
A 15.ª edição da gala Cabo Verde Music Awards (CVMA), que celebra a excelência da música nacional e foi realizada pela primeira vez em São Vicente, ficou marcada quase na sua reta final por um momento de tensão após o artista Batchart, vencedor do Prémio Responsabilidade Social, juntamente com MC Acondize, questionar o destino dos exorbitantes recursos financeiros destinados à reconstrução da ilha devido a tempestade Erin. A reação surgiu sob a forma de aplausos da plateia e, posteriormente, através da resposta do presidente da Câmara Municipal de São Vicente (CMSV), que utilizou o microfone para responder diretamente ao rapper.
A cerimónia decorria de acordo com o roteiro definido pela organização dos CVMA até ao anúncio dos vencedores do Prémio Responsabilidade Social, que distingue o talento artístico aliado ao compromisso com a comunidade. O MC Acondize fez um discurso protocolar, mas o rapper Batchart, conhecido por abordar questões sociais nas suas músicas, optou por desafiar a plateia, primeiro sobre o papel do artista e do poder da músuca, e, depois, sobre a exorbitância dos recursos anunciados para a reconstrução de São Vicente após a passagem da tempestade Erin, a 11 de agosto de 2025.
“Não vou fazer discurso. Vou apenas fazer três perguntas. A primeira é se, de facto, a música muda alguma coisa. Acredito que sim, porque a música tem um grande poder de amparar a dor. Uma das frases que mais me comoveu enquanto artista foi quando um fã me disse que, durante a sua depressão, muitas vezes, era eu, a minha voz e um quarto escuro”, afirmou, perante uma plateia atenta e silenciosa.
O artista sublinhou que essa declaração reforçou a sua convicção sobre o poder da música para amparar, denunciar e reivindicar. Ainda assim, defendeu que, muitas vezes, fazer música não é suficiente para transformar realidades. “Não existe rima com poder para colocar comida no prato, nem verso com capacidade para cobrir um teto”, frisou. Segundo o rapper, por essa razão os artistas são desafiados a “descer do palco” para participar na resolução dos problemas. “Se um artista não entender que a fama é um meio para ajudar outras pessoas, ainda não entendeu que lhe foi atribuída uma missão”.
Na segunda questão, Batchart procurou envolver a plateia ao perguntar quantas pessoas vencem quando um artista triunfa, sublinhando que a reconstrução de São Vicente foi uma vitória coletiva. “Não esperamos por ninguém. Desde a primeira hora fomos nós por nós. Fizemos tudo para servir o povo porque não dava para esperar. Confiámos que a reconstrução era uma responsabilidade de todos. E a minha terceira pergunta vem exatamente de tudo o que vimos e dos projetos em que estamos a trabalhar: onde foi todo o dinheiro doado para São Vicente?”. Uma questão lançada na presença do edil Augusto Neves, que provocou aplausos e vaias do público.

Da parte das autoridades, a resposta surgiu pela voz do presidente da Câmara Municipal de São Vicente. Ao entregar o Prémio Carreira, atribuido ao falecido compositor Vasco Martins, o autarca Augusto Neves falou da honra de participar na cerimónia e realçou a disponibilidade da CMSV em assumir maiores responsabilidades na próxima edição dos CVMA. O autarca destacou ainda o facto de a ilha acolher um evento desta dimensão apenas nove meses após uma forte tempestade, referindo que a cidade se encontra agora limpa, a economia a funcionar e as estradas operacionais. “Os CVMA estiveram em Salamansa e circularam por uma estrada reconstruída. Isso significa que o dinheiro está a ser bem empregue”, declarou, em resposta à questão levantada por Batchart.
O público voltou a reagir com vaias e a apresentadora Maria João Silveira procurou encerrar a intervenção. No entanto, Augusto Neves prosseguiu, afirmando que vive diariamente a realidade da ilha, acompanhou os efeitos da tempestade e conhece o trabalho realizado pela população.






