A emigrante Loide Delgado denúncia em um exclusivo Mindelinsite que, para agilizar a resolução processos que se arrastam há anos na Câmara de São Vicente – reversão da transferência do direito útil de um terreno, atribuição de um pequeno lote para construir um acesso à sua residência e de um terreno no Calhau – já pagou, em dinheiro e produtos, valores que davam para construir um edifício de cinco pisos. Afirma ainda que pode contar nos dedos de uma mão os funcionários e quadros não contemplados. Mas, para o seu desespero, todos os seus processos bloqueados e as pessoas “presenteadas”, com quem antes mantinha contacto permanente, agora sequer lhe atendem o telefone.
Esta emigrante, que se encontra em São Vicente neste momento, decidiu fazer esta denúncia pública, depois de se ter deslocado à CMSV para receber resposta ao seu caso e não ser atendida pela enésima vez consecutiva, por indicação dos funcionários do front office. “Entrei em surto e comecei a dizer em alta voz tudo o que estava engasgado na garganta: que estou a ser enganada e extorquida por funcionários da Câmara que prometem me ajudar a agilizar os meus processos mediante pagamento, mas que agora simplesmente dão de ombros ou recusam falar comigo. Fui parar na polícia”, desabafa.
Mas, para justificar a “explosão” do início desta semana, explica Loide, é preciso recuar no tempo para entender a história. Segundo conta, antes de emigrar tinha uma casa de tambor em Fonte Filipe – Casanova. Sem grandes possibilidades, conta, dirigiu-se à CMSV e manifestou interesse em construir uma casa no local e lhe foi-lhe atribuído um projecto modelo. “Comecei a construir a minha casa aos poucos. Como ia casar com um luxemburguês, em 2006 transferi o direito útil do terreno para as minhas filhas, na altura com 9 e 13 anos. Hoje elas são adultas e assumiram as suas responsabilidades. Decidiram então me devolver o terreno, sobretudo para facilitar qualquer intervenção na habitação.”

E é aqui que os problemas começam. Esta emigrante indica que a transferência foi despachada na gestão de Isaura Gomes, mas agora não conseguem ou não querem fazer a reversão. “Sempre que venho de férias, estou na CMSV. Já renovei procurações que minhas filhas enviam várias vezes, mas o processo continua emperrado. Não sei a quem mais recorrer”, desabafa Loide, que neste momento está “presa”, após a construção de um prédio que empurrou a sua casa para trás e fechou-lhe o acesso. “Tive que improvisar um caminho com pedras e depois construir uma escada para poder aceder a minha casa.”
Casa com rachaduras
Para resolver em definitivo este problema, sublinha, solicitou um pedaço de terreno à frente da sua casa, alinhada com o novo edifício, para construir uma varanda, com garagem na parte de baixo. Foi entretanto surpreendida com a resposta da CMSV, que alegou que o terreno destina-se à construção de um duplex. “Não entendo como vão meter um duplex naquele pequeno pedaço de terreno. Este é, de momento, o meu maior problema porque não posso fazer nada, enquanto o terreno estiver no nome das minhas filhas. A nova construção vai me aprisionar por completo porque ficarei sem frente e sem acesso”, diz Loide, que, paralelamente, está a debater com rachaduras por toda a sua casa e, inclusive, com parte dos tetos a cair por causa da vibração nas obras.
Prestes a retornar a Luxemburgo, esta emigrante diz estar desesperada porque não consegue resolver nenhum dos problemas que a trouxe a Cabo Verde, ou seja, não concluiu a reversão da transferência e nem conseguiu o pedaço de terreno para construir o acesso à sua residência. “Todos os dias estou na CMSV e a resposta é sempre a mesma: volta amanhã. E isto vêm acontecendo desde o dia 11 de dezembro. E agora estão a dizer que, por falha da própria Câmara, atribuíram dois lotes para o terreno onde construí a minha casa. Entendo que, se foi um erro interno, cabe-lhes resolver a situação. Estou cansada.”
Garante Loide de Figueiredo Delgado que, para resolver esses problemas, já pagou “luvas” em valores que não consegue precisar. Pagou porque não consegue desbloquear os seus processos e se sentia impotente. “Queria soluções céleres e pagava para pessoas que me procuravam e garantiam respostas. Estou a falar de pessoas de dentro, que não vou avançar os nomes agora, mas tenho conversas e mensagens gravadas, onde me pedem dinheiro, whisky, sapatilhas de marca, últimos lançamentos de telemóveis, entre outros, em troca de soluções, que nunca chegam”, denuncia, indicando que o dinheiro que já gastou com estes pagamentos daria para construir um edifício de cinco andares.

Diante de tantos obstáculos, e desagradada com a sua casa, Loide revela que solicitou um outro terreno para construir uma nova moradia no Calhau, localidade que muito aprecia. Mas, afirma acreditar que entrou em um novo esquema de extorsão porque começaram novamente a exigir favores, com promessa de despacho rápido. E hoje, esta emigrante, que alega conseguir provar todas as denúncias através de mensagens escritas e de voz no seu telemóvel, diz que pode contar nos dedos da sua mão o número de funcionários da CMSV que ainda não a abordaram com promessas. “Estou desesperada, por isso desabafei quando, mais uma vez, me disseram que não podem fazer nada.”
Apesar de todos estes percalços, esta emigrante acredita que este é apenas mais um episódio de uma vida sofrida, que começou na infância, prolongou pela juventude no país e posteriormente na emigração e que ganhou outros contornos agora aos 60 anos, altura em que procurava um descanso merecido na sua casa, construída com muito esforço.
O Mindelinsite tentou contactar a edilidade para reagir a esta denuncia. Enviou email para o presidente da CMSV, Augusto Neves, através da sua secretária e da directora do Gabinete, mas não houve resposta.







