Escritor Guy Ramos estreia-se no romance com “Os Silva”, uma narrativa sobre Cabo Verde e a diáspora

O escritor Guy Ramos estreia-se no romance com “Os Silva”, uma obra de ficção que percorre quase um século de transformações sociais, políticas e humanas de Cabo Verde e da sua diáspora. O livro será apresentado no dia 13 de setembro, na Casa de Cultura – Consulado-Geral de Cabo Verde, nos Países Baixos. Estão previstas mais duas apresentações, a primeira no dia 4 de outubro, em Roterdão, e a segunda no dia 18, em São Vicente.
Ao Mindelinsite, Guy Ramos explica que “Os Silva” nasceu de um conto iniciado há cerca de quatro décadas e que, ao longo dos anos, foi ganhando uma dimensão mais ampla, cruzando ficção, memória e investigação histórica. A narrativa acompanha várias gerações de uma família cabo-verdiana e desenvolve-se entre as ilhas de Cabo Verde, Portugal e os Países Baixos.
“Santo Antão, São Vicente e Roterdão constituem os principais espaços onde se desenrolam as histórias das personagens. O colonialismo português, a pobreza, a emigração e o êxodo cabo-verdiano para a Europa, a Revolução dos Cravos, a independência de Cabo Verde, as tensões políticas do pós-independência e a formação da comunidade cabo-verdiana nos Países Baixos constituem parte do cenário histórico em que as personagens se movimentam”, explica o escritor.
Mais do que centrar a narrativa nas figuras do poder ou nas versões oficiais dos acontecimentos, o romance procura dar protagonismo às pessoas comuns, particularmente àqueles que partiram e aos que permaneceram nas ilhas. Guy Ramos descreve “Os Silva” como uma obra sobre homens e mulheres que “trabalharam, amaram, sofreram, resistiram e procuraram construir uma vida, dentro e fora das ilhas, sem perderem a ligação às suas origens”.
“É um romance sobre emigração e desenraizamento, mas também sobre família, identidade, memória, pertença e relação, nem sempre pacífica, entre a história vivida e a que acaba por ser contada”, indica. “Os Silva não pretende contar a história a partir dos palácios, dos governos ou dos discursos oficiais. Conta-a a partir de baixo: através daqueles que partiram, trabalharam, sofreram, amaram, resistiram e sobreviveram, e cujas vidas raramente encontraram lugar nos livros de História”, frisa.
Um conto iniciado há quatro décadas
A história de “Os Silva” remonta à década de 1980, quando Guy começou a escrever o texto na forma de um conto, posteriormente publicado em episódios no boletim da então Associação Juventude Cabo-verdiana na Holanda. O trabalho ficou inacabado e permaneceu arquivado durante anos.
Em 2012, o autor retomou o manuscrito e concluiu-o, inicialmente sem intenção de publicação, encarando-o sobretudo como um exercício de escrita em língua portuguesa. Durante a pandemia voltou a trabalhar no texto, desta vez com a intenção de o transformar numa narrativa de maior dimensão. Surgiu, assim, a ideia de construir um romance histórico capaz de permitir às personagens atravessarem diferentes períodos da História de Cabo Verde, passando por diferentes ilhas, países e acontecimentos.
Após a publicação, em 2022, do livro de poesia “Da Mente Poética de um Louco”, iniciou um extenso processo de investigação sobre a história popular de Cabo Verde, Portugal e dos Países Baixos, com especial atenção à emigração para a Europa. Mas a investigação não se limitou aos documentos históricos.
Guy Ramos relata que entrevistou cerca de meia centena de pessoas, de diferentes ilhas e com percursos e experiências de vida distintas. Memórias, testemunhos e histórias transmitidas oralmente foram incorporados no processo de construção das personagens e do universo humano do romance. A escrita da obra foi concluída em julho de 2025, durante uma estadia do autor no Mindelo.
Quase 40 anos depois das primeiras páginas, o conto transformou-se num romance histórico que percorre quase um século de História e acompanha as experiências de várias gerações de uma família cabo-verdiana.
Sobre Guy Ramos
Guilherme Augusto Ramos, ou Guy Ramos, reside nos Países Baixos desde 1975. É escritor, poeta, autor e compositor, produtor audiovisual e dinamizador cultural. Desde a década de 1980, tem desenvolvido projetos multidisciplinares ligados às artes, ao património, à comunicação, à identidade e à diáspora cabo-verdiana, num percurso que cruza o jornalismo, a produção audiovisual, a criação artística e a organização cultural.
Como autor e compositor, escreveu para diversos intérpretes da música cabo-verdiana, entre os quais Johnny Ramos, Grace Évora, Splash, Nhone Lima, Jacqueline Fortes, Dina Medina, Roger Moreira e Nelson Freitas.
Em 2022, publicou “Da Mente Poética de um Louco”, livro de poesia. Com “Os Silva”, Guy Ramos dá agora o primeiro passo na ficção romanesca, levando para a literatura décadas de interesse, experiência e investigação sobre Cabo Verde, a emigração e a identidade da comunidade cabo-verdiana na diáspora.






