
Depois de mais de três décadas a interpretar a música cabo-verdiana em palcos nacionais e internacionais, Guy Lizardo prepara-se para concretizar um sonho antigo: gravar o seu primeiro CD. A cantora, residente em França, revelou ao Mindelinsite que recebeu um convite do músico e produtor Humberto Ramos para gravar em Portugal, desafio que diz estar seriamente inclinada a aceitar. “Quero deixar um registo da minha longa carreira nos palcos. O Humberto Ramos desafiou-me a viajar para Portugal para gravarmos algumas músicas e está à minha espera. Estou muito motivada e acredito que chegou o momento de aceitar este desafio”, afirmou.
De férias em Cabo Verde, Guy Lizardo anunciou que voltará a atuar na Marina do Mindelo, num concerto previsto para depois do Festival da Baía das Gatas. Será a terceira atuação naquele espaço, onde também participou em espetáculos anteriores. A cantora explicou que o convite surgiu de forma espontânea, através de uma amizade criada com uma comerciante da Marina. “Ela conhecia-me das vezes em que lá ia beber um copo e comer uns croquetes. Um dia convidou-me para cantar e acabou por nascer um espetáculo muito bonito”, contou, referindo que, numa destas dessas atuações, interpretou a morna “Marina” e teve como convidado Tito Paris, artista que, segundo diz, aprecia a sua forma de cantar.
Embora nunca tenha gravado um CD, a cantora considera que o seu maior património artístico é o vasto repertório que acumulou ao longo dos anos. “O meu forte é o repertório. Nunca precisei de escrever as letras. Ouço uma música, se gostar, ela fica na minha memória. Procuro decorar a letra, mas sobretudo a melodia”, explicou, esta cantora, que foi levado para França aos 22 anos, por Djô da Silva, na altura empresário de Cesária Évora, em 1993 e decidiu ficar e tentar a sua sorte.
Apaixonada pela diversidade, interpreta mornas, coladeiras, bossa nova, fado e até ópera. Defende, antes de tudo, composições com qualidade poética. “Uma música tem de ter poesia. Se a letra não for rica, dificilmente me inspira enquanto cantora.” Entre os compositores cabo-verdianos que mais aprecia estão Manuel d’Novas, Ty Goy, Teófilo Chantre e Tó Alves, de quem destaca temas como Dois Pombinha e Nos amizade é doce.
Os Salesianos e Cesária Évora marcaram o início da carreira
Guy Lizardo começou a cantar ainda criança, nos Salesianos de Mindelo, interpretando música religiosa. Recorda com gratidão o padre Cristiano, que lhe ensinou a primeira morna, “Criolinha de lindo olhas”. “A maior parte dos grandes artistas cabo-verdianos passou pelos Salesianos. A música da Igreja exige muita disciplina vocal e acaba por formar grandes cantores”, afirmou.
Na adolescência, passou a frequentar a casa de Cesária Évora, de quem recebeu um forte incentivo artístico. “Eu e Fantcha éramos inseparáveis. A Cesária incentivou-me muito e acompanhei-a em vários concertos em São Vicente. Foi uma das pessoas que mais acreditou em mim.” A artista lembra ainda as participações nos antigos saraus culturais dos Salesianos e em espetáculos históricos realizados no Mindelo, como a homenagem a Frank Cavaquim, quando ainda era muito jovem. Atuou também nas noites cabo-verdianas na Ofélia, Piano-Bar, Casinha dos Licores, entre outros. Igualmente nos barcos turistas que passavam pelo Porto Grande.
Residente em França há vários anos, Guy Lizardo reconhece que nunca conseguiu viver exclusivamente da música. “Quem é cantor emigrante tem de trabalhar para sobreviver. A música acaba por ser um complemento e os espetáculos ficam reservados para os fins de semana.” Apesar dessas limitações, construiu um percurso sólido, participando em festivais e eventos de prestígio.
Entre os momentos mais marcantes da carreira destaca a atuação em New Jersey (EUA) e na UNESCO, em Paris, durante a cerimónia que assinalou a inscrição da morna como Património Cultural Imaterial da Humanidade, em 2019. “Fui escolhida para representar Cabo Verde. Para uma cantora que nunca gravou um disco, foi uma enorme honra.” Em França, é também presença frequente em iniciativas promovidas pela Embaixada de Cabo Verde e por associações da comunidade cabo-verdiana.
Questionada sobre a razão de nunca ter apostado mais cedo numa carreira discográfica, Guy Lizardo admite que a família acabou por ocupar o primeiro lugar. “Muitas vezes, o coração acaba por prejudicar a carreira. As mulheres acabam por colocar a família em primeiro plano, sobretudo quando têm filhos.”
A cantora revela ainda que esteve afastada da música durante cerca de 10 a 15 anos, período coincidente com o casamento. Há cerca de um ano perdeu o ex-marido, com quem esteve casada durante 17 anos. “Apesar de estarmos separados, foi uma fase muito difícil. Ainda estou a reorganizar a minha vida.”
Preservar as raízes da música cabo-verdiana
Em termos musicais, Guy Lizardo defende que os intérpretes devem continuar a recuperar temas antigos da música cabo-verdiana, em vez de se limitarem às novidades.“Há muitas músicas esquecidas que contam a história de Cabo Verde e continuam a emocionar o público. As pessoas gostam da originalidade.”
Como exemplo, cita a interpretação da canção Marilu, que voltou a apresentar em palco e que rapidamente passou a ser solicitada por cabo-verdianos e turistas. Para a artista, o legado de Cesária Évora abriu portas para a música cabo-verdiana em todo o mundo, mas cabe agora às novas gerações preservar esse património. “Não precisamos abandonar as nossas raízes. Podemos cantar temas novos, mas também devemos redescobrir as grandes mornas e coladeiras que marcaram a nossa história.”
Agora, depois de uma carreira construída essencialmente ao vivo, Guy Lizardo acredita que chegou o momento de eternizar a sua voz em estúdio. “Quero deixar esse legado. Depois de tantos anos a cantar, sinto que está na hora de gravar o meu primeiro CD. E o Humberto Ramos reúne todas as condições para liderar este projeto, destacando o seu percurso como instrumentista, produtor musical, compositor, arranjador e investigador da música cabo-verdiana, acrescentou.
Em suma, diz, foi e é uma pessoa feliz na música, sendo que a única coisa que nunca fez foi gravar.






