Opinião

Trilhos sem futuro

Por Helder Araújo

Embora ocasionalmente correta, a ideia do regresso à estaca zero encerra muitas vezes uma visão distorcida e pouco construtiva do país e do mundo, outras vezes o simples objetivo de acobertar propósitos perversos, sem qualquer pretensão genuinamente transformadora e progressista. 

A proposta de remoção de todas as estátuas da era colonial, quadra-se no contexto da visão pouco construtiva e, por isso, não é de aceitar-se. 

Face a tamanha generalização, é imperativo contrapor-se que a liberdade de ação e pensamento que pode inclusivamente conduzir à rebelião contra o “status quo”, não exclui nem contradiz o princípio de que todo o homem vive dentro de uma ordem social histórica que o molda e condiciona. 

Os portugueses e cabo-verdianos inseridos na ordem social colonial, entre eles os nossos ascendentes, não são por isso desmerecedores do nosso crédito e respeito, nem podem ser necessariamente capitulados de menos progressistas do que aqueles que hoje se inserem na ordem social democrática, pese embora a enorme evolução que a transição de uma ordem para a outra representa. 

Neste entrecruzar de épocas, ordens, comportamentos sociais e seus protagonistas, como assumir à priori que naqueles longínquos anos do século XV, Diogo Gomes terá sido necessária e inquestionavelmente um homem de má índole, mesmo sabendo que faz parte da nossa História porque simplesmente descobriu Cabo Verde, e ainda porque, numa miscigenação de raças e culturas, também dele, ou de pessoas como ele, somos simplesmente descendentes?! 

Convindo certamente evitar sucessivos escrutínios valorativos sobre matérias dessa natureza, mormente quando a independência já vai longe e consolidada, e o momento não é de revoluções, a proposta poderia no entanto ser aceitável caso se cingisse a pessoas comprovadamente retrógradas para a sua época, aquelas cujas ações não devem de todo ser inculcadas, embora também não devam pura e simplesmente ser apagadas. 

Coisa semelhante, não igual, se pode dizer de muitas das instituições que, com maiores ou menores transformações, transitaram do período colonial. 

A talhe de foice, os títulos arrecadados pelo Cube Sportivo Mindelense antes da independência, são em tudo idênticos aos arrecadados depois da independência, precisamente porque todos eles fazem e constroem, por igual, a instituição prenhe de muita cabo-verdianidade que é o Mindelense. 

Num sentido mais construtivo, exaltemos aqueles que se destacaram, ou se destacam em pró do país, desde que o façamos com critério e sentido de medida, e não com a arbitrariedade e o propósito escuso dos nossos decisores. 

Essa espécie de regresso à estaca zero, que parece ser pouco construtiva no caso das estátuas, afigura-se destrutiva e perversa noutros casos. 

Louvo-me naqueles que se dizem contra o radicalismo na política, seja ele de esquerda ou de direita, mas não abandono a convicção de que em qualquer época e em qualquer sociedade, a relevância do Estado radica antes de mais na decência, na seriedade e no firme propósito de servir o bem comum. 

Ora, cada vez que um governo toma posse, somos assolados por uma feroz negação de pessoas, instituições e tudo o que elas representam em termos de propósito nacional, pouco importando os saberes e experiências sedimentados, o reconhecimento e o aproveitamento de competências individuais, o aperfeiçoamento na prestação do serviço público, ou mesmo o respeito pelo escopo legal da instituição; numa palavra, “tude ê bada”, pouco importando que no final de contas se tenha somado o que se podia e devia, ou se tenha mesmo distraído muita coisa. 

O interesse coletivo cede perante o princípio da subsistência no poder que tudo penetra e tudo comanda, numa espécie de procissão acorrentada em que todo aquele que vem atrás tem sobretudo o dever de subserviência ao que vem à frente, sendo-lhe em boa medida dispensados quaisquer outros requisitos éticos ou profissionais. 

Ainda há tempos, referia-se um diplomata à situação de completo desaproveitamento em que se encontrava um colega seu, pessoa de inegável préstimo e experiência profissional. 

Complemento a observação com o irrefragável asserto de que esta é uma pratica generalizada que vem fazendo carreira na administração cabo-verdiana, deixando para trás um rasto de indeléveis danos. 

Pelo ardil da estaca zero, afinal não se muda o que há de mais nocivo, mantendo-se vivos os alicerces propícios aos mais maléficos trilhos, entre eles a própria corrupção. 

Pedra sobre pedra, continua-se imparávelmente a construir um desmarcado centralismo cujos resultados altamente nefastos se escancaram à vista de todos, enquanto que, paralelamente, numa espécie de ilusionismo barato face à crescente indignação de muitos, retomam-se estudos e conferências sobre o tema, ou adotam-se programas de governo descentralizadores que, adrede, são trilhos para manter o “status quo”. 

Enquanto noutros lados se prioriza vigorosamente a convergência e a coesão social, aqui assentamos obstinadamente a divergência e a fratura social! 

Amanhã, teremos de nos perguntar se o povo de Cabo Verde, de Santo Antão à Brava, é propenso ao bairrismo violento e à marginalidade, ou se os trilhos do poder exercido por uma classe média muito pouco comprometida não serão os verdadeiros responsáveis pelo estado da Nação. 

Os sinais, esses aí estão! 

Nunca é demais dizer que a ação de cada ser humano, tem necessariamente de ser avaliada dentro da ordem social a que pertence. 

No limite, não deixa de ser pertinente questionar quem é mais progressista, se aquele que na sua época tratou com comiseração e sentido de futuro os seus escravos, ou aquele que hoje persiste na manutenção de uma administração pública como a que temos, ou mesmo no aprofundamento de um centralismo que marginaliza amplas parcelas do território nacional e trava as possibilidades de desenvolvimento do país. 

Nesta altura do campeonato, parece pois muito mais instante e avisado cuidar dos vivos e deixar que os mortos repousem em paz. 

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