“Não é a quantidade de informações nem a sofisticação matemática que podem dar sozinhos um conhecimento pertinente, mas sim a capacidade de colocar o conhecimento no contexto.”
[Edgar Morin]
Arlindo Nascimento Rocha
A Pedagogia da Mutabilidade (PDM), como apresentado nos artigos anteriores, configura-se como um modelo epistemológico formulado a partir dos princípios da Governança da Mutabilidade. Ela assenta numa abordagem aberta, dinâmica e inovadora, orientada para a constante revisão, adaptação e reconstrução dos processos de ensino e aprendizagem em função das transformações sociais, educacionais, tecnológicas e metodológicas.
Todavia, na sua genealogia mais profunda, ela não se limita apenas às formulações contemporâneas. Ela emerge de pressupostos filosóficos, herdados da tradição filosófica, bem como de práticas pedagógicas que foram experimentadas, consolidadas e reinterpretadas em diferentes contextos e épocas. Assim, a PDM integra fundamentos filosóficos, pedagógicos, epistemológicos, éticos e antropológicos que lhe conferem coerência teórica e legitimidade prática, articulando filosofia e educação em um horizonte de aprendizagem contínua e mutável.
Neste artigo, propomos analisar os fundamentos filosóficos que sustentam a PDM e discutir a sua relevância no cenário educacional atual, evidenciando de que modo esses princípios lhe conferem consistência teórica e pertinência pedagógica. Longe de oferecer respostas definitivas, a PDM parte da premissa de que a educação deve desenvolver nos alunos a competência de aprender a aprender, promovendo a autonomia, a flexibilidade cognitiva e o pensamento crítico.
Em um contexto caracterizado pela instabilidade, pela complexidade e pela transformação permanente, passamos do fenómeno “VUCA” ao fenómeno “BANI” porque o mundo deixou de ser apenas volátil, incerto, complexo e ambíguo, para se tornar frágil, ansioso, não linear e, muitas vezes, incompreensível. Esta transição revela que não lidamos somente com mudanças rápidas, mas com sistemas que colapsam inesperadamente. Por isso, a PDM torna-se essencial, pois propõe uma educação adaptativa em um mundo incerto, imprevisível e em transformação. Ao assumir a incerteza e a mudança como elementos estruturais, promove-se o desenvolvimento das competências essenciais para uma nova forma de aprendizagem, capaz de mobilizar saberes em situações inesperadas.
Portanto, a PDM assume que formar alunos preparados para enfrentar o imprevisível exige processos educativos abertos, reflexivos e responsáveis. Tal como enfatiza Edgar Morin, vivemos em um verdadeiro mundo das incertezas, e é precisamente nesse horizonte que a PDM se torna pedagogicamente oportuna, ao orientar práticas de ensino que cultivam a adaptabilidade, a resiliência e a capacidade de (re)construir saberes diante de mudanças aceleradas.
Não é, de todo, novidade constatar que a aceleração tecnológica, a crise educacional, a volatilidade e a crescente complexidade social têm imposto à educação o desafio contínuo de formular respostas novas e adequadas às exigências atuais. Esta inquietação atravessa a obra dos principais autores que se dedicam à investigação educacional, para os quais o processo de ensinar e aprender se constitui sempre na relação com o outro, com o meio e com a tecnologia, numa dinâmica simbiótica e interdependente, afinal, como recorda Paulo Freire, ninguém educa ninguém, ninguém se educa sozinho: os homens educam-se em comunhão, mediatizados pelo mundo, o que reafirma a natureza relacional da aprendizagem, que não floresce no isolamento, mas na interação, no diálogo e na partilha de experiências.
Com efeito, a educação deixa de ser entendida como transmissão linear e vertical dos conteúdos e passa a ser concebida como um processo ecossistêmico, em que sujeitos, ambientes, tecnologias e culturas se influenciam mutuamente. A natureza complexa desse entrelaçamento exige abordagens pedagógicas capazes de promover autonomia, criticidade e adaptabilidade, capacidades essenciais para viver e agir em um mundo em permanente transformação.
Nesta interação, os professores e os alunos não permanecem estáticos; pelo contrário, encontram-se em contínua transformação e (re)construção, numa dinâmica que dissolve qualquer concepção rígida do ensino e da aprendizagem. Tal entendimento ecoa a afirmação de Immanuel Kant, para quem o ser humano é um ser em construção, ou seja, é um ser inacabado que se constitui progressivamente no exercício da razão, da experiência e da relação com o mundo.
É precisamente este caráter de inacabamento que deve recolocar o aluno no centro das prioridades educativas, reconhecendo que a educação não é um processo de transmissão rígida e mecânica, mas uma experiência viva de desenvolvimento, abertura e reinvenção constantes. Esta perspectiva converge com a máxima de John Dewey, segundo a qual a educação é a própria vida, pois aprender não significa acumular conteúdos, mas participar ativamente do processo de construção do conhecimento, como vimos em Perrenoud,Piaget e Papert. Educar, neste sentido, implica criar condições para que cada aluno desenvolva as competências necessárias para interpretar, transformar e (re)criar a realidade, em um movimento contínuo de aperfeiçoamento.
Nesse sentido, os modelos tradicionais de ensino, centrados na transmissão vertical do conhecimento, na rigidez curricular e nas avaliações padronizadas revelam-se insuficientes para formar alunos capazes de enfrentar as incertezas. Trata-se, em grande medida, da lógica da educação bancária descrita por Freire, na qual o professor ‘deposita’ os conteúdos em alunos passivos, desconsiderando o diálogo, a experiência, a criatividade e a leitura crítica do mundo. Estruturas educativas concebidas para um mundo estável já não respondem às exigências de uma realidade dinâmica, complexa e imprevisível, justamente porque continuam ancoradas numa pedagogia que privilegia a memorização e a obediência, em detrimento da autonomia e da construção ativa do conhecimento.
É nesse cenário que emerge a PDM, uma proposta teórica que transpõe para o campo da educação os princípios originalmente formulados no âmbito da Administração Pública. Ela foi inspirada, particularmente, nos conceitos e princípios da gestão de longos ciclos, adaptação contínua, flexibilidade estratégica e salvaguarda do interesse público, reinterpretando-os pedagogicamente como orientações para uma prática educativa voltada para a formação de alunos autónomos, resilientes e capazes de reconstruir saberes em contextos de incerteza.
Ao integrar os conceitos e os princípios listados, a PDM oferece um quadro conceitual que reconhece a incerteza como componente estrutural da experiência humana, e incorpora-a como motor epistemológico e pedagógico, orientando a educação para a criatividade e a reflexão crítica dos alunos.
Do ponto de vista filosófico, reafirmamos que este modelo se sustenta numa longa tradição que valoriza a coerência entre o pensamento e a ação, articulando contributos de autores provenientes de diferentes épocas e contextos. Como foi anteriormente exposto, a PDM dialoga com elementos fundamentais de uma linhagem filosófica que reconhece a educação como prática formativa que coloca o aluno no centro do processo de aprendizagem.
Apenas para citar alguns exemplos, esse diálogo permite estabelecer paralelos consistentes com Aristóteles (séc. IV a.C.); Immanuel Kant (séc. XVIII); Hannah Arendt (séc. XX) e Edgar Morin (séc XXI) cujas reflexões permanecem essenciais para compreender a formação humana. Cada um desses pensadores, a seu modo, oferece categorias que iluminam a relação entre autonomia, ação, responsabilidade e virtude, elementos estruturantes que orientam a PDM enquanto proposta educativa comprometida com o desenvolvimento integral do aluno.
Em todos os filósofos citados, encontramos a convicção de que o desenvolvimento pleno dos alunos exige a capacidade de pensar, de atuar criticamente, de exercer um juízo responsável e de agir segundo os princípios que sustentem a integridade pessoal e coletiva. A formação dos alunos, nesta perspectiva, não se limita em adquirir conhecimentos, mas implica desenvolver a disposição para avaliar, decidir e intervir no mundo de forma ética e consciente.
Assim, a PDM inscreve-se numa linhagem filosófica e pedagógica que não dissocia a reflexão da ação, reconhecendo a educação como um processo contínuo de autoconstrução e de cocriação da aprendizagem. Desta forma, reafirmamos que, educar deixa de ser uma prática formal e centrada na transmissão dos conteúdos para se afirmar como um processo orientado para o desenvolvimento da autonomia e da reflexão.
Este desenvolvimento é indispensável para que os alunos sejam capazes de agir de forma responsável. Neste enquadramento, a educação assume-se como um exercício de formação integral dos alunos, que ultrapassa a simples aquisição de saberes e implica a capacidade de reconhecer a complexidade e a incerteza, assumir as responsabilidades pelos próprios atos e participar ativamente na construção de uma sociedade mais justa, consciente e sustentável. É precisamente por isso que a ideia de mutabilidade se torna central para o reconhecimento de que o mundo não é estático, mas encontra-se em permanente transformação, exigindo que os sistemas educativos se adaptem aos ritmos sociais, tecnológicos e culturais atuais.
Em alinhamento com os artigos publicados anteriormente, reitera-se a ideia de que a educação, enquanto projeto social de longo prazo, não pode permanecer ancorada em paradigmas rígidos ou em estruturas pedagógicas cristalizadas. Nesse contexto, a PDM exige abertura, revisão contínua, flexibilidade metodológica e capacidade de reconstrução permanente dos processos educativos. Isso, significa deslocar o eixo do ensino para o processo vivo, reflexivo e dinâmico da aprendizagem, no qual os alunos se tornam sujeitos ativos na construção do conhecimento.
É este enquadramento que permitirá compreender, na sequência, de que modo a PDM foi influenciada pelas ideias filosóficas que fundamentam a sua aplicabilidade no contexto educativo, especialmente em cenários complexos. No entanto, é preciso esclarecer que, o objetivo não é esgotar o vasto conjunto de contributos filosóficos possíveis, mas destacar algumas ideias que se revelam, particularmente, significativas para compreender a estrutura ética, epistemológica e pedagógica que sustenta a PDM.
Em Aristóteles, a phrónesis (sabedoria prática) representa a capacidade de deliberar e agir adequadamente diante do imprevisível. Esta virtude não corresponde a um simples conhecimento técnico, mas a um discernimento ético, sensível às circunstâncias concretas e orientado pela busca do bem agir. Trata-se de uma competência que articula razão, sensibilidade e experiência, permitindo ao aluno ajustar as suas ações à complexidade das situações reais.
Na PDM, a phrónesis traduz-se na formação de alunos capazes de tomar decisões responsáveis em contextos não totalmente definidos, assumindo a educação como um exercício permanente de adaptação. Assim, a PDM reconhece que ensinar não é prescrever respostas, mas desenvolver nos alunos a capacidade de interpretar, avaliar e agir com sabedoria prática em cenários marcados pela incerteza e pela mudança contínua.
A ética kantiana reforça a centralidade da autonomia racional e da ação orientada por princípios universais, entendendo que a verdadeira liberdade consiste na capacidade do sujeito legislar para si mesmo, de acordo com as normas que possam valer para todos. É neste horizonte que a PDM recupera o imperativo categórico, não como fórmula rígida, mas como fundamento para a formação de indivíduos capazes de agir de maneira ética em meio às incertezas.
A PDM procura desenvolver alunos que não dependam exclusivamente de regras externas, mas que sejam capazes de pensar por si mesmos, avaliando criticamente as situações novas que emergem e guiando-se por critérios racionais e éticos. Neste quadro, a integridade torna-se um compromisso interno, expresso na coerência entre aquilo que se pensa, aquilo que se decide e aquilo que se faz. Trata-se de uma postura que exige reflexão, responsabilidade e a disposição para alinhar convicções, escolher ações e executá-las conscientemente.
Para Hannah Arendt, o ato de aprender de forma autônoma ajuda os alunos a suspender os automatismos, examinar as suas próprias ações e interrogar sobre o sentido e as consequências do que faz. A faculdade de julgar, segundo ela, constitui a capacidade dos alunos situarem-se criticamente no mundo, avaliando as circunstâncias concretas e deliberando de forma responsável perante a pluralidade e a imprevisibilidade do espaço público.
Neste enquadramento, a educação prepara os alunos para agirem de forma consciente, ética e responsável. A PDM integra esta perspectiva ao reconhecer que o professor não forma apenas alunos tecnicamente competentes, mas cidadãos capazes de responder às incertezas com reflexões de forma crítica, criativa e responsável. Trata-se, portanto, de um modelo pedagógico comprometido com a formação de alunos capazes de pensar por si, julgar com discernimento e agir com integridade.
Para concluir as contribuições filosóficas, destacamos o pensamento de Edgar Morin. Em sua vasta obra, Morin dedica-se à análise dos desafios epistemológicos, éticos e sociais do mundo contemporâneo, evidenciando a necessidade de uma visão complexa, capaz de integrar saberes e superar reducionismos. Desta forma, ele propõe um pensamento transdisciplinar, capaz de mobilizar diferentes campos do saber para compreender a complexidade do processo educativo. A sua concepção busca compreender os alunos em sua totalidade, integrando contradições, vulnerabilidades e potencialidades criativas. Em vez de simplificar o real, Morin defende a necessidade de acolher a incerteza e a tensão entre opostos como elementos estruturantes da experiência humana.
Nesse sentido, a educação, segundo Morin, implica adotar uma postura de abertura, reconhecendo que o conhecimento não é linear nem definitivo, mas um processo contínuo de construção, de reconstrução e de revisão. A educação deve, portanto, promover um pensamento que integre sujeito, contexto, cultura, tecnologia e sociedade, evitando visões fragmentadas que empobrecem a experiência cognitiva. Por isso, ele sublinha que aprender é sempre navegar em um oceano de incertezas, exigindo competências para enfrentar o inesperado e reorganizar o saber conforme as circunstâncias.
A PDM encontra em Morin, uma das suas bases mais fecundas para a sua construção. Pois, inspirado em Morin, o modelo sustenta que, em vez de proteger os alunos da incerteza, é preciso ensiná-los a trabalhar com ela, reconhecendo-a como componente estrutural da vida contemporânea. Por isso, PDM adota a complexidade moriniana como horizonte epistemológico e pedagógico, promovendo a capacidade de articular saberes, mobilizar diferentes formas de conhecimento e agir de forma responsável num mundo em constante transformação.
O contributo filosófico destes pensadores permite estruturar um modelo educativo que rejeita: currículos hermeticamente fechados; metodologias rígidas e invariáveis; aprendizagens mecânicas, descontextualizadas e dissociadas da vida real. Em contrapartida, o modelo promove: a adaptação contínua entre teoria e prática; processos de aprendizagem ativos, baseados em problemas, experiências e projetos; reconfiguração constante do percurso pedagógico, em função das necessidades emergentes; valorização da integridade, da criticidade e da responsabilidade como fundamentos éticos da ação educativa; abertura à incerteza como elemento constitutivo do aprender e condição para formar alunos capazes de reconhecer e conviver com a complexidade do mundo atual.
No entanto, reconhecemos que nenhum modelo está imune a críticas; aliás, elas são o motor que ajudarão a aprimorar e a consolidar este modelo diante de outras propostas metodológicas. Entre tantas críticas que poderão ser feitas, antecipamos, de antemão, algumas que podem surgir devido à novidade que representa ou, simplesmente, por não ser um modelo que oferece respostas fixas e rígidas.
De entre as que antecipamos, num exercício necessário de autocrítica, é possível identificar pelo menos quatro potenciais objeções ao modelo, sem a pretensão de esgotá-las, uma vez que outras, certamente, surgirão com o aprofundamento teórico do modelo. Assim, a PDM poderá enfrentar as seguintes críticas: o risco de excesso de flexibilidade – a abertura contínua pode gerar insegurança tanto nos professores quanto nos alunos, sobretudo em contextos que valorizam a previsibilidade; a exigência elevada de competências docentes – a implementação de práticas mutáveis requer professores capazes de inovar, refletir criticamente e ajustar-se a cenários em transformação; dificuldades institucionais – muitas escolas ainda operam em estruturas rígidas e burocráticas que dificultam práticas abertas e adaptativas; pressões sociais por resultados imediatos – podem entrar em conflito com um modelo pedagógico orientado por processos, reflexão e maturação contínua da aprendizagem.
Como em qualquer abordagem inovadora, se existem críticas ou problemas, também devem existir soluções alternativas para enfrentá-los. Assim, apresentamos, na contramão das objeções levantadas, algumas pistas capazes de minimizar os desafios associados à implementação da PDM. Estes passam necessariamente pela: criação de referenciais mínimos, que asseguram a coerência do processo educativo sem suprimir a autonomia pedagógica necessária à mutabilidade; implementação de programas de capacitação continua dos professores centrados na ética, na reflexão crítica, na criatividade e na capacidade de resolver problemas em contextos complexos; adoção de políticas educativas que incentivem modelos experimentais, avaliações formativas, ciclos de revisão permanente e práticas pedagógicas que valorizem a adaptação e a experimentação; reforço do diálogo entre escolas, famílias e comunidades, esclarecendo o valor de formar alunos críticos, autónomos e preparados para agir num mundo marcado pela incerteza e pela mudança constante.
Superando as críticas por meio das soluções concretas apresentadas, a PDM afirma-se como uma resposta pedagógica e prática aos desafios da atualidade. Ao articular contributos de Aristóteles, Kant, Arendt e Morin, constrói um modelo que acompanha as mudanças e reconhece a mutabilidade como condição estrutural da existência humana. Educar torna-se, assim, um processo orientado para a formação de alunos íntegros, críticos e responsáveis, capazes de agir e decidir por si.
Os textos anteriores, bem como os que seguirão e que constituem a espinha dorsal desta abordagem, demonstram que a educação precisa abandonar a rigidez e assumir-se como um processo contínuo de reinvenção. Contudo, a implementação deste modelo, como foi abordado, exige investimentos institucionais, formação qualificada e uma cultura escolar que valorize a autonomia, o pensamento crítico e a integridade como pilares da prática educativa.
Em síntese, à semelhança de Morin, a PDM afirma, sem dúvidas, que a incerteza não constitui uma ameaça, mas uma oportunidade: um espaço fecundo para reconfigurar a educação e, por meio dela, ampliar a capacidade dos alunos de criar, pensar e transformar o mundo.









