António Santos
“No fim de cada mandato, o povo não julga os currículos apresentados no dia da tomada de posse. Julga as obras realizadas, as promessas cumpridas e a capacidade de transformar dificuldades em progresso.”
Há um velho provérbio que diz que cada macaco no seu galho. Simples, popular e, talvez por isso mesmo, profundamente sábio. A sociedade evoluiu, os títulos multiplicaram-se, os gabinetes tornaram-se mais sofisticados e os discursos mais elaborados. Mas há verdades que resistem ao tempo: nem toda a pessoa serve para qualquer lugar, por mais nobre que esse lugar seja.
A recente composição do Governo trouxe esperança a uns, entusiasmo a outros e interrogações a muitos. Não pelas pessoas em si, mas pela aparente correspondência — ou, nalguns casos, pela falta dela — entre o percurso profissional de alguns governantes e as exigências das funções que agora assumem.
Não está em causa o valor pessoal de quem foi nomeado. Também não se pretende afirmar que um diploma, por si só, faz um bom governante. A questão é outra: será prudente confiar sectores estratégicos do Estado a quem não demonstra um percurso que revele afinidade com os desafios que irá enfrentar?
Uma boa governação assenta em princípios simples: colocar cada pessoa na função onde as suas competências, experiência e capacidade de liderança possam produzir os melhores resultados. Quando existe sintonia entre o perfil de quem lidera e as responsabilidades que lhe são confiadas, aumenta a probabilidade de decisões mais consistentes, de políticas públicas mais eficazes e de uma administração mais eficiente.
Cabo Verde não é um país com recursos ilimitados. É uma pequena nação insular que vive permanentemente desafiada pela escassez de meios, pela necessidade de crescimento económico e pela exigência de responder às legítimas expectativas dos cidadãos. Neste contexto, cada decisão pesa. Cada escolha tem consequências. Cada erro representa tempo perdido e oportunidades adiadas.
É natural que a política procure pessoas de confiança. Mas a confiança, por mais importante que seja, dificilmente substitui o conhecimento, a experiência e a competência. Liderar um ministério exige visão estratégica, capacidade de decisão e profundo conhecimento da realidade que se pretende transformar. Não se trata de defender que apenas um médico pode dirigir a Saúde, ou que só um engenheiro pode liderar as Infraestruturas. Trata-se, sim, de reconhecer que, quanto maior for a proximidade entre o percurso de vida, a experiência acumulada e a natureza das funções exercidas, maiores serão as probabilidades de sucesso.
A história demonstra que existem excelentes governantes oriundos das mais diversas áreas. Mas também demonstra que o improviso raramente constitui uma boa política de gestão do Estado. A sabedoria popular sempre soube aquilo que, por vezes, a política esquece: quem conhece a terra semeia melhor; quem conhece o mar navega com mais segurança; quem conhece o ofício trabalha com maior confiança.
Talvez por isso façam hoje tanto sentido estes versos:
Não basta vestir o fato,
Nem ocupar o lugar;
Quem não conhece o caminho,
tem muito para aprender antes de guiar.
A democracia não exige governantes perfeitos. Exige governantes preparados, humildes para ouvir, competentes para decidir e responsáveis para responder pelos resultados. Porque os cargos passam, os governos mudam e os discursos desaparecem com o tempo. O que permanece são as decisões tomadas e o impacto que elas deixam na vida das pessoas.
No fim de cada mandato, o povo não julga os currículos apresentados no dia da tomada de posse. Julga as obras realizadas, as promessas cumpridas e a capacidade de transformar dificuldades em progresso. E talvez a maior lição seja esta: um país cresce quando o mérito, a competência e o sentido de responsabilidade deixam de ser uma aspiração e passam a ser o critério fundamental das escolhas públicas







