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“Prémio Arnaldo França ”- Jorge Silva enaltece o papel dos Claridosos na sua formação

O escritor cabo-verdiano, Jorge Silva, galardoado recentemente com o prémio Literário “Arnaldo França”, disse que os “Claridosos” foram fundamentais para ele. Numa entrevista exclusiva ao Mindelinsite após ter sido proclamado vencedor da III Edição deste prémio afirmou que os escritores desta corrente de escrita foram, no seu entender, os fundadores da literatura cabo-verdiana. Considera ainda uma honra esta distinção por Arnaldo França ser uma referência da arte literária em Cabo Verde e um confrade de respeito

Por João A. do Rosário

Mindelinsite  – Foi galardoado com o prémio literário Arnaldo França. Para si, ser o vencedor do premio literário desta terceira edição dedicada aos cabo-verdianos residentes em Cabo Verde e na diáspora, o que significa?

 Jorge Silva – Para mim, é uma honra muito grande, na medida em que o Dr Arnaldo França era uma pessoa muito considerada na Literatura Cabo-verdiana. Era um confrade de muito respeito e tinha por ele devida vénia.

MI – A tua obra premiada versa sobre que tema?

JS – O romance é sobre a comunidade cabo-verdiana em Angola. Naquele tempo os contratados para terras como Angola, Moçambique e S. Tomé dizia-se que iam para o Sul, muitos iam imbuídos da ideia de ser uma viagem sem regresso. Falar em terras do Sul era como se fosse uma viagem sem regresso, era para sempre.

MI – Como surgiu esse gosto para escrita?

JS – O meu pai é que me incutiu esta ideia da escrita numa altura em que, estando a estudar no 5º ano, os meus colegas resolveram criar um jornal chamado Tan-Tan, como simbologia do rufar dos tambores. O meu primeiro artigo foi sobre a ilha do Fogo, o segundo foi sobre a ilha de S. Antão e o terceiro não chegou de ser publicado. Ele tinha muitos livros e comprava as Seleções do Readers e, cada livro que adquiria, depois de os ler, passava-os para eu ler também. Depois perguntava-me o que tinha achado e estabelecíamos um diálogo que, para a época, era muito rico e formativo.

“O meu pai é que me incutiu esta ideia da escrita…”

MI – Quais as tuas referências em termos de literatura cabo-verdiana e mundial?

JS – Para mim, os Claridosos foram marcantes. Fundaram a Literatura Cabo-verdiana. Li todos os poetas, prosadores e ensaístas. O primeiro salário que recebi, escrevi uma carta para Cabo Verde para saber como adquirir informações, a partir daí. Passei a receber o jornal “O Arquipélago”, que saía mensalmente e depois cada livro que saía eu mandava buscar. O meu pai tinha uma boa biblioteca e os autores de então, que eram Jorge Amado, José Lins do Rego, Érico Veríssimo, entre outros. Li muitos livros portugueses, que ele colecionava, como Ferreira de Castro, Ramalho Ortigão, enfim. Também tinha obras de Leon Uris, Harpper Lee, John Steinbeck, Caril Chessman, sobre a segunda guerra mundial, autores como Sven Hassel, Hans Hellmut Kirst , entre muitos outros.

MI – Cabo Verde tem denotado uma falta enorme de novos intelectuais. Para si, porque isto está a acontecer?

JS – Depende. Tivemos uma altura em que houve uma preocupação com a alfabetização em massa. Depois, com a diversificação das bolsas de estudo para países com culturas bem diferentes, as pessoas regressavam frustradas e revoltadas. O que se pode esperar dum indivíduo frustrado? Decepção! Um indivíduo frustrado desanima, perde a vontade de fazer o quer que seja.

MI- Como fazer para relançar as dinâmicas e as correntes de escritas que já foram bem patente em Cabo Verde?

JS – Temos que aguardar que haja inspiração, ler muito, debater o que se lê, fomentar a leitura e o debate entre velhos e novos sem arrogância, e esperar que o fruto sazone para podermos colher com amor os resultados que daí advierem. Mas sobretudo devemos esperar a inspiração.

 “…ler muito, debater o que se lê, fomentar a leitura e o debate entre velhos e novos sem arrogância…”

MI – Como tem sido a tua relação com os escritores cabo-verdianos em Portugal, onde reside?

JS – Não tenho tido muitos contactos porque tenho estado reservado, em tratamento. Vim evacuado e, como apareceu a pandemia, o confinamento entre outras coisas, têm-me limitado. Mas, possivelmente, irei reentrar numa fase de melhoramento.

MI – Fala-nos de ti, que és, de onde vens, e como tem sido a tua vida artística, profissional e pessoal?

JS – Costumo dizer que sou um híbrido. Nasci em S. Vicente, fui para a ilha do Sal com três anos acompanhar a minha mãe que foi ali colocada como professora, depois para S. Antão. Segui depois para Angola, em reagrupamento familiar, conhecer o meu pai, que tinha ido quando eu ainda tinha dois anos. Estudei e fiz o exército colonial em Angola, fui funcionário público, trabalhei, entrei para a Embaixada de Cabo Verde naquele país, fui transferido para S. Tomé, Itália, Cabo Verde e aposentei-me.

Como projeto literário tenho: três obrais editadas, “Contos”, “ A Família do Xibim” e “Esquisito”, ainda vários artigos em diversos jornais e revistas. Em preparação, “Os Sokol de Cabo Verde”, de que o meu pai era fundador e foi Oficial da Secção Náutica, de que constarão os nomes de todos os fundadores e as áreas de intervenção. Ainda, “A Família Rendall”, de que sou um dos descendentes e constarão, de entre outras informações, a árvore genealógica da parte que pude ter conhecimento, o projeto Sul que terá a primeira obra Sul 1 e haverá Sul 2 e, possivelmente, o 3 e o 4. 

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