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A guerra no Médio Oriente e os possíveis impactos em Cabo Verde

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Nelson Faria

“É por demais evidente que, com o prolongar da guerra no Médio Oriente, teremos o desencadeamento de uma série de efeitos em cascata que podem atingir severamente a economia cabo-verdiana.

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Este tempo de “trampa”, de volatilidades e incertezas, não é mais o mundo que pensamos e idealizamos. É um mundo que nos obriga a saber adaptar além dos que estão confortáveis no S.O.F.A. dos umbigos, status quo e poder ilusório. O recente eclodir de um conflito militar em larga escala envolvendo os Estados Unidos, Israel e o Irão, iniciado a 28 de fevereiro de 2026, mergulhou o cenário geopolítico global numa nova era de incerteza. A escalada de tensões, que culminou em ataques coordenados e na retaliação iraniana com o encerramento do estratégico Estreito de Ormuz, gera ondas de choque que se propagam para além do epicentro do conflito, ameaçando a estabilidade económica e social de nações em todo o mundo.

Para um pequeno estado insular como Cabo Verde, cuja economia se caracteriza por uma forte abertura ao exterior e por vulnerabilidades estruturais específicas, a análise dos potenciais impactos desta crise torna-se um exercício que devemos fazer para o necessário preparo e adaptação ao contexto.

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É por demais evidente que, com o prolongar da guerra no Médio Oriente, teremos o desencadeamento de uma série de efeitos em cascata que podem atingir severamente a economia cabo-verdiana. Assim sendo, teremos de acautelar os impactos, considerando as nossas vulnerabilidades, nomeadamente com a dependência económica do turismo, a forte dependência das importações, a dívida pública elevada, uma economia pouco diversificada, a nossa crónica vulnerabilidade a choques externos e volatilidade de preços.

O imediato passa pela crise energética e pressão Inflacionista. O encerramento do Estreito de Ormuz, por onde transitam cerca de 20% do petróleo e 30% do gás natural consumidos mundialmente, provocou uma subida imediata nos preços da energia, com o barril de petróleo a ultrapassar os 82 dólares. Para Cabo Verde, que importa a totalidade dos seus combustíveis fósseis, as consequências são diretas e serão sentidas a breve trecho no aumento dos preços dos combustíveis. Assistiremos ao aumento do custo da gasolina, do gasóleo e do gás de cozinha, impactando diretamente o orçamento das famílias e os custos operacionais das empresas.

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Com o aumento dos combustíveis, assistiremos à subida do custo da eletricidade. A produção de energia elétrica no arquipélago depende maioritariamente de centrais térmicas, o que levará a um agravamento das tarifas de eletricidade.

A inflação será inevitável. A que dimensão? Veremos. A inflação generalizada devido ao aumento dos custos de transporte e energia que irá repercutir-se nos preços de praticamente todos os bens e serviços, pressionando a taxa de inflação.

O turismo, motor da economia cabo-verdiana, enfrenta uma ameaça dupla. Primeiramente, um conflito prolongado e a consequente instabilidade económica global tendem a reduzir o rendimento disponível das famílias nos principais mercados emissores de turistas para Cabo Verde, como a Europa. Em segundo lugar, o aumento do preço do petróleo encarece as viagens aéreas, tornando o destino menos competitivo. Uma quebra no turismo resultaria numa diminuição drástica das receitas em moeda estrangeira, na redução do PIB e no aumento do desemprego.

Como uma nação que depende da importação para a sua segurança alimentar e para o fornecimento de bens de consumo, Cabo Verde é extremamente vulnerável a perturbações nas cadeias de abastecimento globais. A crise no Médio Oriente pode levar a um aumento dos custos de frete marítimo, a atrasos nas entregas e até à escassez de certos produtos, agravando a pressão inflacionista e afetando a qualidade de vida da população.

A diáspora cabo-verdiana, com cerca de 1,5 milhões de pessoas, é três vezes superior à população residente e desempenha um papel fundamental na sustentabilidade económica do país. As remessas enviadas representaram cerca de 12% do PIB em 2023. Estas remessas são um pilar para o consumo de milhares de famílias e uma fonte vital de divisas.

Contudo, este fluxo financeiro não está imune à crise. A diáspora cabo-verdiana está maioritariamente concentrada em países como os Estados Unidos, Portugal, Holanda, França, Luxemburgo, cujas economias serão também afetadas pelo conflito. Uma recessão económica nestes países pode levar à perda de empregos e à redução da capacidade de envio de dinheiro para Cabo Verde. Assim, o principal mecanismo de amortecimento social e económico do arquipélago encontra-se, ele próprio, em risco, o que poderia agravar significativamente o impacto social da crise no país.

Portanto, o conflito entre os EUA/Israel e o Irão, embora geograficamente distante, representa uma ameaça existencial para a estabilidade económica e social de Cabo Verde. A combinação de uma crise energética, pressão inflacionista, potencial retração do turismo e risco de diminuição das remessas da diáspora compõe um cenário de elevada complexidade e risco. A forte dependência de fatores externos expõe as profundas vulnerabilidades estruturais do modelo de desenvolvimento do país.

A mitigação exige ações concretas na aceleração da transição energética através de investimento em energias renováveis; na diversificação económica com fomento da economia azul, digital e agricultura sustentável; na gestão prudente das finanças públicas com espaço orçamental para apoiar famílias e empresas; na inclusão efetiva da diáspora através de mecanismos que incentivem investimento em setores produtivos nacionais. Em suma, a crise atual serve como alerta severo para a necessidade de Cabo Verde reforçar resiliência interna e acelerar reformas estruturais que diminuam exposição a um mundo cada vez mais volátil.

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Kimze Brito

Jornalista com 30 anos de carreira profissional, fez a sua formação básica na Agência Cabopress (antecessora da Inforpress) e começou efectivamente a trabalhar em Jornalismo no quinzenário Notícias. Foi assessor de imprensa da ex-CTT e da Enapor, integrou a redação do semanário A Semana e concluiu o Curso Superior de Jornalismo na UniCV. Sócio fundador do Mindel Insite, desempenha o cargo de director deste jornal digital desde o seu lançamento. Membro da Associação dos Fotógrafos Cabo-verdianos, leciona cursos de iniciação à fotografia digital e foi professor na UniCV em Laboratório de Fotografia e Fotojornalismo.

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