Adilson Santos da Cruz
Em Cabo Verde vivemos, nas últimas décadas, uma experiência política que oscila entre alternâncias de poder e uma aparente vitalidade democrática. Contudo, por detrás da fachada de estabilidade institucional, há um problema estrutural que mina a confiança do povo nas suas próprias instituições: a prática de governar sozinho, com maiorias absolutas, ignorando as prioridades concretas da população.
Quando um partido alcança a maioria absoluta, ganha a legitimidade para formar governo sem precisar de alianças ou compromissos. Até aqui, nada de errado, faz parte das regras democráticas. O problema é o que acontece depois: sem a necessidade de negociar com outras forças políticas, a tentação de governar de forma unilateral cresce. O Parlamento transforma-se num espaço de mera homologação de decisões já tomadas. A oposição, sem força real, torna-se apenas uma voz simbólica. E o povo? Torna-se cada vez mais espectador passivo, convencido de que o seu voto pouco altera a vida concreta no dia a dia.
A consequência direta é a falta de empatia nas decisões de governação. Veja-se o caso recente: 150 milhões de euros destinados a um monumento histórico, num momento em que São Vicente ainda sofre os efeitos de uma tragédia, enquanto outras ilhas lidam com carências básicas em transportes, saúde e proteção civil. Pergunta-se: será esta a prioridade de um governo que se diz ao serviço do povo? Será que a história de Cabo Verde ficará mais rica com monumentos de pedra e cal do que com hospitais a funcionar, escolas bem equipadas e transportes acessíveis?
Não se trata de ser contra a cultura, a história ou a preservação do património. Esses são pilares importantes de qualquer nação. Mas governar é, acima de tudo, saber priorizar. Quando a população precisa de evacuações médicas rápidas e não existe sequer um helicóptero disponível, quando imigrantes organizam vaquinhas solidárias para ajudar famílias em dificuldades, quando os transportes interilhas continuam a ser um entrave ao desenvolvimento económico e social, nesse contexto, investir 150 milhões em pedra e cal soa quase a provocação.
Aqui entra a questão da abstenção eleitoral. Muitos cidadãos justificam a sua ausência das urnas com frases como “todos são iguais”, “nada muda” ou “o meu voto não conta”.
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Essa passividade é, no entanto, um dos combustíveis da situação atual. Ao não participar, ao não pressionar, ao não exigir, o povo entrega um cheque em branco a quem governa. E quem governa sozinho, sem freios nem contrapesos, tende a usar esse poder para decidir de cima para baixo, sem diálogo, sem concertação e, pior ainda, sem empatia.
O discurso oficial repete vezes sem conta que “os recursos já foram canalizados”, como se isso fosse argumento suficiente para justificar decisões desprovidas de bom senso. Mas governar não é apenas gerir contratos assinados, é ter coragem política de repensar, renegociar e até assumir perdas, se isso significar ganhos maiores para a população. Que mensagem passa um governo que prefere manter obras milionárias enquanto faltam investimentos básicos em saúde, transportes e proteção civil? Passa a mensagem de que o povo não é prioridade, mas sim o projeto político e as vitórias propagandísticas.
Num sistema de maiorias absolutas sucessivas, o espaço de debate democrático reduz-se. Governa-se sozinho, decide-se sozinho, erra-se sozinho.
E quando os resultados aparecem, desemprego, crise nos serviços públicos, descontentamento social, o discurso volta-se contra o próprio povo: “falta participação”, “falta civismo”, “falta consciência política”. Ora, falta sim liderança com visão, falta empatia e, sobretudo, falta responsabilidade de colocar os interesses do cidadão no centro da decisão política.
Mas há também sinais de esperança. Há uma solução, e ela está a nascer fora dos corredores tradicionais do poder. Através das redes sociais, a diáspora cabo-verdiana, mesmo estando fisicamente longe, tem conseguido envolver-se em tempo real com o debate nacional. Pela primeira vez, muitos emigrantes têm voz direta, partilham informação, influenciam narrativas e conseguem pressionar governos sem sequer estarem presentes no arquipélago. Esta ligação entre a diáspora e o país, construída no imediato e sem barreiras, é uma excelente notícia para a democracia.
Outro fenómeno importante é o dos novos residentes, em grande parte turistas que investem em Cabo Verde, adquirem nacionalidade e começam a participar mais ativamente na vida social e económica do país. Com novas ideias, novas exigências e uma visão de fora para dentro, esses cidadãos vão inevitavelmente contribuir para a mudança, trazendo debates sobre sustentabilidade, qualidade de serviços e responsabilidade política.
Vejo transformações a acontecer, ainda que em pequena escala, mas reais. Cabo Verde está a mudar, micro, passo a passo. E essas mudanças apontam para um futuro onde já não estaremos tão dependentes de um eleitorado fragilizado e manipulado por quem governa.
Pelo contrário, os votos e as escolhas políticas tenderão a distribuir-se de forma mais racional, sobre conhecimento, sobre interesses comuns e, sobretudo, sobre o bem público. Estou convencido disso. Cabo Verde cresce lentamente, mas cresce, e esse crescimento, ainda que discreto, é irreversível.
Aqui cabe novamente uma pergunta direta ao eleitorado: até quando vamos aceitar ser tratados como espectadores e não como protagonistas da democracia? De que serve reclamar nas ruas, nas redes sociais e nas conversas de café, se no dia das eleições escolhemos o silêncio da abstenção? O que muda se continuarmos a entregar maiorias absolutas sem exigir compromissos claros, sem exigir transparência, sem exigir prestação de contas?
A história mostra que os países que prosperam não são os que constroem monumentos imponentes, mas sim os que constroem confiança, coesão social e oportunidades reais para os seus cidadãos. Cabo Verde não pode desperdiçar recursos preciosos em projetos de vaidade, quando ainda há famílias sem dignidade, serviços públicos a colapsar e ilhas inteiras esquecidas.
E aqui vai a reflexão final: quando o governo decide sozinho, mas o povo aceita calado, quem está realmente a falhar, os políticos que abusam do poder, ou os cidadãos que abdicam do seu dever de fiscalizar e exigir? A democracia só será forte quando o povo compreender que governar sozinho é um risco, mas ser governado em silêncio é uma escolha.