O candidato Lula da Silva protagonizou uma virada surpreendente no segundo turno das eleições para a presidência do Brasil, com uma mobilização sem precedentes de milhões de eleitores que garantiu este domingo o seu quarto mandato e, consequentemente, a derrota do opositor Flávio Bolsonaro. A manutenção do ex-sindicalista no poder representa, segundo a imprensa internacional, um bloqueio ao crescimento exponencial da extrema-direita na América Latina e uma derrocada nas pretensões de Donald Trump de alcançar acordos vantajosos para os Estados Unidos de exploração das “terras raras” brasileiras.
Lula saiu de uma desvantagem de 2,2 milhões de votos no primeiro turno a favor da candidatura da extrema-direita para um salto positivo de 4,4 milhões no segundo embate. Uma soma de 6,6 milhões de votos de diferença entre os candidatos de esquerda e de direita. Concluída a contagem das urnas, o ex-sindicalista obteve 64.256.232 votos – equivalentes a 51,79% – contra 59.826.041 de Flávio Bolsonaro.
Concluído o primeiro turno, Flávio Bolsonaro começou a cantar vitória. Porém, a máquina política de Lula da Silva entrou em ação com uma potência e estratégia impressionantes, com a presença de centenas de milhares de pessoas em cada evento público. Outro terreno explorado pela candidatura foram as redes sociais, no entanto com fortes críticas à actuação da empresa Meta – proprietária das plataformas Facebook e Instagram – que chegou a derrubar vídeos críticos ao candidato Flávio Bolsonaro.
Nos discursos, entrevistas e no debate televisivo, o petista usou bastas vezes como cartadas as fortes suspeitas do envolvimento de Flávio Bolsonaro com o crime organizado, especificamente com as milícias e com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, actualmente preso. Além disso, Lula alertou os brasileiros para o perigo da perda da soberania do Brasil para os Estados Unidos, caso Flávio Bolsonaro fosse eleito, e a forte possibilidade de o candidato da extrema-direita privatizar a maioria das universidades públicas do país.
O jornal Globo.com adianta que a vitória de Lula da Silva foi resultado de uma combinação dos seguintes factores: mais eleitores nas urnas, menos votos brancos e nulos, crescimento da votação do petista em todos os Estados e perda de votos de Flávio Bolsonaro (PL) em parte do país. A abstenção caiu de 21,08%, no primeiro turno, para 19,21% no segundo, o que resultou na ida às urnas de mais 2,83 milhões de eleitores.
Porém, Flávio Bolsonaro reagiu imediatamente e rejeitou o resultado das urnas. Classificou o veredicto de “sacanagem” e sublinhou que vai exigir a anulação do pleito devido a prorrogação do tempo de votação em duas horas, por causa da paralização de dezenas de autocarros destinados ao transporte gratuito de eleitores. Para ele, esta medida, tomada pelo ministro Cristiano Zanin, membro do Supremo Tribunal Federal, é inexplicável.
“O que aconteceu hoje não foi algo normal, foi inclusive inaceitável. Um ministro da Suprema Corte, pela primeira vez na história, ex-advogado do Lula, dá uma canetada a pedido de um ex-sócio dele e muda a regra do jogo no meio do jogo. Às 17:01 o ministro Zanin, que não faz parte do Tribunal Superior Eleitoral, atropelando a justiça especializada, toma uma decisão prorrogando por duas horas as eleições. Isso nunca tinha acontecido na história do Brasil“, disse o filho do ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro, que atacou durante a campanha a capacidade do governo de Lula de resgatar a economia brasileira.
No entanto, logo após o resultado, o ministro Kassio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), afirmou que tem “absoluta segurança de todo o processo eleitoral”.
Lula da Silva foi o candidato mais votado no segundo turno nos países da emigração brasileira, incluindo Cabo Verde, onde obteve 48 votos (62,3%), contra 29 de Flávio Bolsonaro. No primeiro turno, Lula chegou a receber 39 votos e Flávio 29. Vários países já endereçaram os parabéns a Lula da Silva, incluindo China, Chile, Bolívia, Paraguai, México, Equador, Peru, Canada, Cuba e de governos europeus como França e Espanha.






