MDSV relembra naufrágio do navio Vicente, exige mais segurança marítima e responsabilidades ao Estado de Cabo Verde

O Movimento para o Desenvolvimento de São Vicente (MDSV) reivindicou hoje o direito dos cabo-verdianos de viajar em navios seguros, com tripulantes formados e experientes e mais responsabilidade às autoridades competentes. Esta declaração foi avançada à imprensa, proferida na cidade do Mindelo pelo presidente deste movimento cívico, Maurino Delgado, para assinalar os onze anos do naufrágio do navio Vicente, em que, dos 26 passageiros e tripulantes a bordo, onze morreram.
A conferência de imprensa, que iniciou com um minuto de silêncio em memória das vítimas deste naufrágio, abordou ainda os processos de indemnização pendentes e dos sobreviventes, abandonados à sua sorte. Segundo Maurino Delgado, 08 de janeiro de 2015 é uma data marcante e deve fazer parte da memória coletiva. “Temos a preocupação de lembrar esta data porque as circunstâncias e as consequências deste naufrágio devem servir para a consciencialização da nação de que um país não pode ser governado e gerido na base de descuidos e da irresponsabilidade institucional,” disse.
Entende este ativista que o naufrágio do navio Vicente resultou de uma combinação e coincidência de fatores, mas o que mais pesou foi a negligência institucional, no caso do Serviço da Administração Marítima do Estado. Por isso, pontua, a sociedade civil devia abraçar os assuntos de segurança marítima com mais determinação e firmeza. “É um sector de extrema importância para o bem-estar e o desenvolvimento do país. A sociedade civil deve reivindicar uma administração marítima e uma tutela competentes”, reforça.
Maurino Delgado afirma que, há cinco anos, vem levantando questões de segurança marítima, mas o Governo não escuta, não sabe de nada e foge às suas responsabilidades. Adverte, no entanto, que deixar este assunto arrastar-se acaba sempre em tragédias. Para respaldar esta sua afirmação, recorda os vários artigos de opinião do Comandante da Marinha Mercante, João de Deus da Cruz, a denunciar irregularidades e irresponsabilidades da Agência Marítima e Portuária. Cita, igualmente, o relatório elaborado pelo engenheiro Silvio Duarte sobre o naufrágio. Trata-se, diz, de um documento completo do ponto de vista técnico, que demonstra de forma clara e convincente os fatores que provocaram esse acidente.
Por isso, reivindica viajar em navios seguros com tripulantes bem formados e experientes. Elenca, a título de exemplo, os vários acidentes ocorridos em 2025, designadamente com o navio Nhô Padre Benjamim na zona da Preguiça (S. Nicolau), Liberdadi junto ao Porto da Praia, com 144 passageiros a bordo, e o encalhe de um barco na ilha do Maio com 19 tripulantes. “É uma situação que levanta dúvidas quanto à administração marítima e, consequentemente, ao Governo”, sublinha, apelando a uma maior atenção das às questões de segurança marítima para evitar acidentes mais graves e perdas de vidas.
O acidente com o navio Vicente, recorda-se, ocorreu a 8 de janeiro de 2015. Dos 26 passageiros e tripulantes a bordo, 11 morreram. Mas os resultados poderiam ter sido outros caso os navios que participaram nas buscas – Ostreia e Kriola – estivessem nas melhores condições. Essa fonte lembra, por exemplo, que o Kriola tinha os projectores avariados e, por causa disso, passou por diversas vezes pelos náufragos, e não os viu. “A avaria de um simples projector terá contribuído para que muitas vidas não fossem salvas, como consta do relatório do engenheiro de Silvio Duarte”, assegura.

Segundo Maurino, o naufrágio lançou as famílias para a desgraça porque, para além de perderem os familiares, perderam também o sustento. “A cada família foi atribuída uma pensão de 20 mil escudos. Vivem na pobreza extrema. Quanto aos sobreviventes, não tiveram direito a nada. Se os tribunais funcionassem, o Estado já tinha sido condenado a indemnizar as vitimas”, frisa, lembrando que o barco operava sem seguro. “O Estado, por imperativo do artigo 16 da Constituição da República, como pessoa de bem, deve assumir as responsabilidades civis e propor uma indemnização às vítimas, numa base de negociação para agilizar o processo e fazer justiça às vitimas”, acrescenta este ativista mindelense.
Em jeito de remate, desafia os deputados nacionais e a Associação de Marítimos a pegar este assunto e, em jeito de sugestão, pede à administração marítima e portuária para se inteirar do teor dos documentos.







