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Cabo Verde é pobre — ou foi ensinado a acreditar na sua pobreza?

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Domingos Barbosa da Silva

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Durante décadas, Cabo Verde foi descrito como um país pobre. Essa narrativa, repetida desde o período colonial, tornou-se tão confortável para alguns que passou a funcionar como desculpa, como álibi, como mecanismo de autoproteção das elites políticas e administrativas. Mas a pergunta que se impõe hoje, com mais urgência do que nunca, é simples e devastadora: Cabo Verde é realmente pobre — ou foi ensinado a acreditar na sua pobreza?

A resposta é clara: Cabo Verde não é pobre. Cabo Verde foi empobrecido.

Empobrecido por estruturas herdadas. Empobrecido por escolhas políticas tímidas. Empobrecido por uma cultura de dependência que beneficia poucos e paralisa muitos. Empobrecido por um Estado que, demasiadas vezes, prefere controlar a sociedade civil em vez de a libertar. Empobrecido por elites que repetem a narrativa da escassez enquanto ignoram a riqueza que o país já possui.

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E ninguém denunciou isso com mais lucidez do que Renato Cardoso.

1. A pobreza como construção política e mental

A ideia de que Cabo Verde é pobre não nasceu da realidade — nasceu da política. Foi construída, repetida e interiorizada. Desde o século XIX, relatórios coloniais classificavam o arquipélago como “inviável”. Essa mentira serviu para justificar a ausência de investimento e para manter o território numa posição de subordinação.

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Depois da independência, o país herdou:

  • uma economia dependente,
  • uma administração pública frágil,
  • uma elite política formada dentro de modelos coloniais,
  • e uma mentalidade de sobrevivência, não de desenvolvimento.

A pobreza tornou-se narrativa. E a narrativa tornou-se política de Estado.

2. O mar, o sol e o vento: riquezas de país rico, exploradas como país pobre

Cabo Verde tem:

  • 734 mil km² de mar,
  • mais de 300 dias de sol por ano,
  • ventos constantes,
  • uma diáspora global altamente qualificada,
  • uma cultura de resiliência e criatividade,
  • uma posição geoestratégica que muitos países disputariam.

E, no entanto, continua dependente de:

  • combustíveis importados,
  • alimentos importados,
  • tecnologia importada,
  • decisões externas.

O problema não é falta de recursos. É falta de coragem para transformar recursos em poder.

3. O potencial energético ignorado — até no subsolo marinho

Poucos ousam dizê-lo, mas é preciso dizê-lo: Cabo Verde pode ter jazigos de petróleo e outros recursos estratégicos no seu mar.

Não há reservas comprovadas — porque nunca houve estudos profundos. E nunca houve estudos profundos porque a dependência energética interessa a muita gente.

Como explicar que um país com uma das maiores Zonas Económicas Exclusivas da região:

  • nunca tenha realizado prospeções sérias,
  • nunca tenha investido em investigação geológica,
  • nunca tenha explorado o seu subsolo marinho,
  • e continue a importar 80% da energia que consome?

A pobreza não está na natureza do território – está na falta de coragem para conhecer a sua própria riqueza. Reside, igualmente, na carência de uma visão política corajosa, capaz de despertar um olhar atento para inverter o rumo das nossas dependências e traçar o caminho da nossa própria soberania.

4. A agricultura: o espelho da dependência

Sempre que se investiu em tecnologia agrícola — gota-a-gota, estufas, dessalinização — a terra respondeu. Há agricultores que produzem, inovam e provam que Cabo Verde pode alimentar-se melhor.

Mas há também terras férteis abandonadas durante as chuvas. Não por incapacidade, mas porque muitos foram habituados à ideia de que:

  • “não vale a pena trabalhar”,
  • “o Estado vai ajudar”,
  • “a ajuda externa vai chegar”,
  • “o familiar emigrado vai enviar dinheiro”.

E o mais inquietante é ver dirigentes que, em vez de combaterem esta mentalidade, preferem o conforto do silêncio — um silêncio que perpetua a dependência e enfraquece a cidadania.

Enquanto uns trabalham, outros esperam. E o país paga o preço dessa desigualdade de esforço.

A pergunta é brutal: por que uns produzem e outros não? Falta de jazigo de petróleo? Falta de minerais raros? Ou excesso de dependência?

5. O mito das parcerias que salvam — mas que amarram

Cabo Verde tornou-se especialista em “parcerias”. Mas muitas dessas parcerias:

  • transferem responsabilidade para o exterior,
  • criam dependência tecnológica,
  • limitam a autonomia económica,
  • e perpetuam a subordinação.

Chamam-se parcerias, mas funcionam como tutelas. Prometem desenvolvimento, mas entregam dependência.

O país precisa de parceiros, sim — mas parceiros que não tratem Cabo Verde como cliente, aprendiz ou extensão geopolítica.

6. Renato Cardoso: o pensador que ousou dizer a verdade

Renato Cardoso foi uma das vozes mais lúcidas e corajosas da história intelectual cabo-verdiana. Ele identificou quatro ruturas essenciais para libertar o país:

(1) Rutura com o imobilismo social e político[1]

Renato denunciava:

  • a indiferença política das populações,
  • o mimetismo das classes favorecidas,
  • a irresponsabilidade das elites que não privilegiam o progresso.

(2) Rutura com estruturas administrativas sem sentido de interesse público

Ele criticava administrações que:

  • não se responsabilizavam perante a sociedade,
  • não compreendiam a necessidade de progresso,
  • não se assumiam como motores de desenvolvimento.

(3) Rutura com sistemas herdados das ex-metrópoles

Sistemas concebidos para perpetuar a subordinação colonial.

(4) Rutura com a divisão instalada entre Estados africanos

Uma divisão que enfraquecia a capacidade de afirmação nacional. Renato defendia um desenvolvimento autocentrado, baseado na responsabilidade nacional, na autonomia e na consciência de que Cabo Verde tem interesses próprios e capacidade para os defender.

Ele denunciava o “paradoxo da independência”: um país politicamente independente, mas economicamente dependente — às vezes mais dependente do que antes.

7. A coragem política que falta

Cabo Verde precisa de líderes capazes de dizer o que muitos evitam:

  • que o trabalho cria riqueza;
  • que a terra não pode ficar abandonada;
  • que a dependência não é destino;
  • que a autonomia exige esforço;
  • que a dignidade nacional não se constrói com esmolas internacionais;
  • que a diáspora é força, não muleta;
  • que o governo não deve açambarcar o poder da sociedade civil;
  • que o país tem potencial para ser mais do que aquilo que lhe disseram que era;
  • que o mar pode conter recursos estratégicos nunca investigados;
  • que Cabo Verde precisa de se conhecer para se libertar.

Romper com a estrutura de dependência exige coragem — coragem para governar com verdade, e não com conveniência.

8. Sobriedade institucional e urgência moderna 

É imperativo que a classe política abdique da percepção de si mesma como uma casta privilegiada, substituindo a cultura do privilégio pela ética do serviço. Num país de recursos escassos, a governação exige a renúncia a regalias insustentáveis e o fim do esbanjamento do erário público; em plena era digital, manter gastos anacrónicos com deslocações que a tecnologia já permite resolver à distância é ignorar a realidade da Nação. A austeridade deve começar no topo para que a credibilidade e o exemplo cheguem à base.

Conclusão: Cabo Verde não é pobre. Cabo Verde foi empobrecido.

O arquipélago tem tudo para ser próspero:

  • mar,
  • sol,
  • vento,
  • cultura,
  • talento humano,
  • diáspora global,
  • estabilidade política,
  • posição estratégica,
  • e até potencial energético por investigar.

O que falta não é riqueza. É coragem.

A pergunta que o país precisa fazer não é: “O que falta a Cabo Verde?” Mas sim: “O que Cabo Verde já tem e ainda não ousou usar?”

A pobreza não é destino. É escolha — ou falta de coragem para escolher diferente.

Se Cabo Verde continuar a repetir que é pobre, continuará a viver como pobre. Enquanto acreditar na sua própria pobreza, permanecerá preso a ela. A libertação exige coragem política para romper com o passado e coragem intelectual para reconhecer que a verdadeira riqueza começa na forma como uma nação se vê.


[1] Partilho a publicação do meu livro  « A Estranha Morte de um Político» disponível através da Oficina da Escrita: https://oficinadaescrita.com/produto/a-estranha-morte-de-um-politico/

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Kimze Brito

Jornalista com 30 anos de carreira profissional, fez a sua formação básica na Agência Cabopress (antecessora da Inforpress) e começou efectivamente a trabalhar em Jornalismo no quinzenário Notícias. Foi assessor de imprensa da ex-CTT e da Enapor, integrou a redação do semanário A Semana e concluiu o Curso Superior de Jornalismo na UniCV. Sócio fundador do Mindel Insite, desempenha o cargo de director deste jornal digital desde o seu lançamento. Membro da Associação dos Fotógrafos Cabo-verdianos, leciona cursos de iniciação à fotografia digital e foi professor na UniCV em Laboratório de Fotografia e Fotojornalismo.

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