João Henrique Delgado da Cruz
Existem palavras lindas na língua portuguesa, algumas não pela sonoridade, mas pela sua carga significativa e o seu encaixe simbólico a situações vividas e/ou vivenciadas. O uso exaustivo de uma palavra acaba sempre por extravasar o contexto e muitas vezes a minúcia significativa do momento pede o uso de outro vocábulo.
É o caso da palavra Resiliência e o seu uso nos tempos que correm. A mim, causa-me uma certa náusea linguística. Enfim, são modas e modismos! Os vocábulos resiliência, sobrevivência, perseverança, firmeza, superação, recuperação, tenacidade, estoicismo, sentem-se discriminados e abandonados.
Na antiguidade clássica já se usava a expressão “Quod non me necat, me fortiorem facit” (O que não me mata, me torna mais forte).
Viu-se nestes dias de festa essa capacidade do povo cabo-verdiano de se reerguer com alegria. Há poucos meses o nosso coração lacrimejava de tristeza, depois da Covid19 e as tempestades.
Mesmo em dias de lágrimas, viu-se a alegria contida na superação, pessoas cantando e dançando em cima de tristezas passadas.
É a amplitude e simbiose dessa dicotomia tristeza/alegria que caracteriza o cabo-verdiano, sempre renascemos das cinzas como Fénix.
Um povo que resistiu a fomes cíclicas, secas e doenças, consegue resistir a tudo. Consegue renascer com um sorriso nos lábios, música no coração e dança nos pés.
Sempre fizemos das nossas fraquezas forças.
O poeta Ovídio Martins identificou essa nossa perseverança e tenacidade em palavras de firmeza e superação: “Nós somos os flagelados do vento-leste! A nosso favor não houve campanhas de solidariedade, não se abriram os lares para nos abrigar e não houve braços estendidos fraternalmente para nós!
Somos os flagelados do vento-leste!
O mar transmitiu-nos a sua perseverança. Aprendemos com o vento a bailar na desgraça, As cabras ensinaram-nos a comer pedras para não perecermos.
Somos os flagelados do vento-leste!
Morremos e ressuscitamos todos os anos para desespero dos que nos impedem a caminhada Teimosamente caminhamos de pé, num desafio aos deuses e aos homens, E as estiagens já não nos metem medo, porque descobrimos a origem das coisas (quando pudermos!…).
Somos os flagelados do vento-leste! Os homens esqueceram-se de nos chamar irmãos E as vozes solidárias que temos sempre escutado são apenas as vozes do mar que nos salgou o sangue, as vozes do vento que nos entranhou o ritmo do equilíbrio e as vozes das nossas montanhas estranhas e silenciosamente musicais”.
Em Cabo Verde há uma ilha metonímia desse sentir cabo-verdiano: São Vicente.
A propósito, em 2019, antes do desgaste, usava essa palavra num texto que fui enriquecendo com o passar dos anos:
São Vicente é uma ilha vencedora, pelo nome e pelo seu passado.
Vicente tem como étimo o particípio presente do verbo latino Vinco (vencer), Vincente (aquele que vence). Muito bem referenciado pelo papa João Paulo II aquando da sua passagem por Mindelo, no Estádio da Fontinha, a 26 de janeiro de 1990 (quatro dias depois do 528° aniversário do achamento).
Numa tarde chuviscante, as palavras do Pontífice: “Saúdo-vos, irmãos e irmãs desta ilha de São Vicente – São Vicente é um vencedor [um coro de aplausos comovidos ecoou pela ilha] (…) e saúdo a quantos aqui vieram de outras ilhas para encontrar-se com o sucessor do Apóstolo São Pedro (…)
Não sendo rico de recursos naturais, o vosso país busca aplicadamente, e não sem êxito, os caminhos para o progresso constante; há que reconhecer, todavia, que as condições de vida, para muitos, continuam a ser duras (…)
(…) a falta de reais perspectivas de futuro, leva muitos dos vossos irmãos e irmãs a uma forçada emigração.”
Homileticamente o Santo Padre mostrou-se preparado, a celebração da palavra foi um louvor à Ilha que venceu a dor, como o santo que lhe deu o nome.
Sim, São Vicente venceu o destino de ilha insalubre e inabitável. Depois de várias tentativas frustradas de povoamento, da aldeia de Nossa Senhora da Luz a Mindelo; depois de muita Resiliência, sofrimento e perseverança, a ilha entrou nos trilhos do desenvolvimento”.
Não nos levem a mal, pois: “Resistir com alegria é a nossa identidade!”








