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Sementes do Sol numa Terra d’Ilhas

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Adolfo Lopes

A agricultura em Cabo Verde é muito mais do que plantar e colher; é um gesto de resistência, esperança e cuidado com o futuro. Nestas ilhas onde a terra é escassa e a chuva imprevisível, cada semente semeada representa a de quem acredita que é possível transformar a aridez em sustento.

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Desde os tempos das “asgu”, quando os nossos antepassados, com as mãos cheias de cal e olhos destemidos, preparavam a terra e cultivavam a vida, até os dias de hoje, a agricultura continua a ser a base da nossa identidade e da nossa sobrevivência, mas sempre com o medo das fomes cíclicas que revivem na nossa memória coletiva das gentes das ilhas. O processo agrícola em Cabo Verde exige atenção e paciência. Não basta escolher qualquer semente: o milho, o feijão, a batata-doce ou a cana-de-açúcar precisam de solo bem-preparado, de água suficiente e de cuidados constantes. Cada gesto do agricultor, do camponês que revolve a terra ao cuidado com a irrigação, da proteção contra a seca, à colheita meticulosa é uma batalha silenciosa contra a escassez e as mudanças climáticas que desafiam as nossas ilhas, num ambiente de costas voltadas, diria mesmo o “corpo inteiro”, para a agricultura.

Nos últimos anos, apesar do êxodo rural e da atração de empregos urbanos e do  turismo, a agricultura continua a ser essencial. O setor não pode ser substituído pela aparente abundância de visitantes ou de investimentos temporários; ele é a fonte real de alimento e de segurança alimentar para a população, sendo que em 2023, 24,75%[1] da população vivia na pobreza absoluta. Estes dados deixam claro que a panela nacional só se enche se a terra for cultivada com consciência, cuidado e planeamento.

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Cada gesto importa:

1. Preparar a terra: Água, a vida que corre no solo

Em Cabo Verde, onde a chuva é rara e o sol implacável, a terra pede água como quem pede afeto como na partida para terra longe. O agricultor precisa de reservatórios, cisternas e canais de irrigação que garantam que cada semente possa germinar, crescer e frutificar. Preparar a terra vai além do simples cultivo: é necessário planear o uso da água, conservar cada gota, proteger o solo da erosão e aplicar técnicas que aumentem a fertilidade. Regar a terra é regar o futuro; é semear paciência, esperança e segurança alimentar, mesmo quando o céu permanece silencioso por meses. Cada fileira de milho ou feijão cultivado com cuidado é um ato de resistência e fé no amanhã.

2. Escolher as sementes: A esperança imortal

A semente é memória e promessa. Guardá-la, significa preservar a diversidade genética, respeitar a tradição e preparar o terreno para a inovação. Depósitos municipais de sementes oferecem variedades adaptadas ao clima local, resistentes a secas e pragas, garantindo que a agricultura não dependa apenas do acaso. Cada grão selecionado é uma herança viva de sabedoria ancestral, que deve ser também adaptada aos novos tempos, as sementes estão prontas para germinar nas mãos de quem acredita na força da terra. Escolher a semente certa é apostar no futuro, é cuidar da vida antes mesmo de ela brotar.

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3. Plantio coletivo: A resiliência comunitária

Semear sozinho é enfrentar a terra de peito aberto com coragem e determinação; semear em comunidade é multiplicar cuidado, alegria e aprendizado. Cooperativas agrícolas funcionam como redes de solidariedade, rumo a uma melhor sã convivência, onde ferramentas, conhecimentos e responsabilidades são compartilhados. É no esforço coletivo que os campos florescem de forma sustentável, transformando o trabalho individual em conquistas que beneficiam toda a comunidade, fortalecendo a permanência no campo e a continuidade da agricultura.[2]

4. Cuidar da terra: Guardiões da água

Garantir que a seca mais longa não destrua o fruto da paciência é um ato de responsabilidade coletiva. É o cuidado diário que transforma cada hectare cultivado em um testemunho de resiliência e amor pela terra nas ribeiras mais profundas destas ilhas. Isto tudo deve ser feito através de uma reeducação agrícola, sem trabalhar com as novas gerações futuras estaremos a: “Poi agu na balai fradu

5. Adubar o futuro: A tecnologia como aliada

Tecnologia e tradição devem caminhar juntas. Técnicas modernas de cultivo, mecanização adaptada, agricultura de precisão, compostagem e métodos de conservação pós-colheita aumentam a produtividade e reduzem perdas, sem apagar o saber ancestral. Aplicadas com cuidado, essas inovações tornam cada colheita mais abundante, transformando esforço em alimento, renda e segurança. Adubar o futuro é semear possibilidades, garantindo que a agricultura cabo-verdiana não apenas sobreviva, mas prospere e se renove a cada estação, temos efetivamente de encarar os novos tempos, com muito pouco teremos de fazer o máximo possível, lembrando a música de que: “Pok li dent e txeu”

6. Escoamento dos produtos: A sustentabilidade necessária

Produzir não basta; os frutos da terra precisam chegar às mesas do povo. Melhorar a logística, criar ligações interilhas baseadas no PRF, é o compromisso com a previsibilidade que organiza o dia, a regularidade que sustenta a rotina e a fiabilidade que constrói confiança, para assim facilitar a instalação de centros de armazenamento e transporte adequado, garantindo assim que o trabalho do agricultor seja valorizado e que a população tenha acesso a alimentos frescos e nutritivos. Um bom escoamento fortalece o campo, reduz perdas, combate o abandono rural e aproxima o agricultor do mercado.

7. Internacionalização da marca: “Made in Cabo Verde

Levar os produtos cabo-verdianos para o mundo é espalhar a alma das ilhas em cada garrafa, grão ou fruto. Certificações de qualidade, marketing estratégico e estratégias de exportação transformam o “Made in Cabo Verde” em sinônimo de excelência. A internacionalização valoriza o trabalho do agricultor do pequeno empresário, cria oportunidades econômicas e posiciona a agricultura nacional como arte. Mostrar ao mundo o sabor e a riqueza da nossa terra é provar que a agricultura cabo-verdiana vai muito além da sobrevivência: é resistência, criatividade e identidade, teremos de assumir uma ambição quase que de “sobrevivência” para alcançar pelo menos 0,3% dos 470 milhões de consumidores da nossa costa ocidental africana, correspondendo a uma população de 1,4 milhões[3]. Saindo assim da cultura do “labanta mó kalka la mé”, para virar a página à exportação centralizada na União Europeia e nos Estados Unidos da América, devemos até mesmo “piscar o olho” a outros mercados, como Ásia e América do Sul, regiões com países emergentes, tendo um crescimento e desenvolvimento económico cada vez mais estável.

Podemos concluir, portanto, que a agricultura cabo-verdiana é feita de paciência, persistência e amor. É a terra que sustenta a vida, a mão que semeia a esperança, a consciência de que o futuro depende do cuidado que damos hoje. Como o milho que brota da semente escolhida, assim cresce a nação: com trabalho, fé e sabedoria. Cada semente plantada é um “poema inescrito” que brota da terra, cada colheita é uma vitória silenciosa e cada agricultor é força motora de um novo amanhã possível para os próximos 50 anos.


[1] Instituto Nacional de Estatística (INE). (2024). Resultados da estimativa de pobreza SWIFT 2023. Disponível em: https://ine.cv/wp-content/uploads/2024/10/nota-de-imprensafinal-resultados-da-estimativa-de-pobreza-2022-swift-002.pdf  Acesso em: 2 dez. 2025.

[2] RTC. Avaliação preliminar da campanha agrícola 2025/26 indica baixa de 75% na produção do milho e feijões. 2025. Disponível em: https://www.rtc.cv/tcv/video-details/avaliacao-preliminar-da-campanha-agricola-2025-26-indica-baixa-de-75-na-producao-do-milho-e-feijoes-53926 . Acesso em: 2 dez. 2025.

[3] Worldometers. África Ocidental — População. 2025. Disponível em: https://www.worldometers.info/pt/populacao-mundial/africa-ocidental-populacao/ .Acesso em: 4 dez. 2025.

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Kimze Brito

Jornalista com 30 anos de carreira profissional, fez a sua formação básica na Agência Cabopress (antecessora da Inforpress) e começou efectivamente a trabalhar em Jornalismo no quinzenário Notícias. Foi assessor de imprensa da ex-CTT e da Enapor, integrou a redação do semanário A Semana e concluiu o Curso Superior de Jornalismo na UniCV. Sócio fundador do Mindel Insite, desempenha o cargo de director deste jornal digital desde o seu lançamento. Membro da Associação dos Fotógrafos Cabo-verdianos, leciona cursos de iniciação à fotografia digital e foi professor na UniCV em Laboratório de Fotografia e Fotojornalismo.

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