Nelson Faria
Não podemos, em hipótese alguma, normalizar o que fere a dignidade humana e corrói os alicerces da nossa sociedade. Criminalidade, roubos, furtos, assaltos e, sobretudo, a criminalidade organizada não são “parte da realidade” a ser aceite passivamente.
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Da mesma forma, é inaceitável banalizar o tráfico de drogas, as bocas de fumo que envenenam comunidades inteiras, ou as “quebradas” que aprisionam jovens em ciclos de violência. Lavagem de capitais, ineficiência da Justiça, corrupção sistêmica e o crime organizado são chagas que demandam repúdio coletivo, nunca normalização.
Em Cabo Verde, especialmente em São Vicente, esses desafios são estruturais e, portanto, exigem soluções igualmente estruturais. Não há atalhos, pois, as medidas paliativas, como o aumento temporário de efetivos policiais em períodos pré-eleitorais ou de conveniência política, apenas fazem a cosmética do problema. O que precisamos é de um projeto estruturante de transformação social, focado em três pilares: educação de qualidade, acesso ao desporto e cultura como ferramentas de inclusão e criação de emprego digno. São esses os alicerces que libertam jovens da sedução do crime, fortalecem comunidades e constroem futuros sustentáveis.
Parabenizo a organização da manifestação realizada hoje, um grito legítimo da cidadania contra a insegurança que assombra nosso quotidiano. Estive presente, enquanto cidadão consciente, e saí satisfeito por ver a sociedade civil unida, exigindo ações concretas em vez de retórica vazia. Protestos como este são urgentes porque expõem a gravidade de um problema que ameaça a nossa paz e a própria existência de um projeto nacional baseado em segurança, harmonia e justiça social.
Não nos iludamos, sem investimento maciço e ações concretas em políticas públicas transformadoras, sem transparência no combate à corrupção, sem uma justiça ágil e eficaz, continuaremos a chover no molhado. A normalização do anormal é uma armadilha perigosa. Cabo Verde merece mais que discursos, merece coragem para enfrentar suas raízes problemáticas e semear, com determinação, as bases de um futuro onde a dignidade não seja exceção, mas regra.
A luta continua e cada voz somada é um passo rumo à mudança que almejamos.