Silas Leite
Políticos, disse eu! Fora desse plano, nada tenho a apontar às figuras públicas Paulo e Carlos Veiga. Tanto assim é que, em diferentes ocasiões, cumprimentei respeitosamente o primeiro, durante o período em que esteve em São Vicente, e fiz o mesmo com o segundo. A este último, cheguei mesmo a tentar prestar auxílio: encontrando-se um pouco mais atrás na fila do check-in, falei com o funcionário para que lhe fosse permitido avançar. Mas, passemos aos factos políticos, tal como os vivi e interpretei.
Carlos Veiga poderá ter sido descrito por um Presidente da República como o “champion” da democracia — mas será essa designação inteiramente justificada? É inegável que, enquanto chefe do Governo, entre 1991 e 2000, alcançou resultados que muitos consideram relevantes, rodeando-se, segundo a sua própria expressão, de “homens de primeira”. Ainda assim, a minha avaliação da sua atuação é bastante diferente, sobretudo no que respeita à administração do setor marítimo.
Em 1995, durante uma visita à ilha do Sal, Carlos Veiga terá afirmado que a delegação marítima que eu dirigia deveria ser elevada à categoria de capitania, tendo em conta o crescimento do turismo e a sua relação direta com a atividade marítima e a orla costeira. Em março de 1998, quando eu já tinha sido afastado das minhas funções, voltou à ilha e visitou as instalações que serviam de sede à delegação marítima. Segundo recordo, reconheceu então que o serviço estava mal instalado e dispunha de poucos recursos.
Apesar dessas constatações, até ao final do seu mandato não vi concretizada qualquer medida que correspondesse à intenção anunciada. A situação permaneceu praticamente inalterada, enquanto algumas pessoas que passaram por aquele serviço acabaram por desistir perante condições que, na minha perspetiva, constituíam uma verdadeira armadilha profissional.
A realidade da delegação marítima de Santo Antão pareceu-me, porém, bastante diferente. Sob a direção de alguém que eu considerava próximo de Carlos Veiga e militante do seu partido, foram criadas instalações, condições de trabalho e alojamento que me pareciam adequadas ao exercício das funções. O contraste com a situação que vivi no Sal levou-me a questionar os critérios usados na distribuição de recursos e oportunidades.
Não acredito que pudesse ter beneficiado de condições semelhantes, pois não me revia — nem me revejo — nas opções políticas que, a meu ver, contribuíram para a insegurança e para o enriquecimento de alguns à custa de outros cidadãos, muitos deles remetidos para situações de pobreza extrema. Esta é a minha leitura dos efeitos de determinadas escolhas políticas, e assumo-a como tal.
No início da governação, em 1991, ficaram-me na memória expressões atribuídas a Carlos Veiga, como “polícia ka podê dá ku pó” e “pedra ka ta mistura ku garrafa” e a referência à necessidade de “criar um grupo de homens de primeira”. Recordo-as porque, na minha interpretação, ajudam a compreender a visão de sociedade e de poder que estava em causa. Para mim, alguns dos problemas que hoje persistem no país parecem confirmar os receios que então formulei.
Passemos agora a Paulo Veiga. Enquanto Secretário de Estado da Economia Marítima e, posteriormente, Ministro do Mar, reuni-me com ele em 2018 e 2021, na qualidade de presidente da Escola de Natação e de Salvamento Aquático “Nhô Fula”. Tivemos conversas no seu gabinete e, mais tarde, na sede da ENAFSALVA, sobre possíveis parcerias na área da segurança aquática, a construção de piscinas oceânicas e outras iniciativas relacionadas.
Na minha avaliação, essas conversas não produziram a parceria abrangente que eu esperava. O resultado mais visível foi a piscina oceânica da praia da Laginha, cuja concretização considero ter ocorrido num contexto de forte exposição pré-eleitoral, marcado por anúncios, lançamentos de primeiras pedras e colocação de boias no mar. Redigi e enviei ao gabinete do governante uma proposta de protocolo de parceria, mas, tanto quanto sei, o documento nunca chegou a ser validado.
Não pretendo, com este testemunho, substituir a análise dos factos por ataques pessoais. Procuro, antes, registar a minha experiência e deixar claras as razões da minha desconfiança em relação às opções políticas que associo aos dois responsáveis. As minhas críticas dizem respeito ao exercício de funções públicas, às prioridades que observei e às promessas que, do meu ponto de vista, ficaram por cumprir.
Moral da história: enquanto cidadão de um país que continua a precisar de respostas para as profundas assimetrias sociais e económicas, não consigo depositar confiança política nos Veiga. A minha confiança na sua capacidade de corresponder às expectativas que criei é, neste momento, praticamente nula.







