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Voos cheios, valores escondidos: o paradoxo do turismo

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Adolfo Lopes

1. Plano de voo

Antes de qualquer voo seguro, há sempre um checklist: instrumentos verificados, rota definida, combustível calculado. Os sucessivos governos da república desde a independência, cada um à sua maneira, tentaram criar as condições para o desenvolvimento do turismo, mas com as VI e VII Legislaturas, no quadro da Agenda de Transformação do Governo liderado por José Maria Neves, corresponderam à fase decisiva de alinhamento na pista.

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Investimentos estruturantes em aeroportos, portos, estradas, saúde e mobilidade criaram as condições técnicas para a colagem do setor. A aeronave ganhou velocidade e levantou voo. O turismo descolou e passou a ocupar o centro do painel económico nacional. Contudo, como nem todas as pistas têm o mesmo comprimento, os efeitos dessa ascensão não se distribuíram de forma homogénea. Algumas ilhas tiveram perdas de mais de metade da sua população desde 1975.[1] O desafio que hoje se impõe é claro: garantir que todos os territórios tenham acesso à mesma pista de desenvolvimento para que a descolagem seja, de facto, coletiva e inclusiva.

2. A descolagem

Com os motores estabilizados, a aeronave deixa o solo. Os números confirmam o arranque. Segundo o National Bureau of Statistics das Seychelles, até a Semana 42 de 2025, o arquipélago registou 308.854 visitantes, um crescimento de cerca de 12% face ao mesmo período de 2024. Um fluxo relativamente contido, mas altamente eficiente, sustentado por uma estratégia centrada na qualidade da experiência e no elevado gasto médio do visitante.[2]

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Nas nossas ilhas da morabeza, o cenário é distinto. No primeiro trimestre de 2025, os estabelecimentos hoteleiros em Cabo Verde acolheram 325.135 visitantes, um aumento de 7,2% em relação ao período homólogo de 2024. O total de dormidas atingiu 1.657.403, traduzindo-se numa variação positiva de 8,8%.[3] Há, por vezes, um certo puxa-puxa estatístico em torno destes números, uma disputa de altitudes que não nos interessa alimentar. Porque o essencial não está apenas na velocidade da colagem, mas na eficiência do voo que se segue.

3. Em altitude de cruzeiro

Depois da descolagem, a aeronave entra em cruzeiro. É o momento da estabilidade, da leitura fina dos instrumentos, da experiência plena. Em 2024, Cabo Verde registou receitas turísticas na ordem dos 62,74 mil milhões de escudos cabo-verdianos (cerca de 658 milhões de dólares). Em termos médios, cada grupo de 10 turistas contribuiu com aproximadamente 639.360 escudos, ou cerca de 6.710 dólares, para a economia nacional[4].

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Nas Seychelles, com 308.854 visitantes até à Semana 42 de 2025, as receitas atingiram 803 milhões de dólares (cerca de 85 mil milhões de escudos). Traduzido em termos operacionais, cada grupo de 10 visitantes gerou aproximadamente 2.750.910 escudos, ou cerca de 26.000 dólares, quatro vezes mais do que em Cabo Verde.[5] Os dados são claros como um céu limpo: Cabo Verde recebe mais visitantes, mas transporta menos valor por passageiro. O verdadeiro desafio não está em aumentar o tráfego aéreo, mas em elevar o rendimento por assento ocupado.

4. Hora de aterrar

A aeronave toca a pista. O voo termina, inicia-se a avaliação. No turismo, o pouso é o momento de medir impacto, receita e legado. As Seychelles demonstram que menos passageiros podem significar mais valor, mais sustentabilidade e maior controlo do destino. Cabe-nos decidir que tipo de voo queremos operar: um trajeto rápido, alto e vazio de benefícios duradouros, ou um percurso seguro, transformador e ancorado no bem-estar das comunidades.

O sucesso não reside apenas em receber visitantes. É fundamental evitar a inflação do custo de vida dos residentes na habitação, nos transportes ou na qualidade do quotidiano. Como ensinou Amílcar Cabral, um dos filhos mais lúcidos destas ilhas:

Aprender na vida, aprender junto do nosso povo, aprender nos livros e na experiência dos outros. Aprender sempre.”

Aprender, sobretudo, com experiências menos felizes de destinos como Lisboa, Barcelona ou Palma de Maiorca, onde um turismo mal estruturado fez disparar o custo de vida e corroeu a vivência local.

O turismo ético é aquele que não se limita a sobrevoar estatísticas: é o que aterra com cuidado, respeita o território e deixa benefícios sólidos no solo que pisa.


[1] Radio France Internationale. (2024, 2 setembro). Cabo Verde: Diagnóstico social da Brava põe à nu vulnerabilidades da ilha. RFI. https://www.rfi.fr/pt/áfrica-lusófona/20240902-cabo-verde-diagnóstico-social-da-brava-põe-à-nu-vulnerabilidades-da-ilha consultado em 29/01/2026.

[2] African Travel & Tourism Association. (2025, 24 outubro). Seychelles on track to beat 2019 arrivals as year-to-date visitors rise 12%. ATTA. https://atta.travel/resource/seychelles-on-track-to-beat-2019-arrivals-as-year-to-date-visitors-rise-12.html?utm_ consultado em 29/01/2026.

[3] Expresso das Ilhas. (2025, 11 de julho). Cabo Verde regista aumento de turistas no 1.º trimestre de 2025. Expresso das Ilhas.https://expressodasilhas.cv/economia/2025/07/11/cabo-verde-regista-aumento-de-turistas-no-1-trimestre-de-2025/97945 consultado em 30/01/2026

[4] Banco de Cabo Verde. (2025). Relatório do Estado da Economia 2024. Banco de Cabo Verde. https://www.bcv.cv/SiteCollectionDocuments/2025/REE%202024-pub%202.pdf consultado em 29/01/2026.

[5] African Travel & Tourism Association. (2025, 24 outubro). Seychelles on track to beat 2019 arrivals as year-to-date visitors rise 12%. ATTA. https://atta.travel/resource/seychelles-on-track-to-beat-2019-arrivals-as-year-to-date-visitors-rise-12.html?utm_ consultado em 29/01/2026.

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Kimze Brito

Jornalista com 30 anos de carreira profissional, fez a sua formação básica na Agência Cabopress (antecessora da Inforpress) e começou efectivamente a trabalhar em Jornalismo no quinzenário Notícias. Foi assessor de imprensa da ex-CTT e da Enapor, integrou a redação do semanário A Semana e concluiu o Curso Superior de Jornalismo na UniCV. Sócio fundador do Mindel Insite, desempenha o cargo de director deste jornal digital desde o seu lançamento. Membro da Associação dos Fotógrafos Cabo-verdianos, leciona cursos de iniciação à fotografia digital e foi professor na UniCV em Laboratório de Fotografia e Fotojornalismo.

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