Pub.
Opinião
Tendência

Sodad d´Soncent quando um ba…

Pub.

Nelson Faria

Apesar deste corpo aparentar saúde, carrego dentro de mim a verdade sôfrega de que ele é um elemento vivo, a caminho da partida. Sei que “quadro pode dspara” a qualquer hora, pois, “gent novo também tá morrê”, quanto mais com tanta coisa que temos de colocar por dentro. Os nossos fios e fusíveis internos, muitas vezes, fogem ao nosso controlo. Por ora, que se mantenham controlados…

Publicidade

Hoje, num dos meus prazeres, ao ouvir a morna do Djoya, “Perfume e Criola”, embalei-me. Deixei que as minhas lágrimas tímidas e solitárias, que insistiam em ficar na ponta dos olhos, tomassem conta de mim. E dei por mim a pensar, e se fosse hoje? Qual seria o meu sentimento na partida, se fosse agora? E, sobretudo, do que sentiria saudades em São Vicente?

Os meus próximos sabem que lido relativamente bem com a morte. Inclusive, já aceitei o meu tempo finito, desejando apenas que seja o mais longínquo possível. Com eles, se existirem outras dimensões, tenho a certeza de que vou ter com eles… eles depois de mim. Sabem o que significam para mim, quer os que cá estão, quer os que estão em terra longe. Sabem, apesar da minha maneira recatada de demonstrar certos sentimentos, um defeito de fábrica, “um cres tcheu”. A todos vós, a todos os meus, o meu amor incondicional, nesta ou em outra dimensão.

Publicidade

Todavia, declaro, desde já, que partir será sempre contra o meu querer. Portanto, reclamador como sou, entregarei o meu protesto formal ao dono deste mundo quando o conhecer, se o conhecer. Dizia eu… sentiria saudade de tanta gente e tanta coisa, que este dedilhar de texto certamente deixará de fora muito do que amo e que agora não me ocorre.

Apesar de saudosista da vida que escolhi viver neste paraíso, e vivo, com tudo o que acarreta, o “sab e margose”, o “doce e salgod”, porque é facto, “ora tá corre pa riba, ora tá corre pra bosh, c’tud torment c’no tá passa”, as minhas saudades infinitas farão com que eu queira regressar, certamente. Com uma nova missão, se calhar.

Publicidade

Saudades do cheiro do mar, do mar, da azáfama da vida portuária. Saudades de um “cavala fresk frito k melodia”. Saudade de um “cold d’pexe k virdura de Sintantom”. Saudade de catchupa guisod. Saudades da nossa musica. Saudades do Monte Cara e do seu pôr do sol que acalma a alma. Saudades das entradas de Soncent por mar, do Porto, da avenida marginal, da curva do Lazareto que anuncia a Cidade. Saudades do futebol de Soncet e do eterno campeão Mindelense. Saudades das praias, das ruas, das criolas, das brincadeiras, do bom humor e do atrevimento que não ofendem.

Saudades do cheiro do café de Fama, escapando pela janela da última morada. Saudades até das discórdias, discussões e picardias que aquecem o sangue nas coisas nossas. Saudades das nossas festas e eventos, quando genuínos, sem imposições nem divisões. Saudades de todo o privilégio do crescimento que esta ilha me deu, dos amigos e conhecidos que muito me ensinaram.

Saudades do “Plurim d’pex” do mercado de verduras. Saudades da Bela Vista, da vista do Monte Cara a partir do Lombo Tanque. Saudades de sorrisos largos e sinceros, de gente genuína, festeira e trabalhadeira o que, sinto, se tem escasseado na ilha. Saudades dos cheiros bons, menos do esgoto da atualidade. Saudades do pão fresco, ou quente, como queiram, “basta for c’manteiga” .

Saudades das pessoas. De gente que é gente, com todos os seus defeitos e virtudes e a sua forma de conviver. Saudades infinitas, saudades de tudo. Saudades de Mindelo. “Sodad de Soncent”, na certeza tranquila de que vivi o que quis, onde quis, e fui feliz.

É agora, ao escrever isto, que as lágrimas finalmente saem da ponta e começam a cair pelas “ribeiras” do meu rosto. E gosto disto. É a prova da vida que ainda pulsa carregada de muito por desfrutar, se o privilégio continuar. Hora de pensar em mais saudades que aqui não disse, guardadas no íntimo.

Amo este pedaço de chão. Esta é a certeza da minha vida, tal como a hora da minha partida, que, espero, do fundo do que sou, que ainda demore muito, muito a chegar.

Porra, que momento libertador…

Mostrar mais

Kimze Brito

Jornalista com 30 anos de carreira profissional, fez a sua formação básica na Agência Cabopress (antecessora da Inforpress) e começou efectivamente a trabalhar em Jornalismo no quinzenário Notícias. Foi assessor de imprensa da ex-CTT e da Enapor, integrou a redação do semanário A Semana e concluiu o Curso Superior de Jornalismo na UniCV. Sócio fundador do Mindel Insite, desempenha o cargo de director deste jornal digital desde o seu lançamento. Membro da Associação dos Fotógrafos Cabo-verdianos, leciona cursos de iniciação à fotografia digital e foi professor na UniCV em Laboratório de Fotografia e Fotojornalismo.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo