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O fascínio da diplomacia e os mandamentos da política externa

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David Leite

Na sua actual deslocação aos Estados-Unidos da América, o Primeiro-Ministro fez-se acompanhar da sua esposa, mas a expensas próprias como deixou bem claro para os que duvidavam. “EU paguei a passagem da minha esposa”, disse publicamente. O que me pareceu estranho, muito estranho, foi ver a esposa do PM sentada no espaço reservado à delegação de Cabo Verde na AGNU, atrás do marido.

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Dito isto, não me ocorre melhor comentário do que congratular-me que a viagem da segunda “primeira-dama” tenha sido à custa do marido, sem dispêndio para o erário público. E não se veja nisso nada de outro mundo. Estamos é acostumados a certas práticas da governação que não deveriam acontecer. Por exemplo, viajar por tudo e por nada – e sobretudo, por nada – porque os nossos governantes sofrem de um mal até agora incurável: a síndrome do avião! Num artigo que publiquei há ano e meio, chamava a atenção para certas missões de Estado e “de serviço” de pouca ou nenhuma valia, a não ser para os próprios viajantes.

É óbvio, no caso em presença, que o PM agiu bem, sabendo que os cônjuges não se incluem nas delegações oficiais acreditadas à Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU). Ou seja, a visita da esposa não tinha carácter oficial. Vem a propósito lembrar uma missão do ex-PM Ulisses Correia e Silva à China, acompanhado da esposa, para participar no Fórum de Cooperação China-África (salvo erro, em 2024). O governo viu-se obrigado a emitir um comunicado esclarecendo que a viagem da esposa foi a convite e a expensas do governo chinês, sem dispêndio para o erário público cabo-verdiano.

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Retomo a longa e demorada visita de trabalho do PM que nunca mais acaba, a desenrolar-se em dois tempos bem distintos: após o discurso na AG da ONU, o Chefe do Governo encetou encontros com os caboverdeanos nos States. E esteve muito bem na companhia da sua esposa, até aí nada a comentar.

O que me pareceu estranho, muito estranho, foi ver a esposa do PM sentada no espaço reservado à delegação de Cabo Verde na AGNU, atrás do marido. Confesso que fiquei sem perceber qual era o seu papel. Note-se que estamos a falar do mais importante forum da diplomacia mundial, com delegações nacionais formalmente acreditadas e questões de geopolítica no Debate Geral (leia-se declarações formais, não há debate nenhum!) Lá não há esposa ou marido, e não me parece que algum PM ou PR se avisaria de levar a sua mulher só para aparecer na fotografia!

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Ou talvez sim – alguns! E eu a pensar: se calhar foi um momento instantâneo como a fotografia, já que o lugar reservado aos cônjuges dos chefes de Estado ou de Governo é na área VIP, segundo o Protocolo da ONU. Estou a ver a senhora aproveitando um coffee break para ir dar uma falinha ao marido, um fotógrafo passando, uma pose e um instantâneo, na hora.

Dou comigo a pensar que foi assim… porque de outro modo, uma esposa de PM ou PR ficaria mal na fotografia, como ficaria mal na comitiva só por ser a esposa do PM! Com efeito, não é preciso ser funcionário do Protocolo onusiano para saber quem ocupa os seis lugares reservados aos Estados-Membros na AGNU. Além do PR ou do PM (que habitualmente chefia a delegação), o que eu vejo, por ordem de precedência, é o MNE, o embaixador de Cabo Verde nos EUA, algum diplomata em conexão com os trabalhos (os chamados “focal points”)… Ocorre-me pensar na conferência geral da UNESCO (em que participei anos seguidos), que respeita o mesmo figurino, mais coisa menos coisa.

Aos agressores de serviço vou desde já dizendo que não estou “com dor”, que estou bem e não tenho inveja de ninguém. Só vim lembrar que em diplomacia há regras e protocolos, e que devem ser levados a sério.

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Kimze Brito

Jornalista com 30 anos de carreira profissional, fez a sua formação básica na Agência Cabopress (antecessora da Inforpress) e começou efectivamente a trabalhar em Jornalismo no quinzenário Notícias. Foi assessor de imprensa da ex-CTT e da Enapor, integrou a redação do semanário A Semana e concluiu o Curso Superior de Jornalismo na UniCV. Sócio fundador do Mindel Insite, desempenha o cargo de director deste jornal digital desde o seu lançamento. Membro da Associação dos Fotógrafos Cabo-verdianos, leciona cursos de iniciação à fotografia digital e foi professor na UniCV em Laboratório de Fotografia e Fotojornalismo.

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