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Corrente-humana “toma” Marginal do Mindelo contra a criminalidade, a impunidade e o crescente sentimento de insegurança

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A avenida marginal do Mindelo foi tomada esta manhã por uma corrente humana sintonizada numa mensagem muito clara: basta à onda de criminalidade em S. Vicente. Centenas de pessoas munidas com cartazes e trajadas de branco deram as mãos e criaram uma extensa corda no passeio da marginal, com o intuito de obrigar as autoridades a darem uma resposta mais eficaz no combate aos roubos, furtos na via pública e residências, mas também aos motociclistas transgressores, ao tráfico e consumo de drogas.

Após concentração na praceta Don Luiz, o grupo percorreu a extensão da avenida em direção ao terminal de cabotagem, acompanhado por agentes da Polícia Nacional, que garantiram a segurança a essa manifestação pacífica. Para alguns participantes, a moldura humana soube a pouco, para outras serviu como o primeiro passo para a finalidade pretendida.

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“O motivo que nos leva a sair à rua é o crescente sentimento de insegurança que grassa a nossa ilha. Estamos num impasse, onde a Polícia captura os malfeitores e o Tribunal manda soltar. Entretanto, os crimes continuam a acontecer. Há pessoas traumatizadas porque já foram assaltadas por diversas vezes”, comenta Tchalê Figueira, para quem o retrato social actual de S. Vicente é claramente negativo, a ponto de obrigar os cidadãos a saírem à rua para serem eles a exigir a intervenção musculada das autoridades.

Para este artista, a lei precisa ser mudada e passar a punir realmente os criminosos, e não as vítimas. Esta é também a opinião de Wilma Lino, que, aliás, ostentou um cartaz, com a seguinte mensagem: “Leis!? Temos, sim. Ma pa ke?”.  Na sua opinião, é inadmissível capturarem um assaltante, cujo rosto foi visto numa câmara de videovigilância, e pouco tempo depois ser solto. Além do mais, diz, a PN tem de esperar uma autorização legal para usar as imagens.

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“Neste ínterim, já passou muito tempo e, quando as autoridades decidem agir, já não há provas do crime. Aliás, o ladrão não rouba para guardar os objectos na sua casa”, critica a jovem. Em suma, diz, todo o quadro está desenhado para beneficiar os criminosos, que acabam por se sentir impunes e mais descarados.

“Quando um bandido é finalmente preso, passa um tempinho na cadeia com direito a 3 refeições financiadas com o nosso imposto, tira uns dias de féria e regressa depois à sua actividade”, reforça Wilma Lino, acentuando que os crimes passaram a ser cometidos a qualquer hora do dia em S. Vicente, o que aumenta drasticamente o sentimento de insegurança.

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Joyce Spencer entende, também, que é preciso haver leis mais justas para os criminosos não serem libertados com tanta facilidade e sejam vistos a circular dias depois, como se tudo estivesse normal. “O povo precisa juntar forças e lutar contra esta situação. Se preciso for, pedir o reforço policial”, considera a jovem, que fez questão de frisar que a marcha não é contra a Polícia, mas sim um movimento no sentido da paz social. A seu ver, a PN tem tentado fazer o seu trabalho, mas, diz, fica difícil apontar o dedo aos agentes quando não se sabe o que se passa no interior da instituição. “O que queremos são respostas imediatas e eficazes contra o crime!”

Maiuca Gomes decidiu sair com um cartaz de cor verde com um enorme ponto de interrogação. Explica que verde é a cor da esperança e o símbolo indica que é preciso começar a interrogar muitas coisas que andam sem resposta. “Cada pessoa pode interpretar esta interrogação à sua maneira, mas todos vemos que há situações que suscitam várias perguntas, nomeadamente relacionadas com o campo da criminalidade”, frisa o jovem. Alerta, aliás, que a maioria dos crimes são cometidos por jovens, o que, a seu ver, chama atenção para o caminho que a juventude cabo-verdiana anda tomando versus as políticas direcionadas para essa camada.

Um dos fenômenos que, na perspectiva de Helton Fortes, exige mão de ferro das autoridades é o tráfico e consumo de drogas. Para ele, a onda de criminalidade está, em boa parte, associada a esse quadro. “O consumo de droga leva muitas vezes ao cometimento de crimes como furtos e roubos”, frisa Helton Fortes, que gostaria, entretanto, de ver o Governo a criar mais emprego para todos.

A convocatória da corrente-humana foi uma ótima iniciativa, na opinião de Edinho Rosário. Embora nunca tenha sofrido um assalto, realça que era sua obrigação estar presente enquanto jovem preocupado com o rumo das coisas em S. Vciente. “É nosso dever mostrar o nosso descontentamento sobre o nível de criminalidade existente. Muitas mais pessoas poderiam estar aqui a dar a cara porque precisamos estar unidos em prol de um bem comum”, frisa o jovem. Acha que a sociedade deve continuar a exigir o combate à insegurança porque ninguém pode ficar com medo de andar na rua ou que a sua residência seja assaltada enquanto está ausente.

Continuar a pressionar as autoridades

Este movimento social foi convocado por um núcleo de activistas sociais na sequência da divulgação de alguns casos de roubo, que não foram devidamente resolvidos. Um dos rostos dessa iniciativa é David Leite, colonista do jornal Mindelinsite, que se mostra profundamente insatisfeito com a actuação das autoridades.

“Queremos uma ilha-cidade tranquila, onde podemos viver na paz e os nossos visitantes possam andar sem o receio de serem agredidos ou assaltados. Penso que esta marcha é um sinal forte neste sentido, enviado sobretudo às autoridades policiais e judiciais, quiçá ao Governo”, aponta este ex-jornalista. Segundo Leite, além das pessoas presentes, centenas de outras têm sido vítima dos malfeitores, que, diz, são apanhados e soltos dois dias depois sob termo de identidade e residência. Medida que, na sua visão, acaba por incomodar a sociedade e fortalecer o sentimento de impunidade dos criminosos.

Satisfeito com a adesão à marcha, Salvador Mascarenhas acredita que a mensagem foi passada. Frisa, no entanto, que é preciso dar continuidade às ações para haver melhores resultados. “Temos um núcleo, que deve continuar a fazer pressão. A PN deu por estes dias um sinal positivo, mas esperemos que não seja algo pontual. Sabemos que há casas de consumo de crack nas zonas e que, a nosso ver, precisam ser desmanteladas”, defende o activista social, para quem o tráfico/consumo de drogas é um dos principais factores do aumento exponencial da criminalidade em S. Vicente.

Concluída esta etapa, o próximo passo, segundo Salvador Mascarenhas, é solicitar um encontro com a Polícia e, se possível, com o Ministério da Adminstração Interna, para dar continuidade às medidas de enfrentamento da criminalidade na ilha do Porto Grande.

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Kimze Brito

Jornalista com 30 anos de carreira profissional, fez a sua formação básica na Agência Cabopress (antecessora da Inforpress) e começou efectivamente a trabalhar em Jornalismo no quinzenário Notícias. Foi assessor de imprensa da ex-CTT e da Enapor, integrou a redação do semanário A Semana e concluiu o Curso Superior de Jornalismo na UniCV. Sócio fundador do Mindel Insite, desempenha o cargo de director deste jornal digital desde o seu lançamento. Membro da Associação dos Fotógrafos Cabo-verdianos, leciona cursos de iniciação à fotografia digital e foi professor na UniCV em Laboratório de Fotografia e Fotojornalismo.

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