Opinião

Emigrantes votaram contra políticas de UCS

Por Maria de Lourdes

A diáspora nos Estados Unidos e na Europa votaram contra a política de Ulisses Correia e Silva, contrastando assim com a votação em Cabo Verde que premiou o MpD. Na diáspora a balança pendeu para a vitoria do PAICV, mas manteve o equilíbrio dos deputados, como nas eleições precedentes com três deputados para cada partido.

Em Itália, por causa do Lock down, participaram nas campanhas eleitorais somente os candidatos suplentes e representantes dos partidos, com o próprio grupo de apoiantes, através do internet e contactos via telemóvel. Houve também à disposição dos partidos a antena da rádio “Onda Cabo Verde” todos os domingos e um debate na radio “B. Leza” com o candidato suplente do MPD, Jaime Cruz, e o 1° secretario do PAICV, Aristides Sousa. No dia 11 de abril o MPD e PAICV organizaram um encontro com os eleitores mas, o resto da campanha, correu via Internet. E com qual foi o resultado?  Das 8 regiões de Itália, o PAICV ganhou em cinco e o MpD em três: Piemonte 17/2, Liguria 24/23, Emilia 26/24.

A campanha eleitoral de 2021 destaca-se e se distingue das eleições precedentes em três aspectos. Primeiro: o voto da diáspora era quase certo na sua maioria, destinado ao PAICV. A surpresa veio do nosso arquipélago. Vamos ver porque. Conversando com algumas pessoas da comunidade em Itália e tendo lido muitas mensagens via Messenger, ficou claro que muito dos votantes não estavam à espera dessa grande vitoria do MPD em Cabo Verde. Ao menos dessa proporção. Essa surpresa encontra uma sua explicação, nas continuas informações queixosas que os emigrantes recebiam sobretudo da própria família, todas as vezes que entravam em contacto.

Hoje em dia, graças a Messenger, Whatsapp, (os meios mais utilizados para falar com a família), estão ao alcance de todos. Os familiares em Cabo Verde e na diáspora estão em contacto quase todos os dias. E nesses últimos anos os familiares, amigos, gente de confiança queixavam-se quase sempre da penúria da vida, das dificuldades económicas, pela falta do trabalho ,pelos filhos e netos, atribuindo a responsabilidade ao governo que nada tinha feito para cumprir a promessa. A família a passar dificuldades provoca no emigrante uma grande preocupação que só pode atenuar enviando mais dinheiro. Mas a preocupação permanece. A solução veio à tona quando essa preocupação se transforma em raiva, que se descarrega através da única arma à disposição: o voto contra o governo.

No dia seguinte às eleições podia-se ler no Messenger muitas mensagens de pessoas que sentiram-se enganadas e traídas pela própria família que lhes tinham induzido a tomar posição contra o governo mas que não tiveram coragem de votar contra. Essas pessoas não compreenderam o motivo que levou os familiares a votar a favor do Mpd, visto que estavam a passar assim tão mal. Essa é a primeira causa do descontentamento dos emigrantes na Itália. Um sinal que o novo governo de Ulisses, e todos os partidos, deveriam tomar em consideração porque as pessoas já abriram os olhos e já aprenderam muito, sobretudo com o Internet.

O segundo aspeto que orientou a maior parte da nossa diáspora a votar para a mudança do governo em Cabo Verde, està directamente ligado a Internet.  Os emigrantes estão a lidar desde á muito tempo com Internet, que teve e tem um papel muito relevante no conhecimento das coisa que se passam em Cabo Verde e sobretudo nesse período de campanha virtual, a decorrer nas redes sociais: o palco por excelência da campanha eleitoral, para quem estava em lock down, como no caso da Itália.

Os canais por onde foram veiculadas as informações, durante a campanha, contrariamente ao que aconteceu em Cabo Verde, foram quase exclusivamente através das redes sociais focalizadas nas nossas Ilhas e na sua governação. Alguns são geridos por profissionais da área de comunicação, outros são amadores. Há profissionais que apresentam bons serviços, fazendo um bom trabalho à comunidade, mas há também pessoas que se distinguem pela informação muito duvidosa que transmitem.

Mas há ainda vídeos de grande atração, a circular sobre a pobreza em Cabo Verde, o orçamento do Estado, o peso do custo dos políticos que a população tem de pagar, a denuncia de Amadeu Oliveira contra a injustiça da justiça, o nível de criminalidade e da corrupção, os milhões gastos na TACV Airlines, o custo das viagens dos representantes das instituições cabo-verdianas, o problema grave dos transportes via aérea e marítimo, para não falar da organização e os atrasos causados pela burocracia.

Em qualquer momento que a pessoa quiser tem informação que não acaba e cada vez mais temas a discutir com familiares e amigos. Há também belas imagens e vídeo sobre a nossa Terra, mas não compensa esse continuo fluxo de informação que transmite uma imagem péssima e negativa da gestão política do governo nos últimos anos. Acho que nenhum governo vai poder acabar com essa imagem negativa do estado do nosso pais se não houver uma política capaz de beneficiar toda a população cabo-verdiana. Sabemos que a campanha é de 5 em 5 anos. Mas o Internet não. Esse veio para ficar e se algo não está a funcionar bem nas Ilhas, podemos estar certos que vai ser o tema central nas redes sociais, adquirindo dentro dessa máquina uma nova dimensão, reforçada com a sua capacidade de atracão e persuasão que exerce nas pessoas.

O terceiro aspecto que caracterizou e marcou profundamente essa campanha, foi algo que aconteceu, pela primeira vez e que surpreendeu as pessoas, deixando uma boa parte da comunidade bastante magoada. Trata-se da tentativa de degradar a imagem do líder e candidata do PAICV Dra. Janira H. Almada. Quero aqui exprimir a minha solidariedade juntamente com outras mulheres e homens da nossa Naçao na diaspora.

“Seja o que for, ganhou ou perdeu as eleições, esta mulher está na história cabo-verdiana, na história da democracia africana … definitivamente muito mais do que aquelas cabeças de cabra que, não podendo chegar às uvas, como a raposa de Esopo, não encontram nada melhor do que ofendê-la com as piores palavras. Janira está na história … o resto são tagarelice de gente que, talvez, não nasceu de mulher, mas de cabra sem cérebro. Janira lutou, defendeu e representou a democracia de Cabo Verde nem mais nem menos que um homem… Obrigado Janira! Força sempre!” Jorge Canifa- (poeta e escritor)

“Janira Hoffer Almada! Que continue sendo a expressão de líder com visão , estratégias e resultados que possam ser retratados numa mudança edificante (…) A líder Janira Offer Almada é uma gota de esperança instilada que um dia se manifestará “nesse rio caudaloso”Com prudência ,insistência , flexibilidade e maleabilidade inteligíveis e , ancorada na sua intrinsecalidade da sua força indomável,é mister que Janira Offer Almada prossiga e que a vivência da cidadania seja asséptica.” Elsi do Carmo Ramos (poetiza)

“A força das mulheres está na flagrante fraqueza dos machos em relação a eles mesmos.. O verdadeiro rosto da sociedade cv explodiu à vista, nuo e cruo (inclusion oblige) mas ganhou o Feminino pelo simples facto de tanto barulho, comedia e gesticulações dentro da kriola arena”. Ariane Morais Abreu.“

“É triste pensar que é a própria mulher a não dar valor as outras mulheres. Jà esqueceram que foram elas as primeiras pioneiras. A lançar a primeira pedra para construir o futuro da família?. Ofender é não dar valor pelos esforços feitos e as conquista atingidas atè agora. Mas a luta vai continuar até chegar o momento que a mulher vai retomar á sua posição. A nossa deputada vai continuar ainda com mais força . Bom trabalho ao vencedo, mpd.” Lucialina Rodrigues.

“É lamentável que as eleições tenham trazido à superfície casos de preconceitos machistas e de afrontas verbais contra a Mulher, grave reação à alta visibilidade política da cidadã Janira Almada, quando pleiteava as eleições legislativas e ambicionava ser Chefe do Governo de Cabo Verde. Repudio todos os sinais bafientos e antidemocráticos, venham de onde venham, perceptíveis nas derivas machistas, patriarcais, sexistas, homofóbicas e transfóbicas, a germinarem entre nossa gente nas ilhas e na diáspora.” Filinto Silva – poeta e escritor.

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