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Ecofarm recorre a banca para investir em agricultura inteligente e avançar com produção em larga escala

A Ecofarm Cabo Verde acaba de conseguir um empréstimo bancário, no valor de 1.500 contos, parte de um investimento total de seis mil contos, para dar início ao seu investimento em agricultura inteligente em campos de rega assistida por tecnologia totalmente controlada por sensores e estações automatizadas. Trata-se de um investimento faseado, que vai arrancar esta quinta-feira com a entrega do projecto de construção de reservatórios próprios, com capacidade para 100 a 150 toneladas de água, a uma empresa na ilha de Santo Antão.

Ao Mindelinsite, Lucas Monteiro explica que, após dois anos de trabalho na montagem, organização da empresa e preparação do terreno, os accionistas – ele e a mãe – decidiram recorrer a banca para buscar recursos para investir e “quebrar práticas antigas como a rega de alagamento”, sobretudo porque a própria filosofia do projecto não permite, mas também porque a água é escassa em Cabo Verde.  Vão avançar com 1500 contos para a construção de um reservatório próprio e 1500 na infraestrutura de gota-gota, acoplada a uma tecnologia de ponta de transmissão de dados com recursos a sensores para medir o PH do solo, humidade, velocidade do vento, entre outros, para rentabilizar a água disponível.

O investimento inicial que pretendemos fazer vai incidir essencialmente na mobilização de água para a rega gota-gota. Mas antes queremos construir um reservatório próprio, tendo em conta que até agora recebemos água de um do Estado que fica nas proximidades da nossa propriedade, na localidade de Garça. Depois há toda uma política de distribuição desta água aos agricultores desta zona, sendo que, no nosso caso, temos direito a 36 horas de água, que é despejado no chão literalmente. É esta prática que queremos quebrar e convencer outros agricultores a fazer o mesmo”, explica.

Um sonho que começa a ser materializado esta quinta-feira, 11 de agosto, com a entrega do projecto a uma empresa de construção civil que vai construir o reservatório, com todas as especificidades técnicas necessárias ao Ecofarm. O reservatório tem capacidade para 100 a 150 toneladas e vai cobrir uma área de cinco mil metros quadrados de rega gota-gota. “Recebemos água na nossa propriedade com um intervalo de 20 a 25 dias, de acordo com a disponibilidade e o sistema de distribuição. O volume de água que recebemos vai ser canalizado para o nosso reservatório, que terá acoplado ao sistema de rega gota-gota. Com isso, esperamos iniciar a produção em larga escala.”

É que até agora, não obstante a dimensão da propriedade – mais de 22 mil metros quadrados – a produção tem sido incipiente. Aliás, sequer dá para sustentar um ponto de venda em S. Vicente, tendo em conta a especificidade da Ecofarm de produzir e comercializar. “Queremos produzir para vender na nossa loja. Isto é fazer com que o nosso produto saia da horta e venha directamente para a nossa loja, sem intermediários por forma a evitar o reflexo no preço final. Com isso, garantimos um dos nossos lemas que é a segurança alimentar e nutricional a um preço justo”, diz Monteiro, lembrando que toda a produção da Ecofarm Cabo Verde é 100% orgânica. 

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Exportação 

Enquanto não têm uma loja própria, e porque ainda se encontra em fase de teste, este accionista admite que a empresa tem vendido os seus produtos agrícolas a terceiros, designadamente feijões, mandioca e outras leguminosas. “A nossa perspectiva inicial era produzir uma tonelada de mandioca por ano, por exemplo. Hoje percebemos que podemos chegar a três toneladas. Destes, decidimos canalizar uma parte para as comunidades, em especial nos Estados Unidos onde já temos um esquema logístico montado para iniciar a exportação. Os nossos produtos vão ser vendidos em uma grande superfície pertencente a um cabo-verdiano. Já fizemos o nosso registo no FDA e agora estamos a trabalhar as especificidades técnicas para os nossos produtos entrar nos EUA, tendo em conta que são extremamente exigente”, observa. 

Outra parte da produção, revela, será comercializado no mercado interno. Neste caso, apesar dos pedidos recebidos de Santiago, Sal e Boa Vista, a empresa debate-se com o problema do embargo que, de acordo com Monteiro, tem vindo a atrapalhar a expansão da agricultura de Santo Antão e o abastecimento do mercado com produtos de qualidade. “Com os investimentos que estamos a fazer, pensamos produzir todas as especies de verduras, leguminosas e frutas. Temos uma área especifica para trabalhar um pomar com mangueiras, abacateiro, papaieira, bananeira e demais frutos típicos do país. Há ainda a possibilidade de reintroduzir, em regime de teste por conta do clima da localidade, os citrinos. Também temos a parte da cana sacarina para a produção de agua ardente”, detalha.  

Todo o trabalho vem sendo feito por uma família mas, com a expansão, Monteiro já equaciona o recrutamento de mais trabalhadores, principalmente na área da produção gota-gota. Mas reconhece que, dificilmente, irão massificar a mão-de-obra, tendo em conta a aposta na tecnologia. “Não queremos limitar o número de trabalhadores. Queremos sim criar um sistema de formação de jovens nesta área. Foi neste sentido que, recentemente, assinamos um protocolo com a UTA para permitir que os estudantes façam a pratica agrícola na propriedade. Vão trabalhar talhões com, no mínimo, 1500 metros quadrados para cada tipo de cultura, usando um sistema de rotação.Temos também a preocupação de, junto com a universidade, apoiar a pesquisa agrária, sendo que, para o efeito, sinalizamos uma área com 1.500 m2”, informa, realçando que o processo será liderado pelo professor Júlio Lima, Engenheiro-Agrícola no Ramo Científico Tecnológico; Doutor e Investigador Sénior Independente na Área das Ciências Agrárias Ambientais (Univ Évora) com três décadas de experiência e, que tem acompanhado este projecto desde Portugal e veio agora para Cabo Verde trabalhar in loco.

Investir e reinvestir 

Confiante, Lucas Monteiro garante que este é somente o primeiro empréstimo que a Ecofarm Cabo Verde pretende fazer e que deverá ascender a um total de seis mil contos no decorrer dos próximos anos. “Estamos a avançar com uma primeira trancha de 1.500 contos para para construir o reservatório e não sufocar a tesouraria de empresa. Mas já tínhamos gasto outros 1.500 em infraestrutura gota-gota. No tal, já investimos metade do valor previsto, ou seja, três mil contos. Mas, posteriormente, vamos continuar a investir. Aliás, a nossa politica é o reinvestimento, sendo que parte do lucro será investido e outra usado para garantir a sustentabilidade da empresa”,  explica. 

Enquanto isso, a empresa está a aproximar de instituições como o PNUD e a FAO e assinar protocolos com outras, caso do Instituto de Ciências e Tecnologias Agrárias de Santo Antão (UTA) e a Universidade do Espirito Santo no Brasil, que lidera o projecto de instalação da tecnologia acoplado a rega gota-gota de transmissão de dados. Trata-se, afirma, de uma tecnologia ainda em fase experimental, conhecida até agora apenas em poucos países e, agora vai ser usada em Cabo Verde. “É uma tecnologia chamada de LoRaWan – O termo LoRaWAN advém da junção de LoRa, da expressão em inglês ‘Long Range’ (longo alcance) com WAN (Wide Area Network – rede de longo alcance). A utilização desta tecnologia é diversa, podendo ser aplicada em várias aplicações, garantindo sempre um baixo custo de manutenção e elevada segurança. Uma das principais vantagens da Lora é permitir a comunicação a longas distâncias, com um consumo mínimo de energia. A utilização deste protocolo de comunicação apresenta um vasto conjunto de benefícios que permitirá, não só utilizar uma tecnologia mais avançada e segura, mas também reduzir consumos energéticos. É uma tecnologia amiga do ambiente porque não exige grandes infraestruturas, o que vai ao encontro da nossa filosofia.”

Concluída a infra-estruturação da propriedade em Santo Antão e com o inicio da produção em larga escala, o próximo desafio é rentabilizar um terreno com de 1,5 hectares em Mato Inglês pertencente aos accionistas da Ecofarm, mas que Lucas Monteiro espera aumentar para pelo menos três hectares. 

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Constanca Pina

Formada em jornalismo pela Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ). Trabalhou como jornalista no semanário A Semana de 1997 a 2016. Sócia-fundadora do Mindel Insite, desempenha as funções de Chefe de Redaça6o e jornalista/repórter. Paralelamente, leccionou na Universidade Lusófona de Cabo Verde de 2013 a 2020, disciplinas de Jornalismo Económico, Jornalismo Investigativo e Redação Jornalística.

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