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Uma reflexão sobre a nova identidade visual do Governo de Cabo Verde

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Lígia Spencer

O debate que tem surgido nos últimos dias em torno da nova identidade visual do Governo de Cabo Verde levou-me a querer partilhar algumas reflexões sobre o tema. Embora não seja escritora nem jornalista, tenho formação nesta área e dedico parte da minha atividade profissional ao seu estudo e ensino.

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É, por isso, com base no conhecimento adquirido e na experiência de quem trabalha e ensina estas matérias que gostaria de dar o meu contributo a esta discussão, numa perspetiva construtiva, procurando acrescentar uma visão técnica e contribuir para uma reflexão mais ampla sobre a nossa identidade institucional.

A nova identidade visual do Governo de Cabo Verde merece uma reflexão que vai além de gostarmos ou não do seu desenho. À primeira vista, é uma imagem alegre, colorida e cheia de referências à nossa cultura. Percebe-se a intenção de criar algo moderno, diferente e com elementos que nos identificam enquanto cabo-verdianos, mas há uma questão que não podemos ignorar, estamos a falar da imagem de um Governo, e não de uma campanha turística, de um festival ou de uma marca comercial. E isso faz toda a diferença.

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Quando falamos da identidade visual de um Governo, falamos também de credibilidade, confiança e da forma como as nossas instituições se apresentam, tanto aos cidadãos como ao resto do mundo. É aqui que surge a principal dúvida:

– Se Cabo Verde já tem os seus símbolos nacionais, uma marca turística e uma identidade institucional, qual é a necessidade de criar mais uma imagem que pode ser confundida com a do próprio país?

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Criatividade não falta, mas será que tanta informação ajuda?

O primeiro elemento que chama a atenção na nova imagem é a quantidade de cores, formas e símbolos utilizados nas letras de “CABO VERDE”. Encontramos referências à bandeira, às estrelas e a outros elementos que procuram mostrar a diversidade e a riqueza cultural do país. A ideia é interessante, pois temos uma identidade rica, que merece ser valorizada. O problema é que nem sempre mais cores e mais símbolos significam uma comunicação melhor.

Neste caso, há tanta informação dentro das letras que, por vezes, acabamos por prestar mais atenção aos desenhos do que às próprias palavras. Uma boa identidade visual deve ajudar-nos a reconhecer e a identificar uma instituição de forma rápida e clara.

Há também uma questão prática, numa imagem grande, publicada nas redes sociais ou num cartaz, o desenho pode ter impacto, mas como ficará numa folha A4, numa assinatura de email, num cartão de visita ou numa impressão a preto e branco? Continuará fácil de ler? Todos aqueles detalhes continuarão a fazer sentido? São perguntas importantes, porque uma identidade institucional precisa de funcionar em diferentes formatos e situações. Ser simples não é ser menos criativo, muitas das marcas mais fortes que conhecemos são precisamente aquelas que conseguem transmitir muito com poucos elementos.

Outro aspeto que merece atenção é a mensagem transmitida. Pelas cores, formas e composição, a nova imagem faz lembrar uma campanha de promoção turística, um evento cultural ou uma celebração nacional. É uma imagem viva, descontraída e cheia de energia, e não há nada de errado nisso. Aliás, estas características podem funcionar muito bem quando queremos promover Cabo Verde como destino turístico ou mostrar a nossa cultura ao mundo. Mas será essa a imagem mais adequada para representar oficialmente o Governo?

Um Governo deve ser próximo das pessoas, mas também precisa de transmitir seriedade, estabilidade e confiança. A sua identidade visual pode surgir tanto numa campanha dirigida aos jovens como num documento oficial, numa reunião diplomática ou na assinatura de um acordo internacional. Por isso, tenho a sensação de que estamos mais próximos de uma marca promocional do que de uma identidade governamental.

O Governo é uma coisa. Cabo Verde é outra. Para mim, este é o ponto mais importante de toda esta discussão. Há três realidades que devemos distinguir e que são as seguintes:

Cabo Verde é o nosso país, a nossa história, cultura, identidade e tudo aquilo que nos une enquanto povo; O Estado de Cabo Verde é a estrutura permanente que representa a República e garante o funcionamento das instituições; O Governo de Cabo Verde é o órgão que conduz a política do país durante um determinado período. Os governos mudam. O país continua. Parece uma distinção simples, mas é fundamental quando falamos de identidade visual.

Na nova imagem, a expressão “GOVERNO DE” aparece pequena e discreta, enquanto “CABO VERDE” ocupa praticamente todo o espaço e concentra a atenção. O resultado é que, ao olhar para a imagem, podemos facilmente ficar com a impressão de que estamos perante uma nova marca de Cabo Verde, e não apenas uma nova identidade gráfica do Governo.

É precisamente aqui que reside a minha principal preocupação. O Governo pode e deve modernizar a sua comunicação sempre que isso fizer sentido, mas modernizar a imagem do Governo não é o mesmo que criar uma nova imagem para o país. Cabo Verde já tem uma identidade. Precisamos de mais uma?

Cabo Verde não está a começar do zero nesta matéria. Temos os nossos símbolos nacionais, definidos na Constituição, como a Bandeira, o Hino e as Armas da República. Temos também uma marca turística oficial, aprovada em 2024 e criada para promover o país enquanto destino turístico. O próprio Governo já dispunha de normas de identidade visual para organizar e uniformizar a comunicação dos ministérios e serviços públicos. É verdade que uma marca turística e uma identidade governamental têm funções diferentes. Não precisam de ser iguais, mas isso não significa que devam ser desenvolvidas sem uma ligação clara entre si.

Quando diferentes instituições públicas criam as suas próprias marcas, recorrendo às mesmas cores, símbolos e referências nacionais, podemos acabar com várias imagens de Cabo Verde a circular ao mesmo tempo. Em vez de reforçarmos a nossa identidade, corremos o risco de a tornar menos clara. Uma marca forte não se constrói de um dia para o outro, precisa de tempo, consistência e continuidade.

Por isso, antes de avançarmos com uma nova identidade, faria sentido esclarecer algumas questões:

• O que estava errado ou não funcionava na imagem anterior?

• Que problema concreto pretendemos resolver com esta mudança?

• Como se vai relacionar esta identidade com a marca turística e com os símbolos nacionais?

• Existem regras claras para a sua utilização?

• E, acima de tudo, que benefícios traz esta mudança para a imagem de Cabo Verde?

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Não faço estas perguntas para desvalorizar o trabalho criativo de quem desenvolveu a proposta. Faço-as porque uma decisão desta natureza deve ter uma razão estratégica, para além da vontade de apresentar algo novo.

Há outro ponto que considero especialmente importante, a representação internacional do país. Quando um ministro participa numa conferência internacional, quando o Primeiro-Ministro se reúne com investidores ou quando uma delegação assina um acordo com outro país, não está apenas a representar o Governo que está em funções. Está também a representar Cabo Verde, e a forma como nos apresentamos ao mundo conta. Uma identidade visual clara e consistente ajuda a transmitir organização, profissionalismo e confiança.

Agora imaginemos que, sempre que muda o Governo, Cabo Verde passa a apresentar-se com novas cores, novos desenhos e uma nova imagem institucional. Que reconhecimento estamos a construir ao longo dos anos? Como garantimos que os nossos parceiros internacionais identificam o país de forma clara e consistente? Não estou a defender que todos os governos tenham de comunicar da mesma maneira ou utilizar exatamente os mesmos materiais. É natural que existam mudanças, novas campanhas e diferentes formas de chegar aos cidadãos, mas deve existir uma base institucional que permaneça, independentemente de quem esteja no poder. Uma coisa é identificar o Governo que está a comunicar. Outra, bem diferente, é mudar a forma como o país é apresentado e reconhecido.

Há ainda uma questão que merece cuidado, a identidade visual de um Governo deve representar uma instituição que serve todos os cidadãos, independentemente das suas escolhas ou preferências políticas. Por isso, é importante que transmita neutralidade. Não vejo na nova imagem elementos que permitam afirmar que se trata de uma marca partidária. Seria injusto tirar essa conclusão apenas com base no desenho, mas existe um risco que vale a pena discutir.

Quando uma nova identidade surge associada a determinado Governo e coloca o nome e os símbolos do país em grande destaque, pode tornar-se difícil separar a imagem institucional da imagem daquele ciclo político. Essa confusão não é desejável. A identidade das instituições deve estar acima dos partidos e dos mandatos. O que poderia ter sido feito de outra forma?

Na minha opinião, o ponto de partida deveria ser uma reflexão mais ampla sobre a identidade visual de Cabo Verde. Antes de criar uma nova marca, seria importante definir como devem relacionar-se os símbolos nacionais, a identidade do Estado, a comunicação do Governo e as marcas utilizadas para promover o turismo, a cultura e a economia. Cada uma tem o seu papel, mas todas representam, de alguma forma, o mesmo país e devem contribuir para uma imagem coerente. Com essa orientação, seria perfeitamente possível desenvolver uma identidade governamental moderna, próxima e criativa, sem criar dúvidas sobre aquilo que representa.

Quanto ao lettering apresentado, acredito que poderia ganhar bastante com algumas alterações, menos elementos decorativos, letras mais simples, melhor leitura e maior destaque à expressão “Governo de Cabo Verde” enquanto identificação institucional. A criatividade não teria de desaparecer. Pelo contrário, poderia ser utilizada de forma mais equilibrada, valorizando a nossa cultura sem comprometer a clareza da mensagem.

Também seria importante assegurar a existência de regras de aplicação, adaptações a diferentes suportes e critérios que garantam uma utilização mais consistente em documentos, edifícios públicos, viaturas, fardamentos e comunicações oficiais. O objetivo não deve ser apenas apresentar algo diferente, mas melhorar a forma como comunicamos e reforçar o reconhecimento das nossas instituições.

Mas afinal, precisamos de uma nova marca ou de uma identidade mais forte?

A nova imagem do Governo de Cabo Verde revela criatividade e uma intenção positiva de valorizar a nossa identidade cultural. Isso merece ser reconhecido, mas também levanta dúvidas que não devemos ignorar. Visualmente, é demasiado carregada, com muitas cores e elementos que podem dificultar a leitura e limitar a sua utilização. Enquanto imagem institucional, aproxima-se mais de uma marca de promoção do que de uma assinatura governamental. E, acima de tudo, deixa no ar uma questão que considero essencial, estaremos a criar uma identidade para o Governo ou mais uma marca para Cabo Verde?

Não se trata de ser contra a mudança, a modernidade ou a inovação. Trata-se de perceber que a identidade de um país não é algo que se constrói ou altera a cada novo ciclo político. É um património de todos, que se vai consolidando ao longo do tempo. Cabo Verde precisa de uma imagem forte, coerente e reconhecível, dentro e fora das nossas fronteiras, que transmita confiança, estabilidade e orgulho nacional.

Por isso, mais do que discutir se a nova imagem é bonita ou feia, penso que devemos perguntar se esta mudança ajuda realmente a fortalecer a identidade de Cabo Verde ou se vem apenas acrescentar mais uma marca às que já existem. É essa a discussão que vale a pena ter, porque, no fim de contas, Cabo Verde é maior do que qualquer Governo, e a imagem do país deve refletir isso

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Kimze Brito

Jornalista com 30 anos de carreira profissional, fez a sua formação básica na Agência Cabopress (antecessora da Inforpress) e começou efectivamente a trabalhar em Jornalismo no quinzenário Notícias. Foi assessor de imprensa da ex-CTT e da Enapor, integrou a redação do semanário A Semana e concluiu o Curso Superior de Jornalismo na UniCV. Sócio fundador do Mindel Insite, desempenha o cargo de director deste jornal digital desde o seu lançamento. Membro da Associação dos Fotógrafos Cabo-verdianos, leciona cursos de iniciação à fotografia digital e foi professor na UniCV em Laboratório de Fotografia e Fotojornalismo.

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