar a massa na padiola, mudou então para a estância, que era carregado na cabeça. Começou então a perder o cabelo, mas continuou porque não tinha opção. “Concluído o trabalho de cimento na Electra, fomos para o hospital. Éramos conhecidos como os meninos do engenheiro Graciano, que cuidava de nós, talvez por causa do salário baixo que recebíamos ou então porque queria mesmo nos ajudar porque na altura vivia-se na ilha de S. Vicente uma situação de penúria.”

Desemprego e desespero

Com o término desta obra, ficou desempregado e entrou em desespero. Decidiu, por iniciativa própria ir na Moave pedir trabalho. Estavam a iniciar a montagem dos estaleiros para a construção do edifício-sede da empresa. Segundo conta, recusaram contrata-lo porque era menor e franzino. Tinha 16 anos na altura, mas continuou a insistir, e desafiou o responsável, um cidadão português de nome Pedrosa a dar-lhe uma oportunidade de mostrar o seu valor, mesmo sem receber nada em troca. “Fiz esta proposta porque estava confiante. Já tinha alguma experiência em trabalho braçal. Fui colocado para trabalhar em uma britadeira, que é uma maquina de fazer cascalho que exige rapidez e eficiência. Ao meio-dia fiz uma pausa para comer um pão com doce de D. Tchicha e, quando regressei, o português informou-me que estava contratado, com o salário de um homem porque trabalhava como tal.”

Passou então a receber 24 escudos/dia. Era muito dinheiro. Depois de algum tempo a fazer cascalho foi enviado para a construção. Novamente teve de provar a sua capacidade entregando massa para vários pedreiros para poder ser contratado. Ganhou confiança do responsável, Sr. Mota, que lhe deu ainda a tarefa de pressionar o então melhor alfaiate de São Vicente, que residia em Chã de Alecrim, para costurar os seus fatos. “Quando terminamos o trabalho de construção, o engenheiro José Brigham, um dos promotores do investimento, chamou-me para dizer que infelizmente teria de me desempregar porque eu não tinha uma formação técnica para trabalhar na empresa, uma exigência dos técnicos alemães que vieram fazer a montagem das máquinas. Estava disposto a aprender e fiquei.”

De tanto carregar peso, segundo Djê, ganhou músculo e foi colocado para desempacotar as máquinas. Como não entendia alemão foi contratado um tradutor, um mergulhador chamado Hartmud, que morava em Santa Filomena. Logo de seguida foi destacado como soldador. Com dificuldade para ver as pecas, retirou a máscara para soldar e no dia seguinte não conseguia abrir os olhos. “Quando cheguei no trabalho, o engenheiro alemão desatou a rir. Depois obrigou-me a ir para casa colocar fatias de batata inglesa nos olhos até voltar ao normal. No dia seguinte já estava no meu posto de trabalho. E quando terminamos toda a montagem, então com 18 anos, o engenheiro Brigham ofereceu-me trabalho como ensacador. Penso que foi um prémio por toda a minha dedicação. E desde então estou na Moave. Já trabalhei em diversos sectores e sempre mostrei apto para apreender. Acompanhei e participei de todas as montagens, mesmo sem uma formação academia. A empresa tem tecnologia de ponta e adaptei.” 

Reforma com saudade

Ao atingir a reforma pelas normas da Previdência Social, conta, foi abordado pelos Recursos Humanos da Moave para ficar até final do ano, mas preferiu ir para casa. “Chegou a hora de ir descansar e concretizar outros projectos. São 47 anos de dedicação, sou dos primeiros trabalhadores contratados e acredito que mais ninguém vai conseguir bater o meu recorde. Trabalhei com todas as chefias, nunca tive um processo disciplinar ou acidente. Dei e recebi amizade dos meus colegas. Fiz questão de chegar antes de hora e sair depois. Vou para casa com saudades e vou estar sempre disponível para apoiar a empresa.”  

Mas Djê não vai deitar e relaxar, até porque foi sempre uma pessoa activa. Aliás, esta inquietação levou a praticar culturismo, após um convite directo do Djó Borja para fazer parte da primeira equipa de fisiculturismo de São Vicente. “Por causa, aos meus 20 anos, era bem encorpado. Djó Borja me treinava pessoalmente. Subia e descia o Fortim em alta velocidade, depois ia para o ginásio. Improvisávamos os alteres e outros equipamentos. Foi só mais tarde que Djó Borja foi adquirindo algumas barras e discos. O treino era pesado e pedia uma alimentação reforçada. Todas as semanas, oferecia uma feijoada”, lembra este nosso entrevistado, destacando os colegas Jorge Cor d’Agua, Aquiles, Jorge Paraqueda e Lobão, todos peso-pesados com mais de 100 quilos. 

Na altura, afirma, as mulheres não frequentavam os ginásio e colocavam apelidos depreciativos aos fisiculturistas: king kong, Malabar, entre outros. Djê conta que ficavam ofendidos com estes apelidos, mas hoje a situação mudou por completo e as mulheres são maioria nos ginásios, muitos delas a competir para serem fitness. “É outra geração e fazem muito bem. No meu caso, hoje já faço treinos mais leves, nomeadamente caminhadas e flexões.”

Gravar um CD

Sempre gostou de uma boa musica. Desde tempos idos frequentou o Bar Holanda e ficava com vontade de pegar o microfone para animar as pessoas, mas faltava coragem. Foi nos convívios da Moave que ganhou coragem para extravasar, infelizmente sabia uma única musica “Nha Belinha”. Foram anos a cantar esta musica. Hoje o repertório aumentou e já aspira outros concretizar o sonho de gravar o seu CD. “O meu sonho é gravar um CD e tenho recebido estimulo dos meus colegas e de amigos. Também tenho recebido convite de outras pessoas para integrar mais grupos para actuar nas noites do Mindelo. E pensamos fazer uma digressão para S. Antão este verão.” 

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