Opinião

E se fosse a real democracia?

Por Nelson Faria

Proclamamos ter uma bela democracia, quando nela ainda persistem e são protagonistas autênticos autocratas. Realizar a democracia vai muito além de reivindicar direito todo o poder por ter ganho eleições com as suas nuances.  A democracia requer democratas que entendem e respeitam princípios básicos como a igualdade, a diversidade, a participação de todos, a solidariedade e, particularmente, a liberdade. Condicionar e restringir um valor como a democracia e seus princípios a um pseudo poder circunstancial repartido, é elucidativo do nível de alguns “democratas”.

Descurar a diversidade, o contraditório, os diferentes e toda a riqueza de pensamento e ideias que podem ser uma mais valia para o todo, se assim fossem entendidos e acolhidos, é de quem ainda não alcançou o que é realmente ser democrata. Pasmo em ver intervenções autoritárias, descabidas, visando única e exclusivamente reivindicação de poder, todo o poder, ignorando o que foi deveras os resultados plurais saído das urnas.

Então, exclui-se a maior parte dos eleitores e sua representação porque há uma vitória relativa? É isto que é a nossa bela democracia? É assim que está configurado nas leis existentes? Mais, é isto que diz a nossa sensatez democrata, se houver? Nas democracias reais o poder é nosso, do povo, não é “meu” por ser representante circunstancial, por ter tido um ou dois votos a mais que o meu adversário político. Mesmo que a vitória fosse folgada, maioritária, requer sempre a inclusão de outra parte constituinte da sociedade representada pelos seus eleitos. Até os abstencionistas, se decidirem fazer a sua participação de diferentes formas como auto-representantes nos canais possíveis, têm toda a legitimidade de o fazer.

Os partidos são parte necessária e vital do sistema político e da democracia, são organizações da sociedade civil, as associações e movimentos cívicos, assim como os cidadãos individuais com as causas que acharem justas defender, têm todo o direito de existir, pronunciar e assumirem-se como tal, sem pretensão de entrada na política ativa objetivando eleições, fazendo, sim, papel de fiscalizador do poder, necessário nas verdadeiras democracias. Repito, o poder é nosso, do povo e deve ser fiscalizado por todos, não se restringindo apenas à luta partidária ou eleitoral.

No fundo e na minha bondade de tentar ver boas intenções, creio que, a causa é comum, mesmo que em perspetivas e interesses diferentes. O objetivo de desenvolvimento da ilha, do equilíbrio e das causas justas, salvaguardando os interesses de São Vicente e seus habitantes, acima de tudo, é o que nos une. Ao menos, devia. Por isso, para a realização do nosso potencial é necessário intervenção e participação de todos. Todos! Há valor em todos os quadrantes, nas pessoas em todas as frentes de participação na vida pública, independentemente da posição e do papel, que deve ser aproveitado. Mas, isto é matéria para autênticos democratas…

É nesta parte que entra a minha utopia… Ou, se calhar, um sonho realizável… E se em vez do partido, do fulano e do beltrano, São Vicente estivesse deveras em primeiro lugar? Se os diferentes, se a diversidade, a pluralidade fosse respeitada, acolhida e incluída como parte integrante da sociedade e da participação política como um contributo válido para sua melhoria? Se pensássemos que as boas ideias e intenções não começam e não se esgotam nas nossas mentes, nos nossos egos e interesses, e que o contraditório pode ser útil ao propósito comum?  E se esta causa, que é nobre, nos unisse de facto, ao ponto de tirarmos as palas das cores partidárias, dos egos, dos interesses, das manias e sobrancerias? Se, em pé de igualdade, assumíssemos “li ê nos tchom e nô deve contribui, djunt, pa melhoral pa nôs, nôs fidj e nôs neto”?

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