Nelson Faria
No dia de São Vicente, padroeiro desta ilha batizada com seu nome, quero partilhar alguns dos sonhos de um futuro que gostaria de ver concretizado. Valorizado o passado, vendo o presente, sinto-me confortável ao olhar para a frente. Olho e sinto uma saudade agridoce, do futuro que ainda não chegou. Uma nostalgia do que poderia ser, do que sonhamos que um dia, se calhar, será.
Tenho saudades de ver o potencial desta terra finalmente aproveitado. Não em um desenvolvimento de aparências, ou de conveniências, particularmente eleitorais, de fachadas que escondem o mesmo vazio de sempre. Mas, um desenvolvimento real, integral, que se sinta no chão que pisamos, no ar que respiramos, na alegria genuína nos rostos e na alma das pessoas.
Saudades de uma ilha com plano urbanístico pensado para a vida, com o Porto Grande e sua baía renascidos, adequados a novas rotas, novas viagens, novos encontros entre continentes. Um aeroporto redimensionado, ajustado, com voos a cada hora conectando-nos ao mundo de forma permanente. Ruas com pavimento digno, sinalização que converse com nossa dinâmica social e económica. O lixo tratado como deve ser, não a céu aberto, em novas plataformas, com uma população consciente e orgulhosa do seu pedaço de chão e com ação consciente no dever que também lhe cabe.
Sonho com o apoio real ao Desporto, com três pavilhões cobertos a abrigar atividade desportiva variada e criatividade. Uma simbiose dos clubes e atletas de todas as modalidades com propósitos que o desporto permite. Imagino um novo estádio que receba os Tubarões Azuis em glória, e que sirva de abrigo seguro quando as intempéries ameaçarem. Salões culturais e eventos vários… Por que não um “sambódromo”? Grupos carnavalescos profissionalizados, com sede própria, a transformar cultura em âncora de desenvolvimento. Chamem-me louco, mas não me inibam de sonhar…
Saudades do tempo em que a burocracia se renderá à tecnologia, poupando-nos tempo e frustrações. Onde todos, absolutamente todos, teremos acesso à mesma informação para posicionamentos construtivos, sérios, sem extremos que cegam.
Saudades de uma ilha de oportunidades iguais, onde o tratamento e o respeito não dependam de partidos, sobrenomes ou influências. Onde as universidades, pública e privadas, propiciem oportunidades de crescimento e sejam reconhecidas como faróis do conhecimento e motores do desenvolvimento.
Sim, quero ver hotéis, bares e restaurantes de alto nível, turismo que dignifique em vez de explorar. Por isso, tenho, sobretudo, saudades da dimensão humana desse futuro. Da dignidade do trabalho reconhecida e recompensada justamente. De habitações dignas, longe das encostas perigosas e ribeiras traiçoeiras. De menos desigualdade, menos desespero que force alguém a “vender a sua consciência” ou a dever favores. De cidadãos informados, autónomos, donos da sua consciência e do seu destino. De menos droga, comercializada e consumida, distorcendo realidades, e mais segurança sentida e percebida nas ruas, esquina e famílias. De menos partidas forçadas pela necessidade, e mais chegadas por escolha.
Neste dia 22 de janeiro, São Vicente, olho para tua baía e vejo além do que és, o que poderás ser. Esta saudade do futuro não é resignação, é muito do que me alimenta. É a certeza de que o amanhã se constrói hoje, com trabalho, mentes despertas que pensam e corações que não desistem de acreditar.
Tenho saudades do teu futuro, São Vicente. Essa nostalgia é o que me mantém acordado, sonhando e fazendo o que posso para que um dia, ao olhar para trás, possa dizer com orgulho: “Valeram a pena os sonhos”. Feliz dia, São Vicente!







