Opinião

Sodade des nha terra S. Nicolau: O jogo do destino

“É incrível como as circunstâncias da vida transformam o nosso projeto de vida. O meu destino mudou e tive que me adaptar. Aconteceu o seguinte: a família onde trabalhava em Milão, tinha uma casa também em Trentino, uma região de Itália que faz fronteira com Áustria, onde passavam algum tempo durante o ano. Lá não havia ninguém de Cabo Verde. Ao menos nunca tinha visto.”

Por: Maria de Lourdes Jesus

“É incrível como as circunstâncias da vida transformam o nosso projeto de vida. O meu destino mudou e tive que me adaptar. Aconteceu o seguinte: a família onde trabalhava em Milão, tinha uma casa também em Trentino, uma região de Itália que faz fronteira com Áustria, onde passavam algum tempo durante o ano. Lá não havia ninguém de Cabo Verde. Ao menos nunca tinha visto.

Conheci um jovem italiano que trabalhava numa pizzaria que começou a gostar de mim até a gente começar a namorar e eu a ficar grávida. Casei-me  logo com ele em 1984 e fiquei a viver nesta região. Temos 4 filhos. Três rapazes e uma menina, mas o nosso casamento terminou e foi melhor assim. Os meus filhos já estão todos bem colocados e cada um na sua casa e com filhos. Já tenho 4 netos e mais um quase a chegar.

O meu trabalho é cuidar de uma senhora bastante idosa, de segunda a sexta e  todos os fins de semana, volto para minha casa.  

São os filhos e não o casamento que me levou a revolucionar o meu projecto migratório. Os filhos ocupam o primeiro lugar no coração e na vida de uma mãe. Tudo é subordinado às exigências dos filhos. Os filhos são para sempre.

A minha vida em Civezzano – Trentino

Já sabia falar italiano mas não sabia ler e nem escrever. A minha vizinha, que era uma amiga e de profissão professora da escola primária, foi a minha professora de italiano. Seguia o programa da escola e no fim do ano fiz o exame e fiquei aprovada. No ano seguinte fui-me inscrever na escola média para adultos e consegui obter o diploma de escola obrigatória. Foi uma grande conquista para mim.

É difícil descrever a minha vida numa cidade como o Civezzano. Vivi sempre acompanhada de muita saudade da minha ilha e dos meus familiares, mas a educação de 4 filhos num país estrangeiro não é coisa de brincadeira. Não tens tempo para mais nada e nem o que tens chega. Um dos episódios que me deixou marcas profundas, foi ver o efeito da discriminação e o racismo na face dos meus filhos quando voltavam da escola, vitimas dos colegas. Chamavam-lhes preto troçavam com eles e chegavam em casa com sinais de violência. Sofreram muito e já nem queriam ir à escola.

Tive que lutar muito na escola (com o meu marido) para que os meus filhos pudessem ser respeitados e aceitos pela cor da pele. Eles choravam porque não queriam ir à escola para evitar os insultos racistas. Eu e o meu marido decidimos enviar uma carta ao Papa para denunciar essa vergonha. O padre da nossa Paróquia recebeu uma reclamação e foi logo ter connosco mas para nos disciplinar porque não deveríamos ter enviado essa carta ao Papa. Não conseguimos resolver o problema mas a situação melhorou graças aos vários encontros com a professora e com os pais nas reuniões periódicas.

Outro aspecto da minha vida em Trentino era passar dias e anos sem ver uma pessoa de Cabo Verde, sem poder falar criol com ninguém e ter que viver com ataques de saudades sem fim. As minhas amigas voltaram definitivamente para S. Nicolau e a minha única consolação eram os meus filhos, a minha pregação e a minha profunda fé em Deus.

Felizmente, depois de seis anos em Itália, fui de férias pela primeira vez para S. Nicolau. Posso dizer que desde que os meus filhos tornaram-se independentes, vou todos os anos, excepto durante os anos de Covid-19.

Regresso a Cabo Verde

O meu projecto inicial era o mesmo de todos nós que deixamos a nossa Terra à procura duma vida melhor no estrangeiro. Pensava de trabalhar durante alguns anos, economizar o suficiente para construir a minha casa e depois voltar à minha ilha e ali realizar a minha vida com família e filhos. Nada disso aconteceu, mas uma coisa é certa: daqui a seis anos vou entrar na idade de reforma e finalmente posso realizar o meu novo projecto de vida: viver entre os meus familiares em Trentino e S. Nicolau. “

Assim seja.  

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