Dia do Município de SV: PAICV e UCID voltam a levantar a bandeira da Regionalização em declarações direcionadas ao Chefe do Governo

Os líderes das bancadas municipais do PAICV e da UCID voltaram a levantar a bandeira da Regionalização nas suas intervenções no quadro da celebração ontem, dia 22, dos 564 anos do Município de S. Vicente. Após abordarem a calamidade que assolou a chamada ilha do Monte Cara com a tempestade Erin, e enaltecerem a resposta da população residente e fora do país para acudir as famílias afectadas, tanto Nilton César Silva quanto Anilton Andrade aproveitaram a presença do Primeiro-ministro para lembrar a promessa feita em 2016 da Regionalização/Descentralização de Cabo Verde.
Já na recta final do seu discurso, o eleito do PAICV frisou que não poderia deixar de afirmar que São Vicente clama urgentemente por um modelo de descentralização e regionalização que permitirá à ilha dar o salto que “tanto precisa” e seja dona do seu próprio destino. “Não podemos esperar mais. Neste dia do município não celebramos apenas o passado, renovamos o nosso compromisso com o futuro”, reforçou Nilton Silva, para quem SV almeja ser uma ilha de oportunidades, justiça social e desenvolvimento sustentável e não mártir, como, na sua visão, tem acontecido.
Sobre a situação provocada pelo temporal, salientou que, passados seis meses, já era altura de os cabo-verdianos conhecerem qual o plano de reconstrução elaborado para S. Vicente. Na sua perspectiva, é urgente fazer uma correção torrencial a montante das bacias hidrográficas que circundam Mindelo e ainda a construção e o desassoreamento de diques, assim como de tanques de retenção de água.
O PAICV pede um olhar mais humano para as periferias, como Vila Nova, Cruz de Papa, Espia, Cabo da Ribeira, Chã de Alecrim, Bela Vista, Craquinha… O líder da bancada municipal do referido partido entende que S. Vicente precisa de um quarto plano sanitário, mas também de sérios investimentos noutros sectores.
O discurso do representante da UCID foi numa linha muito parecida. Os democratas-cristãos enfatizaram que o povo de São Vicente exige mais e melhor e sublinharam que, apesar da promessa feita em 2016, o Governo ainda não arranjou coragem para concluir o projecto de Regionalização. “Respeitar as aspirações e comprometer-se com o desenvolvimento do município significa dar autonomia à ilha”, pontuou Anilton Andrade. O líder da bancada da UCID na AMSV vincou que o futuro de S. Vicente deve ser decidido dentro da ilha.
Celebrar o aniversário do município, segundo Andrade, exige também olhar de frente para a realidade de S. Vicente, reconhecer os problemas, assinalar os atrasos no desenvolvimento e assumir compromissos sérios com o futuro. A UCID reconhece, segundo esse porta-voz, que há uma distância crescente entre o enorme potencial de São Vicente e as condições reais da vida de muitos cidadãos. Uma distância que, diz, é sentida nas várias ruas sem saneamento básico adequado, nas comunidades sem acesso digno, no crescimento urbanístico desorganizado e sem planeamento, nas famílias que vivem em habitação precária, nos pequenos empresários que lutam para manter os seus negócios abertos, mas, sobretudo, nos jovens sem oportunidades.
Anilton Andrade, que avançou a proposta de se baptizar a praceta Don Luiz com o nome da diva Cesária Évora, referiu que a juventude é um grande activo de S. Vicente, mas que vem abandonando a ilha devido a escassez de oportunidades de emprego e de empreendedorismo. Esta realidade, salienta, não é fruto do acaso, pois resulta de más opções políticas, falta de planeamento consistente e de uma governação que muitas vezes reage em vez de antecipar e que anuncia em vez de executar.
Enquanto líder da bancada do MpD, António Rodrigues prestou homenagem à população da ilha de S. Vicente que, ao longo dos séculos, tem demonstrado resiliência, criatividade perante cada desafio. Na sua óptica, o momento vivido hoje exige balanço, mas sobretudo avaliação, reflexão e ação estratégica porque o futuro pede respostas sólidas para garantir a estabilidade das famílias e das gerações vindouras, num contexto provavelmente marcado por rápidas e emergentes transformações económicas, sociais e jurídico-políticas.
António Rodrigues enalteceu a aprovação do Plano de Actividades e Orçamento da CMSV, instrumentos que, diz, permitiram mobilizar recursos financeiros para a aquisição de equipamentos para as obras de reasfaltagem da cidade e arredores, adequação da rede de esgotos e reconstrução de diques. Intervenções que, diz, levaram a autarquia a recorrer a um empréstimo de 400 mil contos, “medida responsável e alinhada com urgência da reconstrução pós-tempestade”, para também permitir a compra de equipamentos como caminhões, bulldozer…
Apesar das divergências naturais entre o MpD, PAICV e UCID, o referido líder municipal salienta que têm demonstrado a maturidade da democracia em S. Vicente. Um exemplo disso, prossegue, foi a aprovação do Plano de Actividades e Orçamento da CMSV, tendo enaltecido a postura da UCID na votação destes instrumentos. Por outro lado, elogiou a “liderança experiente, firme e esclarecedora do Executivo Municipal”, que, nas suas palavras, apresentou um PAO bem fundamentado, articulado e com metas mensuráveis.
A par das empresas, associações, instituições e iniciativas da sociedade, que ajudaram a enfrentar a calamidade provocada pela tempestade Erin, Rodrigues salientou a “colaboração valiosa” do Governo, que, entre outras medidas urgentes, aprovou no dia 12 de agosto de 2025 o Plano Estratégico de Resposta e Recuperação de S. Vicente. Medida que visou garantir “providências complementares e auxiliares” às ações municipais, nomeadamente apoio económico, reposição das condições de vida e mobilidade, através da reparação de estradas, fornecimento de água, gás e eletricidade, abertura de escolas, restabelecimento de espaços comerciais, transportes públicos… Na sua óptica, as pessoas valorizam hoje os apoios recebidos da Câmara Municipal e do Governo e estão confiantes de que as ajudas prometidas pelos parceiros internacionais chegarão a todas as famílias.
António Rodrigues conclui que a tempestade deixou marcas dolorosas, mas também lições valiosas. Uma delas é que a liderança política deve ser um instrumento de união, não de divisão.






