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Quando a luz teima em não chegar à pista do Aeroporto de S. Vicente

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José Fortes Lopes –

Este artigo surge no seguimento do texto “O Muro Invisível: Por que a Bruma Seca ainda trava o Aeroporto Cesária Évora?”, de Américo Costa, no qual o autor escreve, com frustração legítima, que em pleno 2026 continua a ver voos cancelados no Mindelo devido à bruma seca — “uma situação que, com a tecnologia disponível, deveria ser facilmente ultrapassável”. Inspirado por esse texto, que aqui cito, este artigo procura alargar o debate e mostrar que o problema não é o pó, mas a persistente falta de decisão e investimento.

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Como é possível que um país com mais de 50 anos de soit-disant “independência” — que, na prática, se traduz, para muitos, numa dependência estrutural persistente e num peso acrescido para os mais desfavorecidos — continue a falhar em questões tão elementares de planeamento e justiça territorial? Como aceitar que, em pleno século XXI, a segunda ilha mais importante e a segunda cidade do país, que já foi a principal do arquipélago, permaneça refém de promessas eleitorais nunca concretizadas?

A ilha de São Vicente, e em particular a cidade do Mindelo, têm sido empurradas para um modelo de desenvolvimento assente quase exclusivamente num turismo de massas e num setor de serviços frágil, com resultados previsivelmente duvidosos. Um modelo que ignora a necessidade de infraestruturas críticas e que fragiliza a economia local, em vez de a diversificar. (Já pensaram em como reciclar o lixo do turismo, as demandas em todas as infraestruturas, serviços de saúde compatíveis com a nova realidade, a poluição, a segurança etc).

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O caso do Aeroporto Cesária Évora é paradigmático. Em cada campanha eleitoral, repete-se a mesma promessa: a iluminação da pista e a modernização dos sistemas de apoio à navegação, algo que permitiria operações noturnas seguras e regulares. Falamos de um aeroporto com mais de 60 anos de existência, que continua a funcionar como um “aeroporto de bom tempo”, dependente do vento, da visibilidade e da sorte.

Os constrangimentos são conhecidos: cancelamentos frequentes, desvios, isolamento do Barlavento, impacto negativo no turismo de qualidade, no transporte de mercadorias, na mobilidade dos residentes e na atratividade económica da ilha. Nada disto é novo. O que é novo — e inaceitável — é a persistência do problema.

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Dinheiros, ao que parece, não deveriam faltar. Há cerca de uma década, um então Ministro das Finanças afirmou publicamente que “Cabo Verde tinha dinheiro que nunca mais acabava” — uma declaração difícil de compreender face à realidade socioeconómica do arquipélago, marcada por desigualdades profundas, precariedade e emigração forçada. Se os recursos existiam quando os investimentos eram, alegadamente, mais fáceis, por que razão não foram canalizados para infraestruturas estruturantes como esta?

Restam duas hipóteses, ambas graves: incompetência persistente na definição de prioridades públicas ou má-fé política, traduzida num abandono silencioso e reiterado de São Vicente e do Barlavento. Há quem veja nisto uma conspiração contra a ilha e a Região. Modernizar o apoio à navegação no Aeroporto Cesária Évora não é um luxo. É uma urgência logística, um imperativo de segurança operacional e um ato de justiça económica e territorial.

É a diferença entre um aeroporto limitado e um verdadeiro hub internacional, operacional 365 dias por ano, capaz de sustentar um turismo qualificado, negócios, eventos, cultura e circulação de pessoas.

O que se torna ainda mais incompreensível — e politicamente revelador — é que este aeroporto continue nesta situação, enquanto, em plena campanha eleitoral, se tira, uma vez mais, o coelho da cartola: a promessa de um aeroporto em Santo Antão, a escassos cinco minutos de voo de São Vicente. Um projeto anunciado sem estudos públicos credíveis, com custos estimados em dezenas de milhões de euros, e que configuraria um crime ecológico numa das ilhas mais frágeis e valiosas do ponto de vista ambiental e paisagístico do arquipélago.

Em vez de se apostar em sinergias racionais entre as duas ilhas — reforçando São Vicente como hub aéreo funcional, com ligações marítimas e aéreas eficientes para Santo Antão — insiste-se numa lógica de duplicação absurda de infraestruturas, economicamente insustentáveis e territorialmente destrutivas. Esta opção não responde a necessidades reais de mobilidade nem a uma visão integrada de desenvolvimento regional; responde, sim, a uma. estratégia de fragmentação.

Divide-se para governar. Alimentam-se expectativas irreais numa ilha, enquanto se mantém a outra estruturalmente bloqueada. Em vez de cooperação, promove-se concorrência artificial; em vez de complementaridade, fomenta-se ressentimento. Esta política não constrói coesão nacional nem desenvolvimento equilibrado — constrói dependência, desconfiança e estagnação.

Num arquipélago pequeno, com recursos escassos, a racionalidade territorial deveria ser um princípio de Estado. Persistir neste caminho é não apenas um erro técnico ou económico, mas uma escolha política consciente, cujas consequências recaem, mais uma vez, sobre as populações.

São Vicente e as suas gentes — que tão bem sabem receber — não podem continuar à espera que o vento mude para que o progresso aterre. A luz na pista é, hoje, o mínimo exigível a um país que se quer moderno.

A chamada independência, de que se vem comemorando os 50 anos, não se traduziu em soberania económica nem em justiça territorial. Traduz-se, para muitos — para as populações e as pessoas mais desfavorecidas —, em sacrifícios permanentes, promessas recicladas e adiamento sistemático do essencial. Enquanto isso, o discurso oficial celebra sucessos abstratos, e o povo real continua a suportar — sozinho — o peso de um Estado que falha onde não devia.

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Constanca Pina

Formada em jornalismo pela Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ). Trabalhou como jornalista no semanário A Semana de 1997 a 2016. Sócia-fundadora do Mindel Insite, desempenha as funções de Chefe de Redação e jornalista/repórter. Paralelamente, leccionou na Universidade Lusófona de Cabo Verde de 2013 a 2020, disciplinas de Jornalismo Económico, Jornalismo Investigativo e Redação Jornalística. Atualmente lecciona a disciplina de Jornalismo Comparado na Universidade de Cabo Verde (Uni-CV).

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