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O Muro Invisível: Por que a Bruma Seca ainda trava o Aeroporto Cesária Évora?

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​Américo Costa

Escrevo estas linhas com a frustração de quem, no espaço de apenas dois anos, vê pela segunda vez um voo cancelado devido a este fenómeno. Uma situação que, em pleno 2026, e com a tecnologia disponível, deveria ser facilmente ultrapassável. A pergunta que ecoa no Mindelo é: por que continuamos reféns do pó?

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Todos os anos, o cenário repete-se: o horizonte esbate-se num tom leitoso, o cheiro a terra invade o ar e o Aeroporto Internacional Cesária Évora (VXE) mergulha num silêncio forçado. Para São Vicente e a vizinha Santo Antão, a bruma-seca não é apenas um fenómeno meteorológico; é um prejuízo económico severo que isola as ilhas, afasta turistas e retira a previsibilidade necessária a qualquer destino que se pretenda internacional.

Escrevo estas linhas com a frustração de quem, no espaço de apenas dois anos, vê pela segunda vez um voo cancelado devido a este fenómeno. Uma situação que, em pleno 2026, e com a tecnologia disponível, deveria ser facilmente ultrapassável. A pergunta que ecoa no Mindelo é: por que continuamos reféns do pó?

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​O Problema: A Ditadura da Visibilidade

Atualmente, o aeroporto de São Vicente opera com mínimos de visibilidade que a bruma-seca frequentemente viola. Quando a visibilidade cai abaixo dos limites de segurança, os pilotos, por falta de auxílios tecnológicos de precisão no solo e no espaço aéreo, não conseguem garantir a aproximação. O resultado é o que todos conhecemos: o desvio penoso para o Sal ou para a Praia, ou o cancelamento total, deixando centenas de pessoas em terra e sonhos de férias interrompidos.

​A solução técnica: Além do olhar humano

​A solução para este impasse já não passa apenas por radares convencionais ou pelo sistema ILS clássico — que em São Vicente enfrentaria dificuldades devido à orografia montanhosa que interfere nos sinais de rádio. O futuro e a solução imediata residem na Navegação de Precisão por Satélite, especificamente o sistema RNP AR (Required Navigation Performance Authorization Required). ​Esta tecnologia permite que as aeronaves modernas executem aproximações curvas e precisas, guiadas por coordenadas de satélite (GNSS) com correção em terra (GBAS), permitindo que o avião “saiba” exatamente onde está a pista, mesmo quando o piloto não a consegue ver a olho nu devido à densidade da bruma. Com a certificação adequada das tripulações e este mapeamento de precisão, os “mínimos” de aterragem seriam drasticamente reduzidos, permitindo operar em condições que hoje fecham o aeroporto.
​Por pouco, deixa-se de perder tanto.

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​O investimento na modernização destes procedimentos e equipamentos pode parecer elevado, mas o custo da inércia é incomensuravelmente maior. Falamos de:
​Prejuízos Diretos: Milhares de contos perdidos em estadias de hotéis e serviços turísticos cancelados em São Vicente e Santo Antão.
​Logística e Reputação: Custos astronómicos para as companhias aéreas e, pior, a “mancha” na reputação das ilhas. Um turista que fica retido noutra ilha e perde metade da sua experiência em Santo Antão dificilmente regressará.

​Modernizar o apoio à navegação no “Cesária Évora” não é um luxo; é uma urgência logística e um ato de justiça económica para com o Barlavento. É a diferença entre ter um aeroporto “de bom tempo” ou um verdadeiro hub internacional operacional 365 dias por ano. ​São Vicente e as suas gentes, que tão bem sabem receber, não podem continuar à espera que o vento mude para que o progresso possa, finalmente, aterrar.

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Kimze Brito

Jornalista com 30 anos de carreira profissional, fez a sua formação básica na Agência Cabopress (antecessora da Inforpress) e começou efectivamente a trabalhar em Jornalismo no quinzenário Notícias. Foi assessor de imprensa da ex-CTT e da Enapor, integrou a redação do semanário A Semana e concluiu o Curso Superior de Jornalismo na UniCV. Sócio fundador do Mindel Insite, desempenha o cargo de director deste jornal digital desde o seu lançamento. Membro da Associação dos Fotógrafos Cabo-verdianos, leciona cursos de iniciação à fotografia digital e foi professor na UniCV em Laboratório de Fotografia e Fotojornalismo.

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