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Mês de julho – como lembrar um amigo: O caso Amadeu da Cruz Oliveira

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Domingos Barbosa da Silva


Julho é, para Cabo Verde, o mês da Independência, da liberdade, do Estado de Direito Democrático e da celebração dos tubarões azuis. É também, inevitavelmente, o mês de Amadeu Oliveira — advogado, ex-deputado, crítico do sistema judicial e, há cinco anos, preso por um processo que continua a levantar dúvidas profundas sobre a coerência do Estado de Direito que o país proclama.

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No dia 18 de julho, Amadeu completa cinco longos anos de reclusão. Cinco anos de sofrimento, silêncio institucional e contradições jurídicas que não podem continuar a ser ignoradas.

I. A contradição que fere o Estado de Direito

Como conciliar o mês da liberdade com a permanência na prisão de um homem cuja condenação é vista por muitos juristas como desproporcional, politicamente sensível e institucionalmente problemática?
A questão não é apenas jurídica — é moral, filosófica e psicológica. Um Estado de Direito que se pretende democrático não pode permitir que caprichos interpretativos, fragilidades institucionais ou pressões internas resultem na privação prolongada da liberdade de um cidadão que, paradoxalmente, dedicou a vida a denunciar injustiças do próprio sistema.

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II. Cinco anos de sofrimento: O impacto Humano e Psicológico

A reclusão prolongada tem efeitos devastadores:
Despersonalização: o indivíduo perde progressivamente a sua identidade social.
Silenciamento: a voz crítica é neutralizada, não por debate, mas por isolamento.
Erosão emocional: a família sofre, o preso sofre, e a sociedade perde um dos seus pensadores mais ativos. A psicologia penal é clara: longas penas em contextos de controvérsia jurídica produzem sofrimento moral e desgaste psicológico que nenhum Estado democrático deveria ignorar.

III. O caminho Jurídico: O papel do Provedor de Justiça

Cabo Verde dispõe de um instrumento constitucional essencial: o Provedor de Justiça, previsto no Artigo 21.º da Constituição. É um órgão independente, eleito pela Assembleia Nacional, com a missão de defender direitos, investigar injustiças e formular recomendações públicas. As suas funções incluem:

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 Defender direitos, liberdades e garantias
 Receber reclamações contra atos ou omissões da Administração Pública
 Investigar ilegalidades, injustiças ou má administração
 Recomendar correções às entidades competentes
 Promover transparência e justiça administrativa

O caso de Amadeu Oliveira enquadra-se plenamente na esfera de atuação do Provedor. É tempo de este órgão assumir o seu papel constitucional e avaliar a legalidade, proporcionalidade e impacto humano da situação.

IV. A memória do Tarrafal e o Dever de comparar

A história cabo-verdiana não permite ingenuidade. O Tarrafal, prisão colonial de sofrimento extremo, permanece como símbolo de repressão política. Comparar não é exagero: é responsabilidade histórica.
Hoje, ninguém afirma que as prisões caboverdianas reproduzem o horror colonial. Mas quando um homem é visto por muitos como “preso político”, quando o processo que o condena é contestado por juristas, quando a sociedade civil levanta dúvidas, o Estado tem o dever de olhar criticamente para si próprio.

V. A Responsabilidade do Novo Governo

Um novo governo traz sempre esperança de renovação institucional. O caso de Amadeu Oliveira deve ser retomado, reavaliado e discutido amplamente no Parlamento. As petições anteriores, apresentadas por advogados e pela sociedade civil, devem ser analisadas com rigor. É tempo de:

 Reconhecer erros institucionais
 Reparar danos humanos e familiares
 Indemnizar o cidadão pelos cinco anos de sofrimento
 Reforçar mecanismos de proteção dos direitos fundamentais.

Como diz o ditado: “Recordar é viver, viver é esquecer e esquecer é morrer.” Esquecer Amadeu Oliveira seria permitir que o Estado de Direito morresse um pouco também.

VI. Conclusão: Libertar para reafirmar a Democracia

Libertar Amadeu Oliveira não é um ato político — é um ato de justiça, de responsabilidade institucional e de coerência democrática. É reconhecer que o Estado de Direito não é infalível, mas é capaz de corrigir os seus erros. Julho, mês da liberdade, deve ser também o mês da reparação.

O país não pode continuar a permitir que um homem morra pouco a pouco nas prisões cabo-verdianas. A democracia só é forte quando protege até aqueles que a criticam.

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Kimze Brito

Jornalista com 30 anos de carreira profissional, fez a sua formação básica na Agência Cabopress (antecessora da Inforpress) e começou efectivamente a trabalhar em Jornalismo no quinzenário Notícias. Foi assessor de imprensa da ex-CTT e da Enapor, integrou a redação do semanário A Semana e concluiu o Curso Superior de Jornalismo na UniCV. Sócio fundador do Mindel Insite, desempenha o cargo de director deste jornal digital desde o seu lançamento. Membro da Associação dos Fotógrafos Cabo-verdianos, leciona cursos de iniciação à fotografia digital e foi professor na UniCV em Laboratório de Fotografia e Fotojornalismo.

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