Pub.
Pub.
Atualidade
Tendência

Crónica: Alegações contra ex-ministro exigem apuramento rigoroso dos factos 

As graves denúncias feitas ontem no Parlamento, segundo as quais um deputado acusou o ex-ministro da Família, Fernando Elísio Freire, de ter distribuído milhares de contos a várias pessoas nas vésperas das eleições legislativas, exigem um esclarecimento por parte das autoridades competentes. A líder da bancada do PAICV, reforçou a denuncia, realçando que mais de 700 mil contos foram gastos em cestas básicas e que diversas dotações orçamentais foram praticamente esgotadas antes do período eleitoral.

De forma contundente, Carla Lima afirmou que o novo Governo herdou um país com fragilidades em diversos sectores, apesar do crescimento económico registado nos últimos anos, acusando ainda o anterior executivo, liderado pelo MpD, de ter utilizado recursos públicos com fins eleitorais. A deputada criticou o discurso do líder parlamentar do MpD, considerando que esteve “marcado por ofensas” e por uma postura pouco compatível com o debate parlamentar.

Publicidade

Em termos concretos, referiu que, no plano económico, reconheceu que Cabo Verde registou um crescimento de 6,3% em 2025, mas esse desempenho não se refletiu na melhoria das condições de vida da maioria da população. Explicou que, entre Janeiro e Junho de 2026 foram executados cerca de 70% das verbas anuais destinadas a benefícios sociais e apoio habitacional, situação que, na sua perspetiva, demonstra a utilização de recursos públicos com objetivos eleitorais.

Por exemplo, informou que 700 mil contos foram gastos na distribuição de cestas básicas e que várias dotações orçamentais ficaram esgotadas antes das eleições. Apesar de reconhecer que apoiar as famílias é uma responsabilidade do Estado, considerou que a concentração desses apoios no período pré-eleitoral procurou transformar a vulnerabilidade social em vantagem política.

Publicidade

Na área social, citou estimativas do Banco Mundial para sustentar que uma parte significativa da população que continua em situação de vulnerabilidade económica. Destacou ainda a situação das trabalhadoras domésticas, afirmando que a maioria permanece sem cobertura da Segurança Social.Sobre a juventude, Carla Lima referiu um estudo do Instituto Nacional de Estatística segundo o qual 64,6% dos jovens manifestam intenção de emigrar, indicador que, na sua leitura, revela falta de confiança nas oportunidades oferecidas pelo país.

No sector da educação, criticou a redução do investimento público em percentagem do Produto Interno Bruto, a reorganização dos agrupamentos escolares e a diminuição do número de estudantes no ensino superior face aos níveis registados há mais de uma década. A deputada apontou ainda dificuldades persistentes nos transportes interilhas, referindo atrasos, cancelamentos frequentes e elevados custos das ligações aéreas e marítimas, apesar dos recursos públicos investidos no sector. Já na saúde, reconheceu os investimentos realizados em infraestruturas, mas afirmou que continuam a existir problemas de planeamento, fiscalização e gestão, bem como dificuldades no acesso aos cuidados médicos, falhas no abastecimento de medicamentos e ausência de progressos na concretização do Hospital Nacional.

Publicidade

Perante a gravidade destas alegações feitas pelo eleita nacional tambarina, é expectável que o Ministério Público avalie os factos e determine se existem elementos que justifiquem a abertura de uma investigação, atuando com a celeridade, imparcialidade e transparência que a situação exige. Da mesma forma, espera-se um pronunciamento do Procurador-Geral da República sobre o assunto, caso se revele oportuno no âmbito das suas competências.

Também se aguarda um posicionamento por parte do Governo e do PAICV, contribuindo para o esclarecimento dos factos e para o reforço da confiança dos cidadãos nas instituições. Num Estado de direito democrático, todas as denúncias de eventual relevância criminal ou de interesse público devem ser tratadas com o mesmo rigor, independentemente das pessoas envolvidas. A justiça deve atuar de forma imparcial, garantindo igualdade de tratamento perante a lei, sem exceções nem privilégios.

 

Mostrar mais

Constanca Pina

Formada em jornalismo pela Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ). Trabalhou como jornalista no semanário A Semana de 1997 a 2016. Sócia-fundadora do Mindel Insite, desempenha as funções de Chefe de Redação e jornalista/repórter. Paralelamente, leccionou na Universidade Lusófona de Cabo Verde de 2013 a 2020, disciplinas de Jornalismo Económico, Jornalismo Investigativo e Redação Jornalística. Atualmente lecciona a disciplina de Jornalismo Comparado na Universidade de Cabo Verde (Uni-CV).

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo