Opinião

O imperador abdicou

Por: Maria de Lourdes Jesus

Adeus ao Imperador “di tutte le Afriche”. Este nome foi-te atribuído pela nossa amiga jornalista Claudia Origlia. Um título nobre em ar de brincadeira, mas não muito, porque fazia parte da tua natureza. Condizia mesmo contigo e sabias muito bem como utilizá-lo. Ás vezes por simples provocação, a gente pensava. A tua presença em Roma em 1978 foi uma grande tentação para a nossa comunidade tranquila, constituída ainda, quase 100%, por mulheres. Tu representavas a novidade. A gente amava e admirava muito a tua ousadia, a tua maneira de ser e de viver a vida, desafiando e pondo em discussão todas as nossas certezas e os pontos de referência da nossa identidade cultural.

Nessa altura, a nossa preocupação como comunidade concentrava-se na luta para vencer e libertarmo-nos da pobreza, que nos obrigou a emigrar para a salvação da nossa família. Não havia alternativa à emigração. Era o percurso obrigatório que mais tarde, a tua mãe Martina, também teve que seguir com o objectivo de criar as condições para que o seu filho pudesse estudar em Roma. E assim foi.

Homem de grandes princípios

Como homem lutador Hernâni herdou tudo da sua amada mãe, Martina Pina Cardoso Moreira, que merece ser aqui nomeada para conhecer melhor o carácter do seu filho. Ela é uma mulher que tem coragem para vender. Agarrada à sua profunda fé, soube enfrentar com determinação e valentia as adversidades da vida de quem nasceu nos anos “40, na tempo de fome”.

Aos 19 anos embarca com a sua primeira filha, Maria José, nos braços com menos de um ano, rumo à Angola, terra prometida, onde foram trabalhar muitos cabo-verdianos nessa altura. Martina, que era uma boa cozinheira, especializada em doçaria, em breve instala a sua pequena empresa caseira e consegue conquistar muitos clientes nas festas importantes como baptismo, casamento, aniversariantes e também para empresas. Tinha a sua vida bem arrumada. Ganhava muito bem e vivia numa bela casa. Só faltava encontrar o senhor João Moreira, com quem casou e deu a luz o nosso amado Hernâni. Mocinhe bonitinho, trevidinho desde bebé, estilosinho e sempre muito bem vestido e na moda. De bico de pé à cabeça. É só ver as fotos dele quando era criança, uma criança muito amada e mimada.

Mas infelizmente o pai morreu muito cedo, quando Hernâni tinha apenas 4 anos, num trágico acidente de mota, salvando o filho da morte certa. Daqui para frente Martina só podia contar com as suas forças e a sua fé que nunca abandonou. Regaçou as mangas e lutou para não faltar nada ao seu filho e sobretudo para manter o mesmo standard de vida que o pai dispensara quando estava ainda em vida.

Ela jamais quis juntar ou casar com outro homem. Uma vez tinha-me dito que quando casou era para sempre, e assim foi. Decidiu ficar viúva para sempre. Vivia e trabalhava para que o filho fosse um homem educado, sério, honesto, capaz de lutar para ser alguém na vida, mas respeitando os outros.

Martina não suportava a injustiça, reagia sempre. Mesmo com as tropas em Luanda. Tinha e tem um poder de linguagem formidável e se for necessário pode usa-lo para neutralizar, ou também para por cada um no seu lugar. Igual ao seu filho. Tal mãe tal fidje.

A independência de Angola, que foi para a maioria da população o dia da liberdade, num clima de festa em todo o país, transformou-se para muitos num clima de insegurança e medo de represálias que obrigou milhares de cabo-verdianos a deixarem a sua casa para voltarem para Cabo Verde quase sem nada. Uma tragédia que abalou a família Moreira que teve também de abandonar a própria casa e voltar para Cabo Verde. Não fácil na altura. Era em 1975, e Hernâni tinha 14 anos.

Os primeiros anos foram muito difíceis. Sem trabalho, vivendo com os familiares e com um futuro incerto, a maioria das pessoas que voltaram da Angola procuraram de novo uma saída através da emigração. Martina, que em momentos de dificuldades ganha mais força, procura e encontra trabalho: Em1975 segue para Rapallo, Itália.

As múltiplas qualidades admiráveis de Hernâni foram transmitidas por essa grande mulher, D. Martina Moreira. Uma mãe que dedicou toda a sua vida ao seu filho, numa ligação afectiva entre os dois, reforçada por uma cumplicidade impenetrável. Ninguém conseguia tomar parte porque simplesmente não permitiam. Era o espaço confidencial entre a mãe e o filho que ninguém podia contrariar, porque estava sigilado pelo amor incondicional que reinava na família Moreira. Única no seu género.

Iniciamos contigo, Hernani, a fazer uma nova leitura da nossa vida como emigrantes “nel Bel Paese”. Uma leitura que apreciasse o aspecto cultural da nossa identidade. Teu percurso em Itália é já história, Hernâni. Uma história imprescindível da nossa comunidade que muito te deve e podes ter a certeza que ela saberá valorizar os teus ensinamentos. Foste e serás para sempre amado por todos nós. Gratidão ao “Imperatore di tutte le Afriche”.

Até um dia…

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