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Carta aberta/Declaração pública sobre o Projeto Petit Pays-Mindelo

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Hugo Tavares da Cunha (Arquitecto)                    

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Assunto: Solicitação ao Presidente da Câmara Municipal de São Vicente para contactar urgentemente a Imobiliária Comfort-CV e propor a revisão integral da fachada proposta para o edifício Petit Pays, considerando aspetos ambientais, técnicos, estéticos e culturais.

Eu, Hugo Tavares de Almeida Abrantes da Cunha, arquiteto cabo-verdiano/australiano, com larga experiência profissional nacional e internacional na Austrália, e com profundo vínculo afetivo com Cabo Verde, onde nasci, e em particular com a ilha de São Vicente – onde comecei a minha carreira profissional nas Obras Públicas em 1982 e, em 1983, na Câmara Municipal de São Vicente, como coordenador do Gabinete Técnico – venho por este meio manifestar a minha profunda preocupação relativamente a fachada proposta para o futuro edifício PETIT PAYS, da Imobiliária Comfort-CV, ilustrada nas imagens anexas.

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Após conhecer no Facebook o projeto Petit Pays, contatei logo o gestor da Comfort-CV em Mindelo. Não tendo sido atendido, deixei-lhe duas mensagens construtivas, desafiando-o a considerar uma revisão total da fachada exibicionista e globalista e sem a mínima preocupação de integração no seu contexto urbano imediato. Pouco tempo depois, também no Facebook, desafiei de novo a imobiliária para fazer um concurso de arquitetura para poderem escolher a melhor proposta possível para a encosta histórica do Fortim D’El-Rey. Uma vez mais, silêncio.

Alguns estudantes de arquitetura e colegas arquitetos nas Ilhas e na diáspora, considerando o risco de se construir o edifício com a referida fachada, contribuiram para um vigoroso debate, considerando soluções alternativas. Foi ainda consenso geral que, sendo construído o mesmo como proposto, seria um precedente irreversível, uma mancha urbano-arquitetónica em Mindelo, que poria em causa a aprovação do projeto de arquitetura pela Câmara Municipal/Gabinete Técnico, como também a nossa classe profissional, por não termos reagido vigorosamente contra.

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Assim, e considerando que até esta data nunca tivemos uma reação/resposta da Imobiliária, é com profunda convicção que eu, como arquiteto e santiaguense/sanvicentino, me vejo obrigado a contactar o Presidente da C.M.S.V. e a equipa de Vereadores.

As imagens em anexo demonstram claramente que a inadequada fachada proposta ignora o espírito do lugar/genius loci, a história e o clima únicos de Mindelo. A fachada proposta multicolor e mal resolvida é (i) visualmente agressiva e não dialogante com o entorno imediato  (embora já considerada por muitos como bnitim) e é (ii) excessivamente envidraçada (com predominância dos vazios sobre os cheios), contrastando e afetando de forma negativa a identidade arquitetónica do Mindelo.

Senhor Presidente, acreditando na sua liderança e preocupação comum pelo futuro arquitetónico e urbanístico da nossa querida cidade do Mindelo, espero que este assunto mereça a sua imediata competente consideração e decisão.

Senhor Presidente, proponho, com urgência, que esta fachada seja reavaliada, redesenhada e substituída por uma solução que tome em consideração os pontos indicados na nossa carta aberta/declaração:

  • O projeto aprovado materializa uma fachada globalista, arrogante e sem alma, em choque direto com a encosta histórica do Fortim d’El-Rey com a Avenida Marginal e a Baía do Porto Grande.
  • Trata-se de uma arquitetura importada, genérica e descontextualizada,indiferente às condições ambientais, climáticas e culturais específicas de São Vicente. Mindelo não é Dubai nem Hong Kong. Mindelo é Mindelo.
  • A volumetria ignora a topografia natural, impondo um objeto que não abraça e dialoga com a encosta do Fortim e em confronto com a paisagem urbana do Mindelo.
  • A excessiva exposição envidraçada revela-se inadequada ao clima atlântico, ao sol intenso e às necessidades de conforto térmico. Dubai pode esbanjar fundos e energia em sistemas de ar-condicionado. Nós Não.
  • O edifício como concebido, sendo construído, será uma mancha urbana na Avenida Marginal, por recusar qualquer gesto de integração urbano-arquitetónica e cívica.
  • A proposta compromete a leitura da silhueta da cidade e constitui uma afronta visual para quem entra na Baía do Porto Grande (nosso cartão de visita) por via marítima.
  • O projeto desvaloriza o Fortim d’El-Rey enquanto referência histórica e simbólica da cidade.
  • A solução adotada privilegia a imagem comercial em detrimento da qualidade urbana e arquitetónica.
  • Este modelo não constrói cidade: constrói apenas produto imobiliário.
  • Não somos contra a construção do projeto Petit Pays, promovido pela Imobiliária Comfort-CV.

Somos sim contra o seu mau projeto, que não complementa a encosta do Fortim – mas que a ignora.

Mindelo merece uma arquitetura atmosférica contemporânea integradora que a eleve              

  • Uma arquitetura para o Petit Pays deve nascer da terra, complementar a encosta do Fortim D’El-Rey, respirar com o vento e se abrir para o mar, adotando uma linguagem discreta, mas de forte presença sensorial.
  • Defendemos a criação de um porte-cochére paralelo à Avenida Marginal, para garantir um acesso harmonioso e protegido e, assim, evitar o congestionamento viário verificado no Hotel próximo.
  • Defendemos uma base térrea recuada e sombreada oferecendo espaços pedonais públicos – um gesto de generosidade urbana.

Defendemos um pórtico de entrada que rasga o edifício até à encosta do Fortim com uma altura equivalente a pelo menos três pisos, estabelecendo uma escala equilibrada com o volume edificado, servindo de portal simbólico entre a avenida e a encosta. A encosta do Fortim, terrosa, deverá ser orgulhosamente exposta e abraçada.

  • O volume edificado deve ser estratificado com

(i) base térrea pública transparente sombreada com uma volumetria mínima de dois pisos, proporcional à cércea/volumetria prevista,

(ii) com um corpo central  intermédio habitacional e

(iii) um topo recuado/belvedere onde deverão ser construídas a piscina, spas e ‘’happy hour’’ bar, vestiários e casas-de-banho. Os apartamentos da parte central deverão ser resguardados por varandas horizontais largas e profundas com floreiras perimetrais, criando profundidade, sombra, integração paisagística e uma interface viva com o entorno.

  • A fachada minimalista com predominância de cheios, com tonalidade terrosa clara, reforçará o diálogo com a encosta.

A paleta cromática da fachada adotará tons terrosos monocromáticos, evocando a textura da encosta.

  • A vegetação endémica – aloés, buganvílias, capim do vento – deve ser incorporada às varandas e superfícies, criando um micro ecossistema refrescante e sensorial.
  • A iluminação noturna deverá ser baixa, quente e difusa, respeitando a serenidade atmosférica da Baía e evitando reflexos agressivos. A energia elétrica será compensada por sistemas passivos de ventilação cruzada e painéis solares discretamente integrados à cobertura.
  • A arquitetura deverá ser acolhedora e convidativa em lugar de dominar e impor-se. Uma obra aberta à comunidade e à memória local.
  • O Petit Pays, assim concebido, poderá tornar-se um marco urbano-afetivo, símbolo de reconciliação entre o desenvolvimento contemporâneo e a alma do Mindelo.
  • Estas soluções permitirão uma arquitetura fenomenológica (atmosférica, sensorial e integradora) em diálogo positivo com a cidade, a encosta e a baía.
  • Uma arquitetura com estas características será uma valiosa referência urbana e motivo de orgulho para os sanvicentinos e visitantes.
  • A Imobiliária Comfort-CV, assumindo redesenhar a fachada, terá uma oportunidade de salvaguardar o seu perfil, beliscado com este mau projeto de arquitetura.
  • A revisão da fachada apresentará uma valiosa oportunidade para que o futuro Petit Pays assuma uma linguagem contextualizada contemporânea, e não importada, com identidade local, estabelecendo um diálogo sensível com o território singular da encosta do Fortim d’El-Rey  e a sua paisagem imediata da Avenida e a Baía do Porto Grande.
  • A revisão da fachada, não gritante, mas sóbria, contemporaneamente minimalista e complementar ao entorno, contribuirá para o desejado equilíbrio visual da baía do Porto Grande/cartão de visita de São Vicente.
  • O volume proposto sendo estratificado horizontal e verticalmente, contribuirá para evitar transformar o local num cenário de ostentação arquitetónica alheio à atmosfera insular e escala humana da Avenida Marginal.
  • Construir junto ao Fortim D’El-Rey é dialogar com o tempo e com o vento.
  • É deixar que a Arquitetura seja silêncio e frescor em tons castanho terroso-claro que respiram em sintonia com o solo da encosta rochosa atrás.
  • É permitir que a vegetação das suas longas profundas varandas sejam refúgio contra o calor e que cada gesto construtivo seja também um poema dedicado à cidade do Mindelo e ao seu futuro climático.

Os aspetos atrás referidos tornam ainda mais evidente a necessidade urgente de revisão do projeto, sob pena de se estabelecer um precedente irreversível de grande impacto negativo na paisagem urbana.

Senhor Presidente, este projeto, tal como aprovado pela Câmara, afetará consideravelmente a paisagem urbana de Mindelo e afetará também o seu legado enquanto gestor público comprometido com a proteção dos Munícipes e com o património e a identidade cultural da ilha de São Vicente. Caso seja solicitado, eu e colegas arquitetos nas Ilhas e na Diápora, estaremos disponíveis para um construtivo diálogo.

Respeitosamente, solicito a Vossa Excelência que convoque a Imobiliária Comfort-CV para, com base nos argumentos técnicos, estéticos, ambientais e culturais apresentados, reveja o design da fachada proposta, antes do início das obras. Esta é uma oportunidade única para que o futuro edifício Petit Pays, com a sua fachada revista, possa contribuir para um impacto contextual positivo e para uma valiosa referência Urbano – Arquitetónica Local, Nacional e Internacional.

Mindelo merece uma arquitectura que a eleve – não que a desfigure. E o senhor Presidente, como guardião da cidade, tem o poder e a oportunidade de corrigir este rumo. 

Com elevada consideração e esperança na sua sensibilidade para com o futuro de São Vicente. Com os melhores cumprimentos.

https://www.pinterest.com.au/hugofern/architects-hugo-da-cunha-manuela-santos-selected-p

Parkroyal Hotel Singapore  https://www.youtube.com/shorts/3rbiKsfKCms

BANA Es Pais  https://youtu.be/7o6KUw2j5ZU?si=JW6VtVfTrNZx6g4n

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Kimze Brito

Jornalista com 30 anos de carreira profissional, fez a sua formação básica na Agência Cabopress (antecessora da Inforpress) e começou efectivamente a trabalhar em Jornalismo no quinzenário Notícias. Foi assessor de imprensa da ex-CTT e da Enapor, integrou a redação do semanário A Semana e concluiu o Curso Superior de Jornalismo na UniCV. Sócio fundador do Mindel Insite, desempenha o cargo de director deste jornal digital desde o seu lançamento. Membro da Associação dos Fotógrafos Cabo-verdianos, leciona cursos de iniciação à fotografia digital e foi professor na UniCV em Laboratório de Fotografia e Fotojornalismo.

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