Nelson Faria
Tenho acompanhado, com abertura e genuíno interesse, o debate em torno da alegada partidarização do Carnaval de São Vicente. Há quem queira reduzir a escusa de alguns grupos a uma questão de cores partidárias, como se essa fosse a razão exclusiva e óbvia para a decisão de não participar sem sequer terem registado o que os grupos disseram. É mais fácil julgar a conveniência, claro. Importa, desde já, estabelecer uma distinção que me parece fundamental e que teima em ser ignorada, partidarização não se confunde com politização.
A politização diz respeito a tudo o que é público e que convoca a intervenção dos poderes instituídos. O Carnaval, sendo parte indissociável da cultura e do povo, é, por natureza, politizado. E é salutar que assim seja. A vida em comunidade, a alocação de recursos, o apoio institucional à cultura, tudo isso é política, no seu sentido mais nobre e amplo. Partidarizado, esse sim, é o excesso. É o esforço de alguns para colocar o acontecimento ao serviço de agendas que lhe são, ou não, estranhas. Já dizia o outro, o das Ribeiras, que tudo é política. Entretanto, nem tudo são partidos. Nisso acredito firmemente.
A minha opinião sobre o evento deste ano já foi expressa e mantém-se, refletida no artigo que partilhei. Bem haja ao Carnaval, bem haja quem participa e bem haja quem, por razões legítimas, opta por não o fazer. Esta pluralidade é a prova de que o Carnaval está vivo.
Todavia, parece-me descabida a superficialidade de certos posicionamentos que tenho assistido. Pessoas, algumas até bem informadas, insistem na tese simplista de que a decisão de diversos grupos não saírem à rua teria saído “da cabeça de uma única pessoa”. Permitam-me a pergunta: que poder teria, essa figura, para tamanha influência? Estamos a falar de grupos de Carnaval, que são, na sua essência, associações de pessoas. Têm direções eleitas, assembleias-gerais, estatutos e processos deliberativos. Acham, sinceramente, que uma decisão desta magnitude, que envolve dezenas ou centenas de pessoas por agremiação, foi um ato solitário e autoritário? Não estarão a subestimar a capacidade de pensamento crítico de cada membro e a reduzir a complexidade democrática interna destas instituições?
Mais grave ainda é a insinuação, tantas vezes velada, de que quem não desfila não gosta do Carnaval. É um raciocínio tão primário quanto injusto. Não estarão esses grupos, pelo contrário, numa luta que consideram justa precisamente pela elevação deste mesmo Carnaval? Acreditar que o evento pode caminhar para um patamar superior e não se acomodar na lógica do “tudo é bada” não é um ato de ódio, é um ato de amor exigente.
Estes grupos têm, durante décadas, produzido um espetáculo de milhões, muitas vezes com tostões, a custa de sacrifícios pessoais imensos, suportados por trabalho voluntário e amor à camisola. E, no final, que retorno veem? Claro que muita gente ganha dinheiro com o Carnaval. É salutar que exista esta via de rendimento e que a economia em volta da festa gire. Mas não poderiam, exatamente os mesmos que fazem o chão tremer na Rua de Lisboa, vir a ganhar mais e melhor com o evento?
Um estudo sério, isento e credível, ajudaria a clarificar, de uma vez por todas, quem ganha, quanto ganha e por onde circulam os proventos. Identificaria os equilíbrios necessários para que aqueles que mais fazem e menos recebem possam elevar as condições de confecção da sua arte, a qualidade do palco onde a expõem e a justa remuneração pela obra feita.
Com isto, não pretendo insinuar que os grupos que saem são aproveitadores. Longe de mim. Muitos saem por puro amor ao Carnaval e por quererem dar continuidade ao desenvolvimento das suas agremiações. Com melhores condições financeiras, melhor ainda. A questão que lanço, com honestidade, é: e depois? Quando o desfile oficial terminar e a euforia passar, aqueles que hoje optaram por participar irão novamente reclamar das condições que sempre denunciaram? Ou, pelo contrário, a decisão de não sair terá aberto uma porta para uma negociação estrutural, evitando que o evento se acomode num patamar onde a própria evolução estagna e o retrocesso se torna inevitável?
Para aqueles que pensam que as decisões no Carnaval são tarefas fáceis, solitárias ou movidas por caprichos pessoais, o meu convite é simples, experimentem. Façam. Enfrentem a pressão de dirigir uma associação cultural, gerir vontades, produzir fantasias e coreografias. Depois, e só depois, opinem com a propriedade que só quem faz tem. Só assim se evita o julgamento fácil de quem nunca suou dentro de um pavilhão ou perdeu noites para que o povo tivesse o espetáculo que merece.
O Carnaval está na alma deste povo. E é por estar tão fundo na alma que, por vezes, é preciso dar um passo atrás para que ele possa, finalmente, dar dois passos em frente. Mas, que persista, que resita e que faça este povo feliz com a alma lavada.







