– Nelson Faria –
Há sinais no universo e acontecimentos nas nossas vidas que nos agarram pelos ombros e nos obrigam a não perder a memória. Muito menos aquela memória que ainda se sente, ainda recente, ainda tão presente e entranhada no nosso quotidiano.
Acordei hoje de madrugada, o silêncio da noite ainda pesado no quarto, e olhei para o meu relógio de pulso. Marcava 2:48 da manhã. Senti um alívio momentâneo e murmurei para mim mesmo: “Que bom, apesar de ter dormido muito bem, ainda tenho mais duas horas e meia de sono”. Fechei os olhos e deixei-me levar de novo.
No entanto, mal me deitei, o silêncio foi quebrado. Da sala, escutei o som inconfundível do despertador, aquele lembrete de segurança que programo sempre para as 5:30 da manhã. Confuso, ergui o pulso novamente. O visor continuava fixo, inabalável, 2:48 da manhã. Como foi possível?
Pela primeira vez em três anos, o meu relógio tinha parado. Achei estranho. Estava carregado, funcionava com a precisão habitual. Por que razão teria o tempo congelado naquele exato minuto? Levantei-me, coloquei-o no carregador e, como se nada tivesse acontecido, o visor iluminou-se e voltou à vida normal.

Foi então que fui verificar a data de hoje. 11 de agosto.
Um arrepio percorreu-me. Pensei: “Se calhar, não há coincidências”.
Lembrei-me, o que estava eu a fazer no dia 11 de agosto de 2025, exatamente às 2:48 da manhã? A resposta emergiu de forma instantânea e brutal. Eu e a minha esposa estávamos exaustos, numa luta inglória contra a força da natureza, a retirar uma enormidade de água que nos tinha invadido a casa com a fúria da tempestade Erin. Na sala, os nossos filhos permaneciam acordados, assustados com o rugir do vento, trovoada e da água, ainda longe de compreendermos a dimensão e a enormidade dos estragos que nos cercavam.
O amanhecer daquele 11 de agosto foi o que foi. Com a luz do dia veio a visualização nua e crua da destruição e a confrontação com o desespero de muitos. O cenário era desolador, particularmente para aqueles que, na fúria das águas, perderam familiares e entes queridos. Foi doloroso de ver. Foi doloroso de sentir. São Vicente tinha sofrido um duro golpe, ferida aberta por um evento atmosférico anormal nestas nossas bandas.
Entretanto, no meio da tristeza, do cansaço extremo e da dor profunda, algo maior se ergueu. A união, a solidariedade e a ação imediata determinaram aquilo que sempre fomos: resilientes e capazes. Foi o mérito inegável das nossas gentes, de todos os envolvidos, tanto dentro como fora do país. Tornámo-nos, naquele período, um exemplo de união excecional.
É graças a essa força coletiva que conseguimos dizer hoje que recuperámos, de alguma forma, do trauma daquele acontecimento. Não como desejaríamos, certamente, pois as cicatrizes permanecem, mas com a esperança firme de que é possível ir mais além da mera cosmética e da simples reposição do que foi destruído.
Vivemos tempos de alterações climáticas. Na eventualidade de outros fenómenos, estamos cientes de que nada podemos fazer para controlar a força indomável da natureza. Contudo, cabe-nos a nós, sim, estarmos preparados. Preparados para minimizar eventuais estragos, preparados para proteger a vida e cuidar das pessoas perante eventos desta magnitude.
Que o meu tempo tenha “parado” hoje às 2:48 sirva de lembrete. Que a memória do 11 de agosto não se perca como aprendizado. Que não se perca o valor inestimável da união e da solidariedade. Acima de tudo, que não se perca o conforto, o abraço e a empatia para com as famílias que sofreram a maior e mais irreparável das dores, a perda humana.
Há memórias que o tempo não pode, nem deve, apagar.






