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Cruzeiros do Norte – Uma lição de história no Carnaval de São Vicente!

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David Leite

Tenho por mim que faltou uma personalidade na tribuna de honra do último carnaval: um representante do Reino-Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte! Não duvido que o ilustre convidado (diplomata, adido cultural, cônsul honorário ou outro representante oficial) teria ficado deslumbrado com uma das mais belas e convincentes demonstrações da presença britânica em S. Vicente na era pré-independência.

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Um convite teria sido tanto mais oportuno que essa demonstração não foi um simples exercício de memória histórica. Foi também uma homenagem, ao evocar o papel pioneiro da Inglaterra vitoriana no arranque da economia da ilha, os áureos tempos da navegação a vapor que colocou o Porto-Grande nas rotas transatlânticas e abriu Cabo Verde ao mundo e à emigração moderna. E, naturalmente, por via de consequência, a influência britânica nos desportos e na cultura social, até na religião (igreja protestante), enfim, nos costumes citadinos que moldaram a altiva e soberba “high society” mindelense desde os meados do século XIX até à independência.

Cruzeiros do Norte superou. Trouxe para o asfalto uma fabulosa iconografia bem adaptada ao seu enredo, bem patente na trilha sonora, nos trajes, nos andores alegóricos e no espírito da festa, com um grupo de foliões fazendo as vezes de operários das antigas companhias carvoeiras. Vimos passar a Torre de Londres e o Big Ben, e um dos andores eram duas mãos gigantescas cheias de carvão “de pedra”. Não faltaram alegorias à sociedade mindelense da época, como um bule e uma chávena simbolizando o famoso “chá das cinco”, um costume so british... Mas nada mais british que os famosos “guardas de Buckingham Palace” executando a batucada, um golpe de mestre na hora H, pois é na passagem da batucada que qualquer desfile atinge o seu paroxismo!

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Já estamos habituados às grandes lições de história com imagens que os enredos de carnaval veiculam, mostrando que a festa do Rei Momo é também feita de conhecimento. E uma coisa está provada: povo de S. Vicente, quando põe a mão é artista, quando quer pode, e quando aprende é sábio!

E, na sua infinita sabedoria, o povo humilde dá lições aos doutores do templo! Pelo menos mostra mais respeito pelo nosso património histórico do que os especialistas e outros “entendidos” que são pagos ou eleitos para o proteger! Através do Carnaval ressuscita em imagens a nossa memória colectiva sepultada nos escombros de um antigo Consulado Inglês e de outros patrimónios que vão sucumbindo a interesses mercantis alheios à nossa história e cultura.

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Em jeito de epílogo, levanto o meu dedinho para dizer que veria com bons olhos uma tribuna de honra com convidados do corpo diplomático acreditado em Cabo Verde (assim como gostei de ver o Presidente da Câmara de Oeiras, Isaltino de Morais, um amigo de longa data de São Vicente). O elevado nível do nosso Carnaval justifica plenamente mostrá-lo aos olhos do mundo. Mormente quando deita por terra todos os prognósticos negativistas e prova que o povo é quem mais ordena, como este ano aconteceu.

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Kimze Brito

Jornalista com 30 anos de carreira profissional, fez a sua formação básica na Agência Cabopress (antecessora da Inforpress) e começou efectivamente a trabalhar em Jornalismo no quinzenário Notícias. Foi assessor de imprensa da ex-CTT e da Enapor, integrou a redação do semanário A Semana e concluiu o Curso Superior de Jornalismo na UniCV. Sócio fundador do Mindel Insite, desempenha o cargo de director deste jornal digital desde o seu lançamento. Membro da Associação dos Fotógrafos Cabo-verdianos, leciona cursos de iniciação à fotografia digital e foi professor na UniCV em Laboratório de Fotografia e Fotojornalismo.

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