– Emanuel Spencer –
Ontem, no Aeroporto Internacional Cesária Évora, aproximei-me, pela primeira vez, da estátua da Cize e descobri algo que me deixou profundamente triste e indignado.
Na placa colocada junto à estátua encontra-se inscrito um excerto da morna que Cize, com arranjos de Paulino, levou pelo mundo e ajudou a fazer com que Cabo Verde passasse também a fazer parte de um mundo globalizado. Mas, nesse excerto, cuja letra diz “Sodad d’nha Terra Saninclau”, alguém decidiu escrever “Sodade dês nha Terrra Cabo Verde”.
Fiquei parado por alguns instantes, de olhos embaciados, a olhar p aquelas palavras e a sentir a crueldade do que ali estava escrito, pois percebi que não se tratava de uma simples troca de nomes, mas de renegar uma ilha e apagar parte da sua memória. Aquela morna nasceu de uma dor concreta, de uma partida concreta, de uma ilha concreta. É um choro de emigração e carrega consigo sodad de uma terra que tem nome. E esse nome é Saninclau.
Nunca antes tinha reparado naquele erro, porque nunca me tinha aproximado suficientemente da estátua. Também aqui confesso uma mágoa antiga. Sempre achei que Cize, incluindo os seus célebres pés descalços, merecia ser mais bem esculpida naquele lugar, à altura da mulher extraordinária que levou Cabo Verde pelo mundo.
Mas ontem aproximei-me, e o que li na placa magoou-me ainda mais do que aquilo que, até então, apenas de longe tinha visto na estátua. Por momentos, senti que Saninclau já não estava apenas isolada. Senti que Saninclau tinha sido apagada. Apagada da memória e de um refrão que, na voz da Cize, ecoou pelo mundo inteiro.

Saninclau já sofre demasiado com o isolamento porquê tem também de sofrer com o esquecimento. Uma ilha abandonada pode perder habitantes, pode ter menos voos, menos barcos e menos peso nas estatísticas nacionais. Mas não pode ter menos direito à sua memória.
Por isso, vou procurar mobilizar os sanicolaenses residentes em Soncente e solicitar uma audiência ao Senhor Ministro dos Transportes e do Mar, pedindo a sua intervenção junto da entidade responsável para que a inscrição seja corrigida e devolvida a Saninclau aquilo q nunca deveria ter-lhe sido retirado.
Sinto-me esperançoso porque o nosso atual Ministro tem uma forte costela da Praia Branca, terra da sua avó e onde esta morna, em forma de choro e sodad, tem profundas raízes na memória coletiva. Acredito assim que essa costela o fará compreender a dor que nós sentimos e perceber que não estamos a discutir apenas algumas letras gravadas numa placa. Estamos a defender memória, identidade e respeito por uma ilha, a ilha da sua avó.
Gostaria de aproveitar para tentar sossegar as gentes de Saninclau, partilhando uma intuição que me tem acompanhado e alimentado a esperança nos últimos dias: “sinto crescer um forte espírito de união entre os sanicolaenses, de fora para dentro da ilha, que me faz acreditar que, juntos, e com este Ministro e este Governo, vamos finalmente conseguir encontrar uma solução para o problema da conectividade da nossa terra”.
Mas, até lá, serão outras cantigas e muito mar revolto teremos ainda de atravessar. Para já, importa não continuarmos calados enquanto vemos a nossa terra Saninclau ser empurrada para o esquecimento, porque uma ilha só desaparece verdadeiramente quando aqueles que a amam deixam de pronunciar o seu nome.
E nós, sanicolaenses e descendentes de sanicolaenses, nunca deixaremos de pronunciar “Saninclau” e de sentir orgulho quando a voz da Cize, cantando “Sodad d’nha terra Saninclau”, faz despertar, em todos os cabo-verdianos, saudades de nôs terra Cabo Verde.







